Arquitetura

Antropologia da forma urbana

3 junho, 2016 | Por Isabela Gaglianone

O historiador de arte Joseph Rykwert (Varsóvia, 1926) vem há anos dedicando-se a pensar a arquitetura e a urbanidade.

Em A ideia da cidade: antropologia da forma urbana em Roma, Itália e no mundo antigo, a partir do estudo da Roma Antiga e de seus mitos fundadores, o autor descreve a origem das estruturas simbólicas que foram prioritárias na fundação daquela cidade, sobrepujando mesmo as estratégias comerciais e militares. Atualmente, analisa, no mundo desencantado em que vivemos, a simbologia possível foi substituída por técnicas de linguagem, como símbolos esvaziados, que servem apenas ao consumo global. 

Publicado no Brasil em 2006 com tradução de Margarida Goldsztajn, o livro traça uma gênese do urbano. Mostra que, ao ocupar um território, os homens o organizam segundo seus modelos cosmogônicos e princípios culturais, muito mais do que apenas funcionais. Rykwert faz, assim, uma clara referência crítica aos planos urbanísticos propostos para as cidades contemporâneas. Traz, com isto, uma ideia de cidade que se conforma culturalmente. 

Neste processo, as cidades mais recentes servem-se das mais antigas em seu processo constitutivo, formando um corpus mítico-histórico, com uma única origem arquetípica. A grande expansão física e populacional dos centros urbanos, convertidos em megalópoles, é o ponto de fuga do debate estabelecido por esta obra de referência fundamental.

Segundo Regina M. Prosperi Meyer, em artigo publicado em 2008 na revista Pós, da FAU-USP, tanto A ideia da cidade, como A casa de Adão no Paraíso [1972; edição brasileira: Perspectiva, 2003], Rykwert trata “da questão da origem” das cidades e da arquitetura: “O uso da locução ‘questão da origem’”, diz, “tem, neste caso, o objetivo de diferenciar sua interpretação da instauração da arquitetura e da cidade, procurando diferenciar sua interpretação daquelas que considerava esquemáticas, deterministas e, em última instância, simplificadoras”. Para Meyer, a “procura da ideia de cidade e, sobretudo, do conceito da cabana primitiva, como metáfora para a própria arquitetura, conduz o autor a um complexo registro da origem cultural e mítica das duas entidades, valendo-se de conhecimentos e informações que vão da paleontologia à psicanálise. Sua meta, nesses importantes textos, é mostrar que trabalhar com a questão da origem é privilegiar a dimensão de princípio e não de resultante, ou mesmo, de reflexo, tal como ainda hoje se faz, como se observa em interpretações deterministas do processo de constituição e desenvolvimento das cidades e da arquitetura. A procura da gênese, tanto da cidade como da cabana primitiva, é uma busca da compreensão das relações que se estabeleceram historicamente entre os homens e suas mais decisivas criações materiais, os quais utilizaram seus conhecimentos técnicos, suas crenças, seus desejos para as realizarem”.

Para Rykwert, cidade é a conquista mais preciosa e inalienável da civilização humana.

De acordo com Anat Falbel, em resenha publicada na revista Vitruvius: “Para Rykwert, o tradutor de Alberti, a cidade é sentida como gostaríamos que fosse a casa, e a casa constitui não somente o espaço da reconciliação das constantes essenciais da existência, mas também o lugar da memória que abriga nossas raízes e sonhos conforme escreveu Gaston Bachelard, uma das fontes de sua formação humanista. Portanto se para Paz, o poeta, ‘a poesia é a memória dos povos, e uma de suas funções é a transfiguração do passado em presença viva’, para Rykwert, o arquiteto, a casa – protótipo conceitual da cidade – é a memória que perpetua e recompõe no tempo, os homens que ali viveram e por ela passaram, suas vontades, pensamentos, leis e sentimentos”. Para Falbel, a publicação do ensaio de Rykwert a respeito da cidade etrusca-romana, originalmente publicada no último número da revista Forum, defendia “através de um sólido estudo de caráter arqueológico e antropológico que a implantação e o desenho das cidades antigas do ocidente não eram fundamentadas em princípios funcionais ou utilitários, mas em uma visão cosmológica presente como um fenômeno universal entre todos os povos. Rykwert buscava demonstrar a concepção de cidade dos antigos romanos figurada como reflexo do universo, de modo que a fundação de cada novo assentamento constituía um ritual da afirmação da cosmogonia, ou da criação original do mundo. O ritual consistia basicamente no estabelecimento da intersecção de dois eixos o cardo e o decumanu que alinhados com os eixos primevos do universo pretendiam evocar – juntamente com o plano no qual se articulavam os edifícios institucionais e os monumentos da cidade – o drama, a estrutura e o equilíbrio cósmico, que por sua vez eram comemorados pela renovação do ritual que se dava em festividades recorrentes e regulares. O paralelismo encontrado nas civilizações mediterrâneas, no oriente e nas sociedades tribais da África e das Américas no tocante às correspondências entre assentamentos e cosmos, implicava para o autor na existência de um modelo fundamental do pensamento humano enraizado na estrutura biológica do homem, e cuja essência estaria na reconciliação do indivíduo com seu próprio destino”.

Toda construção, qualquer moradia humana ou edifício comunal, para Rykwert, constitui de certa forma uma anamnésia, ou a memória da fundação do centro do mundo.  

Para Fernando Diniz Moreira, em resenha também publicada pela revista Vitruvius, texto que é um trecho adaptado da introdução do livro: “Rykwert mostra que o tecido urbano que estrutura a vida da cidade precisa ser mais duradouro do que aquela sociedade específica que o gerou. Os tecidos urbanos devem ser claramente reconhecíveis de modo a permitir ao cidadão de uma época ler sua cidade, entender seus níveis superpostos, e, o mais importante, situar-se em relação aos seus antepassados e aos seus concidadãos. O objetivo de Rykwert não consiste em mostrar como era o planejamento das cidades na Antigüidade, mas sim, como os planejadores de cidade pensavam seu ofício e como recorreram aos rituais e mitos para formar o ambiente urbano”. Ao contrário do possa parecer, o autor, porém, não adota uma visão idílica, pelo contrário, “mostra-se ele plenamente consciente das mazelas e problemas da cidade antiga e não advoga um retorno a uma suposta ordem antiga”. Rykwert dedica-se primordialmente à cidade etrusca e romana, explica Moreira, “como uma obra simbólica que fazia sentido para seus cidadãos, que correspondia aos seus anseios simbólicos. A forma da cidade, suas muralhas e entradas, seus espaços urbanos e seus edifícios públicos principais eram construídos tendo como base uma série de rituais e cerimônias. Esses rituais situavam os romanos dentro de um universo reconhecível por eles próprios”. Moreira aponta ainda que: “Os ritos de fundação de cidades, portanto, estavam muito próximos das experiências religiosas. Cada fundação de uma cidade romana, por exemplo, reiterava a fundação da própria Roma que, por sua vez, representava a própria criação do mundo. De fato, a construção de uma cidade, ou mesmo de uma casa, em muitas culturas é feita à semelhança de uma instituição divina que simboliza o centro do mundo. Os rituais de fundação detinham uma importância capital para a vida de uma comunidade, pois afirmavam que a estrutura urbana estava em harmonia com as forças que regem o cosmo. Esses rituais eram constantemente rememorados em seus monumentos e templos. Rykwert mostra como esses rituais sobreviveram, embora transformados e atenuados, até a o fim da Idade Média e o início da Era Moderna”.

Joseph Rykwert foi professor do Royal College of Art de Londres, obtendo seu título de doutor em 1970 e leccionou nas universidades de Essex e Cambridge. Em 1988 estabeleceu-se nos Estados Unidos e atualmente lecciona História da Arte na Universidade da Pensilvânia. É uma importante referência para a história da cultura e, em particular, da cidade, da arquitetura e do urbanismo. Foi, desde os anos 60, um ativo colaborador de influentes publicações, principalmente da italiana Domus e da holandesa Forum, nas quais publicou, como artigo, textos que, mais tarde, ganharam formato de livros.

Outros de seus livros publicados no Brasil são: A sedução do lugar – A história e o futuro da cidade [Martins Fontes, 2004], A casa de Adão no paraíso [Perspectiva, 2009], A coluna dançante – Sobre a ordem na arquitetura [Perspectiva, 2015], Lugares da memória – Memoir [Perspectiva, 2015].

 

 

A IDEIA DE CIDADE: ANTROPOLOGIA DA FORMA URBANA EM ROMA, ITÁLIA E NO MUNDO ANTIGO

Autor: Joseph Rykwert
Editora: Perspectiva
Preço : R$ 51,10 (330 págs.)

 

 

 

 

 

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