matraca

Inacabado

12 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

 

“Como deixar a marca do seu caminho em um mundo que devora tudo tão rapidamente? Acho que o que persigo é dar voz às pessoas, objetos e lembranças que não teriam espaço no mundo dos grandes espetáculos. Persigo alguma permanência em um espaço em que tudo se dissolve”.

 

O poeta e jornalista mineiro Donizete Galvão teve durante sua vida sete livros publicados, entre os quais Azul Navalha (1998), que lhe rendeu o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e indicação para o Prêmio Jabuti, e, mais recentemente, O Homem Inacabado (2010), livro que foi finalista do Portugal Telecom e segundo colocado no Prêmio da Bienal de Poesia de Brasília.

Um poeta sensível à brutalidade da vida urbana, que conscientemente fugiu do puro do esteticismo vazio e optou por versos tradicionais, compostos sem o experimentalismo de alguns contemporâneos: “Não sinto essa necessidade imperiosa de ser experimental para estar em sintonia com o caos contemporâneo. No meio dessa avalanche de videoclipes, citações, paródias, me parece que querer desestruturar a linguagem seja mais conservador”, disse o poeta, conforme artigo do jornal Folha de São Paulo, publicado em 2003 por ocasião da publicação de seu livro Mundo Mudo; no mesmo artigo, disse também: “Hoje o homem se vê transformado em mais um recurso, em uma matéria-prima, para ser usado e descartado. Acho que todo poeta tenta despertar no seu leitor o sagrado que ainda está dentro dele adormecido”.

Em O homem inacabado, há um humanismo desiludido, “os corpos já nascem em débito” e “o pensamento gira como um disco riscado”. O homem, solitário e finito, transformado em objeto em desuso, percebe a miséria do corpo, as ruínas do mundo, as tragédias cotidianas.Sobre esse último livro de Donizete, Dirceu Villa escreveu, na revista Modo de usar: “… um belo livro, limpo de quaisquer vestígios dos atritos vulgares do mundo literário; a arte da palavra ela-mesma, um livro feito da percepção das coisas, e de um poeta que depurou seu uso do verbo ao ponto de completa intimidade com ele”.

O crítico e poeta Reynaldo Damazio, editor de O homem inacabado, analisa: “Ele vinha de uma tradição do modernismo e misturava muito elementos como a vida do campo – de onde ele veio, de um sítio – com as angústias do homem urbano, na grande cidade. Ele fazia essa mistura muito bem, da memória de infância e a vida, digamos, tensa das grandes cidades”. Segundo ele, “este último livro é bastante forte, o homem que não se encontra, que vai perdendo a identidade nas grandes cidades. Lida com questões bastante profundas: solidão, isolamento, violência”.

O poeta Claudio Daniel, editor da revista Zunái e curador de literatura no Centro Cultural São Paulo, definiu: “Donizete Galvão desenvolve, em sua poesia, um catálogo de motes obsessivos, em que se destacam tempo, memória, cidade, insetos, animais, pequenos acontecimentos da jornada ordinária e a busca da epifania possível numa era de “homens inacabados”. Para Claudio Daniel, o lirismo do poeta, “centrado na carnadura das palavras e das coisas, chega a um grau de ebulição em Mundo mudo, de 2003, e, sobretudo, em O homem inacabado, de 2010, de onde extraímos essas linhas: “Num átimo, / a picada da serpente. / Abre-se a ferida / que nunca sara / Que não supura. / Coleção de escaras / que saem à unha / e renascem / novas crostas. (…) A dor: / veneno. / Ninguém quer / sua companhia”.

As pesquisadoras Audrey Castañón de Mattos e Márcia Valéria Zamboni Gobbi, no artigo “O espelho perverso do poeta”, definem: “O homem que adentrou o século XXI é um homem fragmentado, dividido entre as milhares de possibilidades de sua época e suas amarras históricas, como o trabalho, a velhice, a dor. É um homem em constante processo de conhecimento e de construção de si mesmo. Por meio de uma série de relações intertextuais e do encadeamento quase vertiginoso de ideias e imagens, O homem inacabado, de Donizete Galvão, procura apreender esse homem”.

 

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Fachada

 

Logo vai terminar o prazo

para o homem construir sua fachada.

Ele continua em andaimes.

Provisório.

Exibe máscaras cambiantes.

Sua face inconclusa,

sustentada por ferragens,

parece esconder que,

em todos esses anos de obra,

ergueram-se inúteis plataformas

para edificar um escombro.

 

(poema de O homem inacabado)

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O HOMEM INACABADO

Autor: Donizete Galvão
Editora: Portal Editora
Preço: R$ 25,00 (80 págs.)

 

 

 

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Invenção do branco

 

“…all this  had to be imagined

as an inevitable knowledge.”

Wallace Stevens

 

O tanque é o avesso da casa.

A rebarba.

A ferrugem tomando conta da boca.

O tanque é a parenta decaída,

que machuca os olhos das visitas

com suas carnes rachadas.

O tanque é onde se lava o coador

e o pó de café de seguidas manhãs

desenha uma poça de água preta.

Uma arraia-miúda,

ervas e craca e limo,

flora sem -vergonha,

infiltra-se em suas paredes.

À beira do poço,

alguém imaginou copos-de-leite.

Bebendo a umidade,

em verde e branco brotaram.

Reinventados pela distância,

erguem-se vívidos,

mais brancos que o branco,

artifício de vidro.

Recém-nascidos.

Só porque eles existem,

o tanque e seu corpo saloio

foram salvos do esquecimento.

 

(poema de O silêncio do pedra)

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