Literatura

Haverá um dia em que os rios não morrerão de sede?

11 Abril, 2018 | Por Morada das Histórias

Uma leitura comparada entre os livros
Um dia, um rio e Os rios morrem de sede 

Ilustração de André Neves, do livro “Um dia, um rio”

 

Na tarde do dia 5 de novembro de 2015, ocorreu o rompimento da barragem de rejeitos de mineração do Fundão, situada no subdistrito de Bento Rodrigues (35 km de distância em relação ao município de Mariana – Minas Gerais). A empresa responsável pelo controle das atividades de extração nessa localidade é a Samarco Mineração S.A., um empreendimento multinacional conjunto das maiores empresas de mineração do mundo (a brasileira Vale S.A. e a anglo-australiana BHP Billiton).

A lama de 39,2 milhões de m³ de rejeitos de minério se alastrou por cerca de 650 quilômetros entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo – percorrendo os rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce até alcançar o Oceano Atlântico. Ecossistemas foram extremamente afetados (animais e plantas morreram), denúncias de contaminação da água foram apresentadas aos órgãos ambientais e ao Ministério Público e pescadores de comunidades ribeirinhas mineiras e capixabas perderam boa parte das condições de sobrevivência e trabalho [2].

Um dia, um rio é um livro que nasceu a partir de um pedido de Márcia Leite, coordenadora da editora Pulo do Gato, motivada pelos sentimentos de angústia, indignação, denúncia e revolta causados pela maior catástrofe ambiental já registrada na história do Brasil – o desastre de Mariana, cidade localizada em Minas Gerais.

A partir deste contexto, as palavras do mineiro Leo Cunha [3] e as ilustrações do pernambucano André Neves [4], criadores da obra aqui analisada, apresentam a história de um rio/menino que, de repente, tem sua vida transformada pela inundação provocada por uma lama/monstro/máquina. O livro foi publicado em outubro de 2016 – um mês antes, portanto, do primeiro aniversário da catástrofe que ocorreu e vitimou o vale do Rio Doce.
Leo Cunha afirma, em entrevista para a Revista Crescer, que seu desejo era “falar desse caso para as crianças de maneira poética, literária, sem ser didático. Procurei criar uma força simbólica e afetiva sem o tom de denúncia. Eu vi muitas reportagens, visitei a região, então, para escrever, precisei mergulhar na linguagem. Pensei o rio como um personagem que conta a vida antes e depois do desastre”.

Mas, como falar de forma profunda e delicada sobre essa tragédia humana e ambiental com as crianças e os adultos? Léo Cunha explica, na mesma entrevista, que a temática não está relacionada apenas ao meio ambiente, “mas também com respeito, ganância, resistência. Vários assuntos permeiam essa história de maneira pouco explícita e dão margem a muitas discussões. O papel da literatura é esse: oferecer um material rico, em primeiro lugar, para curtir texto e imagens enquanto obra de arte. E, depois, na segunda ou terceira leitura, derivar para outras reflexões. O caso do Rio Doce é o mote do livro, mas quantos outros no Brasil não estão sofrendo? Há várias maneiras de matarmos nossos rios”.

Desse modo, a poesia e a imagem estão de mãos dadas e colaboram para uma conversa criativa e inteligente – distante de qualquer didatismo estreito ou tentativa de “moral da história” – sobre a temática que envolve a relação entre a sociedade e a natureza. A personagem do rio/menino, de Leo Cunha e André Neves, nos conta, inicialmente, que:

Minha dança colore os mapas,
Meu canto refresca as matas.
Minhas veias irrigam florestas,
Alimentam o serrado,
Aliviam o sertão.

A narrativa poética do rio/menino lembra a vida de suas margens, das tribos, povoados e gentes, dos pescadores e seus “causos”, dos viajantes e suas lembranças que caminham e dos cantos encantados dos menestréis. De um tempo em que o menino foi um doce rio/bacia/vale.
O rio/menino se vê, de repente, atingido por um imenso desastre. Um monstro/máquina lança de forma brutal e intensa sua lama. O rio/menino nos faz ouvir o seu lamento:

Meu leito virou lama,
Meu peito, chumbo e cromo.
Minhas margens, tristeza.
Eu era doce,
Hoje sou amargo.

André Neves é também autor dessa narrativa, já que suas ilustrações conseguem expressar toda a dramaticidade que envolve a história. Nas primeiras imagens do livro, um cachorro e algumas crianças estão repletas de objetos e brinquedos para se divertir com a água (toucas, escafandro, varas, patinho de borracha, boias, barquinhos, baldes).

O encontro com o gigante/inimigo que despeja lama por toda a história é uma ilustração que evidencia novos rumos na vida de todos. Imagens cobertas de muito barro, um quase silêncio a tomar conta dos acontecimentos, móveis quebrados, fotos perdidas, peixes carregando casas em suas cabeças são mostras de um desastre nunca antes visto. Lavadeiras, campinhos de futebol, escola, gritos de crianças, apito de trem, cavalos, igreja e seu sino, noiva, festas de domingo e as lavadeiras das margens – tudo desapareceu levado pela enxurrada de lama sem fim. Restaram apenas bonecas sem ninguém para brincar e cachorros assustados.

Conforme indica Bia Reis, do blog Estante das Letrinhas, “André narra com imagens coloridas e que também se modificam: o rio claro vira marrom, com a lama, e depois vermelho, de sangue”. André Neves nos conta, na orelha do livro em questão, que o “poema de Leo chegou ao meu olhar como um grito de socorro tardio. O Rio Doce, indefeso, já havia aceitado sua tragédia. Só restava-me gritar também, por imagens”.

Na orelha do livro Um dia, um rio, Leo Cunha nos conta que escreveu esta história como “uma homenagem ao Rio Doce e a todos os rios que ainda banham, alimentam e enriquecem o nosso povo”. Já André Neves diz, ainda na orelha da mesma obra, que esta é sua “forma de chorar com o tempo que, como água, correrá ao longo do caminho em que o próprio Rio Doce se reconstrói e se destina[5].

A obra de Leo Cunha e André Neves pode ser lida em boa companhia com outro trabalho sobre o mesmo tema, publicado há quarenta anos pelo escritor mineiro Wander Piroli (1931-2006). Relançado em 2015 pela editora Cosac Naify e reeditado em 2017 pela SESI-SP, Os rios morrem de sede foi originalmente publicado em 1976 e rendeu ao seu autor o prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil.

Pai e filho se preparam para um dia inteiro de pescaria no Rio das Velhas. As expectativas do menino Bumba são grandes, mas a mãe mostra certo receio sobre essa empreitada:

– O trem sai de madrugada – disse o homem.
– Trem – exaltou-se o menino. – Mãe, nós vamos de trem.
– Bumba não vai gostar – observou a mulher.
– Eu sei – disse o homem.
– Pai – disse o menino –, por que mamãe tá falando que eu não vou gostar?
– Lá não tem mais peixe – disse a mulher.

O garoto parece não acreditar. Prefere, então, pescar em outro canto – mas a mãe intervém e explica que o pai tem lá seus motivos para ir neste lugar:

– No duro, pai?
– Parece que sim.
Então vamos no Areião – propôs o menino.
– Bumba – disse a mulher –, seu pai está querendo ir num lugar onde ele ia com o seu avô. Seu pai era do seu tamanho e era lá que eles iam.

Após um percurso de trem e caminhadas, pai e filho estão no Rio das Velhas. O tempo passa e, como previsto, ambos não conseguem pegar nada. Eis que surge um homem com uma canoa cheia de areia suja – e o pai do Bumba, durante um breve momento, conversa com ele:

– Aqui já deu muito peixe – disse o homem da canoa.
– Puxa vida, se deu.
– Ah, então o senhor pegou aquela boa.
– Eu vinha com meu pai.
– O senhor lembra da quantidade de gente que o trem despejava aqui? Ninguém saía sem peixe.
– E o rio era largo, profundo e limpo.
– Agora tá essa tristeza.
– Virou esgoto.

A conversa é interrompida pelo menino, impaciente com a situação: – Vãobora, pai. O filho está decepcionado com a pescaria do dia, mas percebe que aquele momento representa tristeza e revolta para o seu pai, obrigado a presenciar a água encardida do velho rio.

Vale ainda dizer que Wander Piroli [6] escreveu sobre sua experiência de garoto, que também viajava para pescar com seu pai no Rio das Velhas. Conforme o próprio autor nos conta, em uma espécie de post-scriptum publicado na edição da Cosac Naify: “Então eu pego o velho trem suburbano e volto ao Rio das Velhas com o meu filho Bumba. Sabemos que o rio mudou e que não tem mais peixes”. Mesmo assim, lá está Wander Piroli e seu filho: “Mas vou lá com o Bumba, como se estivesse indo com meu pai, há quarenta anos. Eu sou o Bumba e Bumba sou eu. Como papai então era eu, e agora sou ele”.

Estamos, sim, diante de uma obra que retrata a trágica relação da sociedade com os rios e o meio ambiente – mas podemos afirmar também, importante ressaltar, que são as tradições familiares e os diálogos entre pai, mãe e filho que permitem nos aproximarmos de forma poética dessa temática.

O livro Os rios morrem de sede, em sua versão mais recente (Cosac Naify/SESI-SP), está ilustrado pelo também mineiro Marcelo Eduardo Lelis de Oliveira, um dos principais artistas quadrinistas do Brasil. Para estabelecer uma conversa com acontecimentos narrados pela história, Lelis se vale de traços escuros e das cores. O preenchimento de laranja representa todas as memórias do que está sendo relatado, sempre em contato e tensão com o presente vivido das ilustrações em branco.

Um dia, um rio termina com certo otimismo, lembrando que as águas e as flores conseguem brotar de situações difíceis e inesperadas, dos lugares mais improváveis. A obra apresenta uma esperança de renovação e desejo de transformação da situação atual para as futuras gerações. Já Os rios morrem de sede se encerra de forma surpreendente, com a cumplicidade de um palavrão compartilhado por pai e filho. Tudo isso diante de um rio que, um dia, foi fonte de vida e felicidade. Uma dura constatação, fruto da memória de uma geração que nadou e se alimentou das águas que, agora, parecem mortas para todo o sempre.

Mesmo com todas as diferenças no período em que foram escritos e nas distintas abordagens escolhidas para relatar a temática ambiental e humana, os livros de Leo Cunha/André Neves e Wander Piroli nos provocam a mesma pergunta: os rios sempre morrerão de sede?

 

 

 

UM DIA, UM RIO

Autor: Leo Cunha / ilustrações de André Neves
Editora: Pulo do gato
Preço: R$ 43,50 (32 págs.)

 

 

 

 

 

 

OS RIOS MORREM DE SEDE

Autor: Wander Piroli / ilustrações de Lelis
Editora: Cosacnaify
Preço mínimo: R$ 13,00 (47 págs.)
[disponível apenas em sebos]

 

 

 

 

__________
Notas:

[1] O Morada das Histórias é um grupo de cultura da infância que desenvolve atividades de arte-educação, mediação de leitura e contação de histórias de narrativas orais populares e obras de literatura contemporânea desde 2014 – tendo se apresentado em escolas públicas, praças, orfanatos, bibliotecas e festas de aniversário em diversas cidades do estado de São Paulo e de Minas Gerais. Maiores informações sobre nossas atividades artísticas cotidianas podem ser encontradas nos seguintes endereços: facebook.com/moradadashistorias, @moradadashistorias (Instagram) e moradadashistorias.wordpress.com.


[2] Para maiores informações e relatos a respeito do desastre ambiental de Mariana, conferir as seguintes reportagens: A onda de Mariana e A terra devastada, ambas publicadas na Revista Piauí e Um ano de lama, elaborada pelo jornal Folha de São Paulo.


[3] Leo Cunha é autor de mais de 60 livros – entre literatura infantil e juvenil, crônicas e poesia. Suas obras foram agraciadas com diversos prêmios no campo da literatura infantil e juvenil, dentre os quais podemos destacar: João-de-Barro, Jabuti, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), Biblioteca Nacional. Contos, poemas, traduções, peças infantis e letras de músicas também fazem parte do repertório de suas produções – professor universitário na PUC-Minas e UniBH.


[4] Arte-educação, pesquisa, escrita, artes plásticas e ilustração são as principais ocupações de André Neves – tendo em sua carreira angariado diversos prêmios (Jabuti de Ilustração, FNLIJ e Açorianos de Literatura) e reconhecimento pela arte de seus livros infantis e juvenis.


[5] Em convergência com essa ideia de André Neves, o próprio Rio Doce busca agora se reconstruir ao entrar com uma ação na Justiça contra o Governo Federal e o Governo de Minas Gerais. Para maiores informações ver reportagem no site IHU.


[6] Wander Piroli também tem outros livros que tiveram importante repercussão na literatura infanto-juvenil, dentre os quais podemos destacar: O menino e o pinto do menino (1975) – obra que deu notoriedade nacional ao autor, sendo considerada por alguns críticos “um divisor de águas na literatura para crianças” –, Macacos me mordam!… (1978), Nem filho educa pai (1998) e o Matador. Esta última, publicada postumamente em 2008 e reeditada em 2014 pela Cosac Naify, conta com ilustrações do artista Odilon Moraes. Wander Piroli iniciou sua vida profissional como jornalista em Belo Horizonte. Posteriormente começou sua carreira como escritor. Ao lado do grande destaque de suas obras infanto-juvenis, podemos também citar seus livros voltados para adultos, como A máquina de fazer (1980) e Minha bela putana (1985), dentre outros. Alguns de seus textos infantis permanecem inéditos – mas a iniciativa anterior da Cosac Naify e a empreitada atual da editora SESI-SP visam publicar pela primeira vez esses escritos.

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Literatura

Itinerário de Pasárgada

28 Março, 2018 | Por Isabela Gaglianone

“Cedo compreendi que o bom fraseado não é o fraseado redondo, mas aquele em que cada palavra está no seu lugar exato e cada palavra tem uma função precisa, de caráter intelectivo ou puramente musical, e não serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores e posteriores. Não sei se estou sutilizando demais, mas é tão difícil explicar porque num desenho ou num verso esta linha é viva, aquela é morta.” – Manuel Bandeira

Homem peixe, ruína da entrada do palácio S, em Pasárgada.

A conhecida autobiografia de Manuel Bandeira, Itinerário de Pasárgada, foi publicada pela primeira vez em 1954. Então com 68 anos de idade e poeta já consagrado, Bandeira revisita seu refúgio onírico, a famosa Pasárgada que o acompanhou durante a vida desde seus dezesseis anos, quando descobriu o nome desta pequena cidade, nas montanhas da Pérsia, fundada por Ciro.

“Vou-me embora pra Pasárgada”, escrevera em 1930, batizando o notório poema publicado em Libertinagem; símbolo de evasão, de “toda a vida que podia ter sido e que não foi”, Pasárgada acabou por se tornar uma identificação do itinerário da própria busca literária do poeta.

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lançamentos

A liberdade é uma luta constante

19 Março, 2018 | Por Isabela Gaglianone

“Colocar a violência em primeiro plano quase inevitavelmente serve para obscurecer as questões que estão no centro das lutas por justiça” – Angela Davis.

Angela Davis

A liberdade é uma luta constante, de Angela Davis, acaba de ser lançado no Brasil pela Boitempo. O livro reúne três entrevistas, concedidas por Davis ao ativista Frank Barat – responsável pela organização do livro e pelo texto introdutório à edição – ao longo de 2014, além de sete discursos, proferidos pela militante, entre 2013 e 2015. Ao longo dos textos, Angela Davis aborda diversas formas de submissão humana e, como pontua a escritora Conceição Evaristo, no texto de orelha, “nos traz novas orientações para pensar a luta contra o racismo, a machismo, o sexismo e outras formas de subjugação existentes em nossa sociedade”.

Ativista, professora, ícone do movimento Black Power, autora de livros já clássicos, como Mulheres, raça e classe [Boitempo, 2016], Davis discute Ferguson – em 2014, Michael Brown, de 18 anos, foi baleado por um policial na cidade de Ferguson, no estado do Missouri, dos Estados Unidos, caso que revelou um padrão racista na polícia local -, a situação da Palestina, o abolicionismo prisional, iluminando as conexões entre as lutas contra a violência estatal e a opressão ao longo da história e ao redor do mundo. A liberdade não só é uma luta constante, como uma luta global.

Em tempos dragados pela lógica neoliberal, em que mais parece que a liberdade é um luto constante, os textos de Angela Davis são inspiradores. A intelectual, que permanece entusiasta da liberdade da população pobre e trabalhadora, mostra que, observada sob um ângulo mais amplo, a história dos movimentos de libertação prova que forças aparentemente indestrutíveis podem ser facilmente destroçadas. Em tempos de execução de uma ativista, mulher e negra, no Brasil, a tradução e publicação desse livro grita a importância da constituição de bases essenciais para a luta contra as forças máximas do sistema corporativo e para a personificação coletiva da resistência.

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matraca

História dos crimes e da violência no Brasil

31 Janeiro, 2018 | Por Isabela Gaglianone
Gravura de Hansen Bahia

Gravura de Hansen Bahia

História dos crimes e da violência no Brasil, coletânea organizada pelas historiadoras Mary Del Priore e Angélica Müller, acaba de ser lançada pela Editora Unesp. Trata-se de uma reunião de ensaios e artigos, escritos por autores de diversas áreas, que buscam compreender os mecanismos de propulsão da violência, em suas variadas manifestações, no Brasil.

As organizadoras perguntam: “Em nossa sociedade, cresce a violência ou nossa sensibilidade em relação a ela?”. Em torno desta indagação, o livro compõe um mosaico histórico, que convida à reflexão sobre sobre as formas de infrações que permeiam nosso cotidiano, sobre os crimes e violências presentes em nossa sociedade, praticados de variados modos e em diversas esferas.

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lançamentos

Doutor Jivago

19 Janeiro, 2018 | Por Isabela Gaglianone

— Metafísica, meu caro, os médicos me proibiram. Meu estômago não digere.
— Deus o proteja. Deixemos isso pra lá. O senhor é um felizardo! Essa vista é admirável! Decerto vive aqui e nem a percebe.
Observar o rio fazia doer os olhos. As águas ondulavam e refletiam a luz do sol como folhas de metal. De repente, a superfície se enrugou. Uma balsa navegava para a outra margem levando cavalos, carroças, mujiques e mulheres.
— Olhe, ainda são cinco horas — disse Ivan Ivánovitch. — Aquele é o expresso de Sízran. Ele passa por aqui alguns minutos depois das cinco.
Ao longe na planície, da direita para a esquerda cruzava um trem amarelo e azul, parecendo menor pela distância. De repente, perceberam que ele parou. Debaixo da locomotiva, tufos de vapor branco se elevaram. Um pouco depois, ouviram-se apitos de alarme.
— Estranho — disse Voskobóinikov. — Há algo errado. Não há razão para ele parar ali no pântano. Alguma coisa está acontecendo. Bem, vamos tomar o nosso chá.

matraca_pasternak_IV

O romance Doutor Jivago, do russo Boris Pasternak acaba de ganhar uma cuidadosa edição pela Companhia das Letras, com tradução de Sônia Branco e Aurora Fornoni Bernardini.

Destacado por Eric Hobsbawn, em seu clássico A era dos extremos, como autor de relevância indiscutível, Boris Pasternak era poeta e, ao adentrar o terreno da prosa, produziu esta única e grandiosa obra. Seguindo a grande tradição do romance épico russo, herdeiro da prosa oitocentista, o romance traça um panorama completo da sociedade russa em um período historicamente crucial: a Revolução Russa, cujo drama e imensidão são retratados através da história do médico e poeta Iúri Andréievitch Jivago. Por seus olhos hesitantes, o leitor testemunha a eclosão e as consequências deste que foi um dos eventos mais decisivos do século. Em tempos sem esperança no que concerne à aspiração a uma vida normal, o amor de Jivago por Lara e sua crença no indivíduo ganham contornos de verdadeira resistência.

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história

“Este mundo tem as suas noites, e não são poucas”

16 Janeiro, 2018 | Por Isabela Gaglianone
Goya, gravura da série "Caprichos y disparates"

Goya, gravura da série “Caprichos y disparates”

Nas sombras do amanhã: um diagnóstico da enfermidade espiritual de nosso tempo, do historiador Johan Huizinga (1872-1945), foi publicado originalmente em 1935, frente a uma civilização ocidental desmoralizada pela Primeira Guerra Mundial e às portas de uma Segunda Grande Guerra – na qual o autor foi morto, em um campo de concentração na Holanda –, marcada pela polarização política e pela ascensão de regimes totalitários baseados em princípios pseudocientíficos, os maiores sintomas da infantilização dos indivíduos e da decadência geral de toda a cultura europeia. Huizinga intui, quase profeticamente, a derrota das utopias e o estabelecimento de um “mundo esfacelado”, em que os indivíduos são isolados, impotentes contra os grandes regimes e imersos em uma cultura cada vez mais empobrecida pelo tecnicismo e pela falta de um compromisso comum entre os homens.

O livro trata do lúdico, e de sua perda. Lê-se, já na epígrafe da obra: “Este mundo tem as suas noites, e não são poucas”.

Uma bela edição foi publicada no Brasil em 2016, pela Editora Caminhos, com tradução de Sérgio Marinho. Continue lendo

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matraca

Prometeu desacorrentado, um drama lírico em quatro atos

12 Janeiro, 2018 | Por Isabela Gaglianone

“Tenhas pena dos desamados servos
do Céu, e não de mim, que à mente entrono
a paz, qual luz no sol: é vão falar!
Chama os demônios”.

Jean Delville, "Prometheus", 1907

Jean Delville, “Prometheus”, 1907

O poeta Percy Shelley (1792-1822) compõe, com Lord Byron e John Keats, a tríade mais expressiva do poesia romântica inglesa. Pouco traduzido no Brasil, ganhou, em 2015, uma edição cuidadosa com Prometeu desacorrentado e outros poemas, a mais extensa seleção de poemas de Shelley já publicada em português. A antologia, bilíngue, foi selecionada e traduzida por Adriano Scandolara, pesquisador da obra do poeta pela UFPR. A tradução é feliz ao manter o vigor dos poemas originais.

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lançamentos

Qua! qua! ecco! così! E basta!

10 Janeiro, 2018 | Por Isabela Gaglianone
Giorgio De Chirico

Giorgio De Chirico, “La commedia e la tragedia” (1926)

Pirandello em cinco atos reúne cinco peças de Luigi Pirandello (1867-1936), um dos mais notórios escritores italianos do século XX: “O torniquete”, “Limões da Sicília”, “A patente”, “O homem da flor na boca” e “O outro filho”. O belo volume foi publicado no final do ano passado pela Editora Carambaia, com tradução e seleção dos textos realizadas por Maurício Santana Dias, professor de Literatura Italiana e Estudos da Tradução na USP. O livro conta ainda com um ensaio do tradutor, que trata da gênese das peças e estabelece relações com outras obras de Pirandello. Parte das obras reunidas neste volume já foi encenada em palcos brasileiros, mas todas permaneciam ainda inéditas em livro no país.

A produção dramatúrgica de Pirandello é posterior à sua produção prosaica e, inclusive, as cinco peças aqui reunidas, todas de ato único, foram criadas a partir de histórias que o autor siciliano havia escrito anteriormente sob o formato de novelas. Reconhecido pela genialidade de sua produção literária em prosa, foi, no entanto, no teatro que Pirandello levou às últimas consequências as tensões entre fato e ficção, marca fundamental de sua obra.

“Minha arte é cheia de compaixão por todos aqueles que iludem a si próprios”, diz o próprio Pirandello. “Mas, é inevitável, que esta compaixão seja seguida pelo escárnio feroz a um destino que condena o homem à mentira”. Continue lendo

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história

As verdades já são imaginações

8 Janeiro, 2018 | Por Isabela Gaglianone

“Longe de se opor à verdade, a ficção não é mais do que um seu subproduto: basta-nos abrir a Ilíada para entrarmos na ficção, como se diz, e perdermos o norte; a única diferença é que a seguir não acreditamos nela. Há sociedades em que uma vez o livro fechado, se continua a acreditar e outras em que se deixa de acreditar”.

Sandro Botticelli, "Palas e o Centauro", c. 1482.

Sandro Botticelli, “Palas e o Centauro”, c. 1482.

O que é o mito? É história alterada? É história aumentada? Uma mitomania coletiva? Uma alegoria? O que era o mito para os gregos? O sentimento da verdade é muito amplo (abrange facilmente o mito), “verdade” quer dizer muitas coisas e pode até abranger a literatura de ficção. Estas são algumas das questões que norteiam o belo e erudito livro do historiador e arqueólogo francês Paul Veyne, Os gregos acreditavam em seus mitos? – Ensaio sobre a imaginação constituinte.

“A partir do exemplo da crença dos gregos em seus mitos”, diz o historiador, “eu me propus então estudar a pluralidade das modalidades de crença: crer na palavra dada, crer por experiência, etc. Por duas vezes, este estudo me projetou um pouco mais longe. Foi necessário reconhecer que em vez de falarmos de crenças, devíamos simplesmente falar de verdades”. Como colocou o escritor Gilles Lapouge, em resenha escrita para o jornal Le Monde, nesse sentido, a verdade “não é mais real que os mitos. Ela é a filha do tempo. Os homens a inventaram como inventam a História. E a verdade de agora é tão alucinada quanto todas as verdades que a precederam”.

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Literatura

Entro em cena em meu olhar

4 Janeiro, 2018 | Por Isabela Gaglianone

Janelas se iluminam. Dou um passo na sacada…

Entro em cena em meu olhar.

Minha presença se percebe como o igual e o oposto de todo este mundo luminoso que quer convencê-la de que ele a rodeia. Eis aqui todo o choque entre a terra e o céu. O instante quer me prender e o lugar acredita me cercar…

Mas o lugar com seu instante não é, para o espírito, senão um incidente – um acontecimento – um demônio como um outro… Todo esse dia, um demônio de minha noite pessoal. […] – Paul Valéry.

Esboço, Edgar Degas

Esboço, Edgar Degas

Diz o próprio Paul Valéry, sobre seu Alfabeto:

Foi-me pedido, há alguns anos, que escrevesse vinte e quatro fragmentos de prosa (ou de versos variados) cuja primeira palavra deveria, em cada um, começar por uma das letras do alfabeto. Alfabeto incompleto? Sim. É que se tratava de utilizar vinte e quatro letras ordenadas, em xilogravura, que se pretendia publicar com o auxílio de alguma literatura – pretexto e causa aparente do álbum pensado. Essas condições não me intimidam. O gravador havia omitido duas letras, as mais incômodas, aliás, as mais raras em francês: o K e o W. Restam XXIV caracteres. Veio-me a ideia de ajustar essas XXIV peças a serem escritas às XXIV horas do dia; a cada uma das quais se pode bastante facilmente fazer corresponder um estado e uma ocupação ou uma disposição da alma diferente; decisão bastante simples.

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lançamentos

“A vida dos homens é o seu caráter”

28 dezembro, 2017 | Por Isabela Gaglianone
Johann Heinrich Wilhelm Tischbein, “Goethe à janela de sua casa romana”

Johann Heinrich Wilhelm Tischbein, “Goethe à janela de sua casa romana”, 1787

A Editora Unesp acaba de trazer de volta às livrarias brasileiras a notória Viagem à Itália, de Goethe, com nova tradução, realizada por Wilma Patricia Marzari Dinardo Maas.

A Itália, para Goethe, simbolizava o sul quente e apaixonado, lugar onde o passado clássico ainda se mantinha vivo em espaços, símbolos e hábitos, para os quais procurou significado, redescobrindo-se nas interpretações que marcaram o percurso. A viagem deu-se entre setembro de 1786 e abril de 1788 e, realizada em segredo, quase clandestina, inscrevia-se no imperativo cultural, comum à época, de conhecer o solo de Horácio, Petrarca e Leonardo. A infinidade de assuntos dos quais se ocupou ao longo dessa permanência, porém, extravasa a arte e reflete os múltiplos interesses de Goethe – a tal ponto que João Barrento, responsável pela mais recente tradução do texto publicada em Portugal, cita Emil Staiger para sublinhar a “metamorfose que quase põe em perigo a unidade da pessoa do autor na nossa imaginação”. As idiossincrasias, anseios, e obsessões do autor, que no início da viagem contava com 37 anos, emergem sob o texto, desestabilizando a dicção clássica encontrada por aqueles que desejam ver na obra o ponto de passagem, o momento em que o artista amadurece por completo seu classicismo. O texto só foi publicado por Goethe muitos anos após a viagem; o Goethe “clássico” proverá o texto da temporada italiana de uma dicção variada e ao mesmo tempo autoral, unindo observações colhidas no calor da hora, ao lado de longos trechos extraídos de obras de outros viajantes que o precederam, além de reproduzir sua correspondência e alguns textos de terceiros, como do pintor Tischbein e do escritor Karl Philipp Moritz, ambos companheiros de jornada.

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Literatura

O tempo passa

22 dezembro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“Nesse calor, o vento enviou de novo seus espiões à casa. As moscas trançavam uma rede nos quartos ensolarados; as ervas daninhas que tinham crescido junto à vidraça, batiam metodicamente, à noite, na janela. Quando a escuridão caía, o clarão do farol, que nas noites escuras se estendia com autoridade sobre os tapetes, traçando seu desenho, vinha agora misturado ao luar, deslizando suave e furtivamente como se depositasse sua carícia e se demorasse e olhasse amorosamente outra vez.”

Turner, "Waves Breaking against the Wind"

Turner, “Waves Breaking against the Wind”

O tempo passa” é o título da segunda das três partes que compõem o romance Ao Farol, de Virginia Woolf. No início de 1927, ano da publicação do livro na Inglaterra, Virginia enviou uma versão dessa parte para ser publicada, em tradução, em uma revista francesa e o original em inglês permaneceu inédito até 1983, quando o pesquisador James M. Haule o descobriu. Esta versão – que difere significativamente da que foi incluída em Ao Farol e cuja autonomia parece ter sido reconhecida pela própria Virginia – foi publicada em edição bilíngue no Brasil em 2013, pela editora Autêntica, com tradução de Tomaz Tadeu.

Trata-se de um texto de beleza pungente. O fluxo de consciência perpassa a progressiva deterioração da casa de praia na qual a família Ramsay passava suas férias de verão. A poesia da narrativa ramifica metaforicamente a deterioração da casa em temporalidades diversas, desdobra-a em memórias idas, que a imagem constante do mar enfatiza, do mofo dos objetos esquecidos à afirmação de sua própria eternidade, onda após onda.

“A quietude e a beleza apertaram-se as mãos no quarto; entre os jarros com suas mortalhas e as cadeiras revestidas, nem mesmo a prece do vento, o delicado nariz dos úmidos ares marinhos, roçando, farejando, iterando e reiterando suas perguntas – ‘Irão vocês extinguir-se? Irão vocês perecer?’ – conseguem perturbar essa paz, esta indiferença, este ar de integridade, em que não há qualquer compromisso, em que a verdade estava descoberta, como se a pergunta que faziam não precisasse de nenhuma resposta: nós permanecemos”. Continue lendo

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A vida sensível

21 dezembro, 2017 | Por Isabela Gaglianone
Mark Rothko, “Yellow Over Purple”, pintura de 1956

Mark Rothko, “Yellow Over Purple”, pintura de 1956

No profundo ensaio A vida sensível, o filósofo italiano Emanuele Coccia investiga a sensibilidade, a partir do princípio de que o sensível, porque definidor de formas e limites da vida, é imagem. Através deste princípio, Coccia propõe uma nova compreensão da vida animal: segundo ele, a humanidade não é uma das categorias da animalidade, mas o seu aprofundamento, uma faculdade particular da animalidade, caracterizada pela capacidade de se relacionar com as imagens – visuais ou olfativas, gustativas, auditivas, táteis, mentais, que compõem um campo, ao qual chama “medialidade”: para o filósofo, corpo e imagem fazem parte da mesma medialidade, a vida sensível. Aquilo que conhecemos por mundo é esta esfera da sensibilidade, composta apenas por imagens.

Para acompanhar a reflexão do filósofo, deve-se aceitar, portanto, as premissas de que a imagem é o sensível e o homem é um ser sensível que vive na esfera da sensibilidade e, mesmo, por ela. Conforme aponta o escritor e crítico de arte Jean-Louis Poitevin, em artigo publicado pela revista francesa TK-21 La Revue – e apresentado no seminário “‘Vivre comme une image’- Images et politique”, em 2012 –, é possível formular “de maneira humorística uma espécie de silogismo que poderia resumir este livro: a imagem é o sensível, o homem é o sensível, portanto o homem é imagem ou vive como uma imagem”. Viver como imagem, segundo o crítico, é questão técnica e ética, artística e estética.

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Do corpo ao pó

13 dezembro, 2017 | Por Isabela Gaglianone
Fotografia de Dona Damiana no tekoha Apyka´i, em 2015

Fotografia de Dona Damiana no tekoha Apyka´i, em 2015

Do corpo ao pó – crônicas da territorialidade kaiowá e guarani nas adjacências da morte, do antropólogo Bruno Martins Morais, delineia-se em torno de uma pergunta crucial à reflexão sobre a violência, em todo seu sentido político geral e, em particular, em seu uso sobre a territorialidade indígena: como os Kaiowá e Guarani se relacionam com a morte e a com a terra, no contexto de extrema violência do Mato Grosso do Sul?

O autor sobrepõe duas categorias territoriais, uma que diz respeito à própria concepção indígena e, outra, que subentende as políticas de Estado que historicamente vincularam os Kaiowá e Guarani a um território específico. Sua investigação etnográfica percorre, a partir de reflexões sobre a violência e a morte, esses dois modelos de territorialidade. A perspectiva de Bruno Morais apresenta um panorama da disposição territorial atual dos Kaiowá e Guarani, com foco no corpo, pois, como ele diz, “impondo uma segregação no espaço, a colonização impôs aos índios uma disciplina corporal. É como estratégia de resistência a essa disciplina que eles tentam reorganizar o espaço a partir dos acampamentos de retomada. A relação com a morte e com os mortos emerge como um eixo orientador da vida sobre o território, e os dois últimos capítulos vão dedicados a etnografar essas relações e as concepções de pessoa, de corpo, e os elementos escatológicos e proféticos envolvidos nos ritos funerários. Dividido entre uma parte substantiva, e uma parte imaterial, o corpo aparece no fim como o elemento organizador da produção e da reprodução da vida social, da territorialidade, e do cosmos. Do mesmo modo, é o corpo o eixo organizador da destruição do que há nesta terra. Traduzindo um registro no outro, os Kaiowá e Guarani operam uma crítica histórica que sugere uma conciliação entre as teorias já não como opostas, mas como complementares e variadas em perspectiva”.

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Ele que o abismo viu

8 dezembro, 2017 | Por Isabela Gaglianone
Relevo que representa o deus Marduk, herança babilônica, atualmente no Museu do Louvre.

Relevo que representa o deus Marduk, herança babilônica, atualmente no Museu do Louvre.

O mais antigo registro literário conhecido – anterior a Homero, a Hesíodo e aos textos bíblicos –, a Epopeia de Gilgámesh – Ele que o abismo viu, acaba de ganhar uma excelente edição no Brasil, publicada pela editora Autêntica, com texto traduzido do acádio e anotado pelo professor Jacyntho Lins Brandão.

Ele que o abismo viu é uma das versões do mito de Gilgámesh, atribuída a Sin-léqi-unnínni (séc. XIII a.C.), e tida como a mais completa e importante desta tradição acádia. O poema babilônico foi preservado em tabuinhas de argila que foram descobertas entre 1872 e 2014. O longo texto é ainda fragmentário, porém a edição traduz sua mais ampla reconstrução, baseada em versões críticas recentes que substituíram as anteriores.

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