Arquivo da tag: história

Ensaios

Histórias de fantasma – uma leitura sobre a ciência sem nome de Aby Warburg

12 junho, 2017 | Por Isabela Gaglianone

Ex libris feito por Warburg para seu amigo Franz Boll, cuja contribuição inestimável foi a publicação da “Sphaera barbarica”, fonte fundamental para a pesquisa do caminho feito pelas concepções astrais helenísticas, da Antiguidade ao Renascimento.

Propomos uma análise panorâmica a respeito de uma das figuras mais enigmáticas da história da arte. Aby Warburg nasceu em 1866, em Hamburgo, no seio de uma família de prósperos banqueiros – o banco Warburg foi fundado no século XVIII e, quando Aby Warburg nasceu, era o maior da Alemanha. Aby era o primogênito e herdaria a responsabilidade pelos bem-sucedidos negócios da família, porém jovem ainda, abriu mão de sua primogenia em favor de seu irmão mais novo, com a condição que este lhe fornecesse, ao longo de toda sua vida, todos os livros que desejasse. Assim nasceu a então maior biblioteca privada da Europa, hoje abrigada pelo Instituto Warburg, em Londres. Na entrada da biblioteca, Warburg gravou o nome “Mnemosyne” e esta antiga deidade pagã, a musa da memória, permeia de maneira peculiar o núcleo de toda sua obra – desenvolvida até seu falecimento, em 1929. Porque a grande questão, para Warburg, diz respeito à influência da Antiguidade na cultura europeia na época do Renascimento: haveria um mito do “Reanscimento”?; o que “renasceu” da Antiguidade no Renascimento?; será que “renasceu”, ou há uma memória freática que pode ser percebida na arte? É o que pretendemos mostrar doravante. Continue lendo

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Literatura

Memórias de Adriano

8 fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

Mausoléu de Adriano, em Roma [atualmente, Castel Sant’Angelo]

Memórias de Adriano, da escritora belga Marguerite Youcenar (1903 — 1987), é uma autobiografia imaginária do imperador romano. Adriano de fato escreveu uma autobiografia que não sobreviveu até nosso conhecimento. Publicada originalmente em 1951, foi a obra de Youcenar que a tornou internacionalmente conhecida.

O romance é escrito em primeira pessoa, em forma de uma carta testamento, escrita por Adriano e endereçada a seu neto adotivo, o futuro imperador Marco Aurélio. Na carta, o imperador produz confissões, à maneira de uma anamnese, e assim faz um balanço de seu próprio tempo e existência, de modo que amalgamam-se suas memórias pessoais às memórias históricas. Através da voz de Adriano, falam inúmeras outras, e o retrato memorialístico de sua personalidade, humana por excelência, é também o retrato de uma época, em rigorosa reconstituição histórica. Sua narrativa associa filosoficamente dimensões sociológica e psicológica.

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lançamentos

O ateísmo não é tão fácil como parece

22 setembro, 2016 | Por Isabela Gaglianone

“[…] a religião segue a trajetória da arte e da sexualidade, dois outros principais elementos do que poderíamos chamar esfera simbólica. Também tendem a passar da propriedade pública para mãos privadas à medida que avança a Idade Moderna. A arte que outrora louvava Deus, lisonjeava um senhor, entretinha um monarca ou celebrava as proezas militares da tribo passa a ser basicamente uma questão de autoexpressão individual”.

Salvador Dalí, da série de gravuras feitas para ilustração de “A Divina Comédia”, de Dante [c. 1960]

Acaba de ser publicado no Brasil o livro A morte de Deus na cultura, de Terry Eagleton, com tradução de Clóvis Marques, pela editora Record. Eagleton investiga as contradições, dificuldades e significados do desaparecimento de Deus na era moderna; de acordo com sua apresentação ao volume: “Este livro fala menos de Deus que da crise gerada por seu aparente desaparecimento. Com isso em mente, parto do iluminismo para no fim chegar à ascensão do Islã radical e à chamada guerra ao terror. Começo mostrando de que maneira Deus sobreviveu ao racionalismo do século XVIII e concluo com seu dramático ressurgimento em nossa época supostamente sem fé. Entre outras coisas, esta narrativa tem a ver com o fato de que o ateísmo de modo algum é tão fácil quanto parece”.

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Guia de Leitura

Corpo na América e alma na África

27 fevereiro, 2016 | Por Isabela Gaglianone

A relação entre raças e classes no Brasil é complexa; relação que reflete o paralelismo histórico entre passado e presente, e a compreensão de que são acepções categoricamente iguais do sistema econômico.

A escravidão, após ter sido proibida em nosso país, não foi, porém, punida. Houve, após 1831, um pacto implícito, cúmplice da continuidade, a partir de então, ilegal, do comércio atlântico de africanos. Segundo o historiador brasileiro Luiz Felipe de Alencastro, como diz em artigo, assim; “Firmava-se duradouramente o princípio da impunidade e do casuísmo da lei que marca nossa história e permanece como um desafio constante aos tribunais e a esta Suprema Corte. Conseqüentemente, não são só os negros brasileiros que pagam o preço da herança escravista.

O comércio humano do tráfico negreiro justifica por um lado o início da história da pobreza no Brasil. Por outro, a eterna condição estrangeira dos descendentes de escravos, cuja consequência é a pouca integração econômico social, crônica, insolúvel, a despeito de sua maioria numérica no país.

Para Alencastro, as raízes do Brasil não devem ser buscadas em nosso próprio território, mas numa zona econômica formada entre o solo brasileiro e o africano – zona híbrida, luso-brasileira, luso-africana: trajeto do tráfico negreiro. De acordo com o historiador, pode-se “com muita razão dizer que o Brasil tem o corpo na América e a alma na África”.

Propomos um encontro desta afirmação com a análise de Florestan Fernades: “a Abolição constitui um episódio decisivo de uma revolução social feita pelo branco e para o branco”; afirmação que assim explica: “Primeiro, porque o ex-agente de trabalho escravo não recebeu nenhuma indenização, garantia ou assistência; segundo, porque se viu, repentinamente, em competição com o branco em ocupações que eram degra­dadas e repelidas anteriormente, sem ter meios para enfrentar e repelir essa forma mais sutil de despojamento social”.

Afinal, qual a dimensão do legado da escravidão para a formação social brasileira?

 

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história

Micro-história

28 maio, 2015 | Por Isabela Gaglianone
fotografia de Sâo Paulo, entre as décadas de 1930 e 40.

fotografia de Sâo Paulo, entre as décadas de 1930 e 40.

Uma pesquisa de história cuja investigação começou por uma lembrança da infância. O crime do restaurante chinês, do historiador Boris Fausto, recorre aos arquivos da história e de sua memória pessoal para narrar um dos acontecimentos policiais mais comentados da história paulistana. Ele era ainda menino quando, logo após um animado carnaval de rua, ouviu a rumor que se espalhava pela cidade: um homem negro era acusado de matar o ex-patrão e mais três pessoas com terríveis golpes de pilão.

A escrita de Boris Fausto narra todo o processo policial investigativo com a desenvoltura de um romance.  Continue lendo

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história

História das ideias

20 maio, 2015 | Por Isabela Gaglianone
Gilberto Freyre

Gilberto Freyre

O livro Cenário com retratos – Esboços e perfis, de Antonio Arnoni Prado, reúne ensaios que investigam a trajetória, tanto pessoal como criativa, de autores brasileiros, para refletir, a partir delas, sobre a maneira como são traçados historicamente no Brasil os percursos em busca da autonomia intelectual.

Alguns dos autores analisados são Lima Barreto, Mário de Andrade, Gilberto Freyre e Erico Verissimo. Arnoni Prado, que é professor da Unicamp, traça aqui um interessantíssimo panorama, tecendo uma crítica literária, cultural e histórica. Seu cenário – a constituição histórica e social – do Brasil é, pois, pontuado por retratos de figuras marcantes da cultura brasileira.

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lançamentos

Crítica, história e literatura

22 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone
gravura de Evandro Carlos Jardim

gravura de Evandro Carlos Jardim

Em Dois letrados e o Brasil nação – A obra crítica de Oliveira Lima e Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Arnoni Prado desenvolve uma interessante contraposição entre as trajetórias dos críticos e historiadores Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) e Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982).

O livro, cuja publicação havia sido anunciada alguns anos atrás, acaba de ser lançado pela Editora 34. Nele, Arnoni Prado, para analisar os momentos e processos fundamentais na formação e consolidação da crítica literária brasileira, examina as vertentes lógicas mais atuantes na dinâmica cultural do Brasil: de um lado, arranjos retóricos conservadores, de outro, os movimentos críticos libertários.

Para a composição da reflexão que encaminha o livro, o autor imergiu na vida e na obra dos dois autores, acompanhando seus percursos intelectuais. Continue lendo

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Guia de Leitura

Livros que tratam da história do riso e da história das reflexões sobre os seus desdobramentos intelectuais, morais e sociais

17 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Ao longo dos séculos o homem tem teorizado de maneiras diferentes a função e as motivações do riso. Escárnio, zombaria, caricaturas, bufonaria tem sentidos críticos ácidos e profundos: o homem reflete enquanto ri, portanto a história do riso é também uma história das ideias.

 

Georges Minois, “História do riso e do escárnio”

O historiador Georges Minois em História do riso e do escárnio perpassa as diferentes utilizações, ao longo dos séculos, do riso e do humor pela humanidade. O autor pesquisa, assim, a relação entre o desenvolvimento humano social e psicológico e as formas de humor. Para ele, a exaltação ou condenação de formas de humor por determinadas épocas são indicativos de suas respectivas visões de mundo. Continue lendo

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matraca

Revoluções

14 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“Estou convencido de que as fotos de revoluções – sobretudo se foram interrompidas ou vencidas – possuem uma poderosa carga utópica” – Michael Löwy.

Revolução Mexicana - "Mujer con bandera", fotografia de Tina Modotti, 1928

Revolução Mexicana – “Mujer con bandera”, fotografia de Tina Modotti, 1928

Revoluções é uma compilação de fôlego, desenvolvida por Michael Löwy, dos principais registros fotográficos de processos revolucionários, do final do século XIX até a segunda metade do século XX. Além da documentação iconográfica, este interessante livro traz textos que narram os acontecimentos, escritos por intelectuais como Gilbert Achcar, Rebecca Houzel, Enzo Traverso, Bernard Oudin, Pierre Rousset, Jeanette Habel e o próprio Löwy.  Continue lendo

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lançamentos

A arte da palavra

2 fevereiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

A Cosac Naify acaba de trazer de volta às livrarias o clássico Introdução aos estudos literários, do filólogo e crítico literário Eric Auerbach.

O livro foi escrito em 1943, durante o exílio forçado do autor, como método didático para seus alunos na Universidade de Istambul. Nele, Auerbach visava esclarecer as bases de sua abordagem literária, a Filologia Românica, que dá unidade à história da literatura europeia, a partir de sua origem cristã, em latim, até a evolução que assumiu na forma das línguas modernas.

Conhecido por sua peculiar investigação dos problemas de história e de teoria literária, Auerbach, aqui, numa exposição a um só tempo clara e erudita, dá a seu leitor ferramentas para sua iniciação na pesquisa de literatura. Continue lendo

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história

História filosófica

18 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Se nem todo filósofo deve ser historiador, seria ao menos desejável que todo historiador se tornasse filósofo” – Edward Gibbon.

Afresco de Pompeia

Ensaios de história, de Edward Gibbon, acaba de ser publicado pela editora Iluminuras, sob a tradução cuidadosa de Pedro Paulo Pimenta. O livro reúne textos da juventude do historiador, conhecido sobretudo pelo estudo clássico Declínio e queda do Império Romano. Alguns dos ensaios reunidos no volume são “Ensaio sobre o futuro da história”, “Dos triunfos romanos”, “Situação da Germânia antes da invasão pelos bárbaros” e “Maneiras das nações pastoris”. Gibbon é exemplar representante de uma concepção e um método da história filosófica, como praticada por seus predecessores, Tácito, Montesquieu, Hume.

Pedro Pimenta, também responsável pelo texto de apresentação, pontua a relevância dos textos como complementos à edição condensada brasileira de Declínio e queda (cuja tradução, segundo ele, é “um clássico de José Paulo Paes”, mas exclui duas dissertações de interesse para essa tese geral, uma delas sobre os germânicos, a outra sobre os citas, ou hunos, ambas incluídas neste volume). Pimenta pontua: “O volume que o leitor tem em mãos traz pela primeira vez em língua portuguesa esse escrito de juventude, cujo caráter polêmico e estilo vigoroso caem bem a um jovem autor cheio de ambição e confiança”.

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matraca

O encontro entre eternidade e história

16 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Ticiano

Acaba de ser lançado no Brasil o interessante ensaio Pilatos e Jesus, de Giorgio Agamben. Trata-se de uma profunda reflexão sobre o enigma do julgamento de Jesus Cristo à luz da análise da figura de Pilatos, que, segundo Agamben, é a responsável por assegurar o caráter histórico da paixão de Cristo, por ser talvez a única personagem genuinamente humana, de carne e osso, dos Evangelhos. Um homem de quem conhece-se hesitações, o medo, o ressentimento, a hipocrisia, o sarcasmo. Agamben extrai do breve encontro entre Pilatos e Jesus, para além do drama da paixão e da redenção, o encontro único entre o “mundo dos fatos” e o “mundo da verdade”, o embate entre a eternidade e a história.

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Ensaios

Signos em rotação ou: por que artista?  

15 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Marcel Duchamp

A IMAGEM DO MUNDO E A POESIA

A arte responde ao mundo, fala a própria história. Se o “nosso tempo é o do fim da história como futuro imaginável e previsível”, a própria sociedade, como palavra viva e palavra vivida, hoje deve descobrir a figura do mundo na dispersão de seus fragmentos. Paz anuncia daí sua mirada, o “ponto de inserção da poesia que é também um ponto de interseção, centro fixo e vibrante onde se anulam e renascem sem trégua as contradições. Coração-manancial”[i].

Seu poético questionamento debruça-se sobre as “possibilidades de encarnação da poesia”; sua pergunta, não é “sobre o poema e sim sobre a história: será uma quimera pensar em uma sociedade que reconcilie o poema e o ato, que seja palavra viva e palavra vivida, criação da comunidade e comunidade criadora?”. Paz identifica a questão primordial, que une ao presente o passado: a origem poética da língua ao balbuciamento do signo puro do “contínuo transcender-se, desse permanente imaginar-se” que é o poema enquanto tradução do homem, da sua essência ontológica enquanto constante busca de si, sendo o mundo sem cessar de ser ele mesmo.

“[…] o poeta escuta. No passado foi o homem da visão. Hoje aguça o ouvido e percebe que o próprio silêncio é voz, murmúrio que busca a palavra de sua encarnação. O poeta escuta o que diz o tempo, ainda que ele lhe diga: nada”. 

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matraca

Forma-de-vida

15 outubro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Nós jamais chegaremos a perceber o que se passa hoje em dia sem compreender o fato de que o capitalismo é na verdade uma religião” – G. Agamben.

São Francisco de Assis, por Giotto.

Altíssima pobreza, de Giorgio Agamben, dá prosseguimento e às reflexões e análises iniciadas em obras anteriores e debruça-se sobre o universo sacerdotal, reconstruindo a genealogia de uma forma-de-vida, “uma vida que se vincule tão estreitamente a sua forma a ponto de ser inseparável dela”. Sua argumentação funda-se na ampla análise do legado mais precioso do franciscanismo – ao qual a história ocidental inúmeras vezes voltou-se como sua tarefa indeferível –, a concepção de vida que não se encaixa em vínculos de propriedade, que não é sujeita à posse, somente ao uso comum. Agamben parte de uma leitura profunda do monasticismo ocidental, de Pachomius a São Francisco, reconstruindo em detalhe a vida dos monges. O filósofo defende a tese de que a verdadeira novidade do monasticismo não encontra-se na indistinção entre vida e norma, mas na descoberta desta concepção, em que “vida”, talvez pela primeira vez, foi afirmada em sua autonomia; convepção a partir da qual a alegação da “altíssima pobreza” e do “uso” desafiam e emancipam-se da lei.

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história

Pelas fronteiras coloniais

26 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Manuscrito de Francisco José de Lacerda e Almeida

O livro Francisco José de Lacerda e Almeida – Um astrônomo paulista no sertão africano é um interessante estudo sociológico, antropológico, histórico e biográfico, realizado por Magnus Roberto de Mello Pereira e André Akamine Ribas.

Lacerda e Almeida, como muitos brasileiros no século XVIII, estudou na Universidade de Coimbra, na qual estudou Matemática e Astronomia. Assim que se formou, foi contratado pela coroa para integrar a comissão de demarcação das fronteiras entre os territórios americanos de Portugal e Espanha, pelo que passou dez anos no Mato Grosso. Lacerda e Almeida posteriormente voltou a Portugal, onde se tornou professor de astronomia; em 1797 foi incumbido de atravessar a África, de Moçambique a Angola. Morreu no sertão africano, sem conseguir cumprir sua missão. A demarcação das fronteiras da América do Sul e a expedição de travessia da África estão entre as maiores aventuras científicas do século XVIII.

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