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história

Pode um cristão ser comerciante e senhor de escravos?

2 maio, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“[…] chegados aos nossos portos os navios de Guiné, devem ser examinados a respeito dos escravos que trouxerem, e os que se achar serem tomados, como o deviam ser, isto é, com averiguação e certeza de serem legitimamente cativados, devem ficar, como tais, no domínio de seus donos; e pelo contrário, os que se achar serem tomados como não o deviam ser, isto é, sem certeza e averiguação de que fossem legitimamente cativos, devem, como ingênuos, ser havidos por livres” – Manoel Ribeiro Rocha.

A Editora Unesp acaba de republicar a obra Etíope resgatado, empenhado, sustentado, corrigido, instruído e libertado, do padre jesuíta Manoel Ribeiro Rocha, originalmente publicada em 1758. Manoel Ribeiro Rocha, lusitano radicado em Salvador, procura uma “maneira cristã de tratar os escravos”, desde sua compra até sua libertação. Tentava, com a obra, encontrar um caminho conciliatório entre prática ignominiosa da escravidão, sustentáculo da economia colonial, e a pacificação da consciência daqueles que comercializavam e mantinham os cativos.

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Guia de Leitura

Corpo na América e alma na África

27 fevereiro, 2016 | Por Isabela Gaglianone

A relação entre raças e classes no Brasil é complexa; relação que reflete o paralelismo histórico entre passado e presente, e a compreensão de que são acepções categoricamente iguais do sistema econômico.

A escravidão, após ter sido proibida em nosso país, não foi, porém, punida. Houve, após 1831, um pacto implícito, cúmplice da continuidade, a partir de então, ilegal, do comércio atlântico de africanos. Segundo o historiador brasileiro Luiz Felipe de Alencastro, como diz em artigo, assim; “Firmava-se duradouramente o princípio da impunidade e do casuísmo da lei que marca nossa história e permanece como um desafio constante aos tribunais e a esta Suprema Corte. Conseqüentemente, não são só os negros brasileiros que pagam o preço da herança escravista.

O comércio humano do tráfico negreiro justifica por um lado o início da história da pobreza no Brasil. Por outro, a eterna condição estrangeira dos descendentes de escravos, cuja consequência é a pouca integração econômico social, crônica, insolúvel, a despeito de sua maioria numérica no país.

Para Alencastro, as raízes do Brasil não devem ser buscadas em nosso próprio território, mas numa zona econômica formada entre o solo brasileiro e o africano – zona híbrida, luso-brasileira, luso-africana: trajeto do tráfico negreiro. De acordo com o historiador, pode-se “com muita razão dizer que o Brasil tem o corpo na América e a alma na África”.

Propomos um encontro desta afirmação com a análise de Florestan Fernades: “a Abolição constitui um episódio decisivo de uma revolução social feita pelo branco e para o branco”; afirmação que assim explica: “Primeiro, porque o ex-agente de trabalho escravo não recebeu nenhuma indenização, garantia ou assistência; segundo, porque se viu, repentinamente, em competição com o branco em ocupações que eram degra­dadas e repelidas anteriormente, sem ter meios para enfrentar e repelir essa forma mais sutil de despojamento social”.

Afinal, qual a dimensão do legado da escravidão para a formação social brasileira?

 

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