Arquivo do autor:Isabela Gaglianone

Askhmata

Retórica interior

20 fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

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Askhmata

Esquemas de percurso, exercícios: ancoragens marcadas em uma carta náutica literária, imaginária. Alheias às exigências profissionais de decoro, desenham memórias de leituras.

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SHAFTESBURY, Askhmata

[Editora Unesp, tradução e organização de Pedro Paulo Pimenta]

 

Desenho de Rafael [Homem jovem carregando homem velho nas costas]

 

Shaftesbury – Anthony Ashley Cooper, III Conde de Shaftesbury – é um daqueles filósofos cujas ideias tornaram-se freáticas; pouco comentado atualmente, desenvolveu reflexões que foram base para o desenvolvimento da filosofia moderna.

Estes exercícios investigativos são o testemunho vivo da formação de um filósofo.

Os escritos são permeados por pequenos diálogos, arguições com um interlocutor, que ajudam o autor a testar e fortalecer suas teses.

São exercícios de uma reflexão de cunho estoico, que contêm em germe noções e conceitos que Shaftesbury desenvolveria com mais profundidade na obra Characteristicks of Men, Manners, Opinions, Times e, porteriormente, em Second characters; or, The language of forms.

Os exercícios buscam a compreensão e disciplina das paixões para a formação do caráter. Continue lendo

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Guia de Leitura

Estado de Exceção

13 fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

Atualmente, muito tem se comentado a ideia de que o Estado de Exceção não é a exceção, mas a regra. Mas ainda precisamos compreender: como é desencadeado o real estado de exceção?

Goya, gravura da série “Desastres de la guerra”

Comentando a relevância e a atualidade da discussão sobre o tema sugerida pelo filósofo italiano Giorgio Agamben, Èlida Gomes de Oliveira pontua: “O título desta obra [Estado de exceção] origina-se do latim excipio, que significa tomar, apanhar de seu lugar de origem, perder algo que se é próprio”. Frente à “constatação de ocorrências nos últimos governos ao tomarem decisões de enviar tropas do Exército nos casos de conflito que estariam colocando em risco tanto a segurança pública quanto a segurança Nacional”, – tais como a conclamação, pela população atordoada e apavorada, da presença das Forças Armadas – pode-se constatar múltiplos exemplos da tese de que o Estado de Exceção não é, senão, a regra: “Ironicamente, para se preservar a liberdade, segundo a lógica do governo, é preciso assegurar a soberania, mesmo que para isso se tenha que lançar mão da repressão para defender o sistema com situações de ditadura (experiência tão conhecida por nós, posta em prática durante a ditadura militar com a alegação de deter uma possível conspiração comunista através dos Atos Institucionais, a exemplo do AI 5 de 1968). O emprego do conceito de exceção do filósofo italiano se aplica ao entendimento do pensamento de Karl Schmitt, intelectual alemão de orientação conservadora, adepto do nazismo. De acordo com a doutrina schmittiana, o soberano que decide sobre a exceção é, na realidade, definido por ela, garantindo sua ancoragem na lei e na normalidade da exceção”.

 

 

Walter Benjamin, “O anjo da história”

Foi Walter Benjamin quem teorizou o “estado de exceção” como regra. O tema aparece já como questão central em Origem do drama barroco alemão, de 1925, e nos textos escritos no contexto do livro Passagens, sobretudo em “Sobre o conceito da história”, de 1940. É na oitava destas teses sobre o conceito de história, que a noção de estado de exceção aparece em todo o seu significado:

“A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘Estado de Exceção’, no qual nós vivemos, é a regra. Precisamos atingir um conceito de história que corresponda a isto. Então teremos diante de nós como nossa tarefa provocar o efetivo Estado de Exceção; e deste modo melhorará a nossa posição na luta contra o fascismo. A sorte deste depende não em última instância, que seus opositores lutem contra ele em nome do progresso como uma norma histórica. – A admiração de que as coisas que nós vivenciamos ‘ainda’ são possíveis no século XX, não é filosófica. Ela não está no início de um conhecimento, a não ser de que a idéia de história, de onde ela provém, não pode mais ser sustentada”.

Para Benjamin, “A tarefa de uma crítica da violência pode ser definida como a apresentação de suas relações com o direito [Recht] e a justiça [Gerechtigkeit]. Pois, qualquer que seja o efeito de uma determinada causa, ela só se transforma em violência, no sentido forte da palavra, quando interfere em relações éticas”. Segundo o filósofo, do ponto de vista do direito natural, não haveria “problema nenhum no uso de meios violentos para fins justos”. Porém, ele opõe a este o problema da legitimidade dos meios, colocado através da tese do direito positivo, ou positivado, que não justifica os meios pelos fins, mas julga o direito pelos meios: “Se a justiça é o critério dos fins, a legitimidade é o critério dos meios”.

Um soberano pode fugir à legitimação do direito estabelecido, para repor ou refazer um estado de direito. O estado de exceção é um dispositivo através do qual se produz uma situação de anomia, um vazio jurídico criado pelos poderes soberanos em nome da manutenção do poder em situações extraordinárias. Continue lendo

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Literatura

A vista particular

10 fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“A montagem do morro foi mais tranquila. Arariba tinha deixado à disposição uma série de materiais, já com as instruções do lugar de tudo. Não era preciso. Com a experiência, os moradores sabiam perfeitamente erguer os barracos, lembravam-se dos lugares onde deveriam ficar a vendinha, a boca de fumo, a igreja evangélica e a biblioteca comunitária. De qualquer forma, não é preciso deixar tudo igual. A arte contemporânea tomou para si, com grande criatividade, o aspecto efêmero das coisas humanas. Haverá alguma pulsão de morte na obra de Zé Arariba?, um crítico se pergunta em um longo artigo de jornal. Esse, por razões que não vêm ao caso, nosso artista leu e ficou abalado. Afinal de contas, estou sempre despedaçando alguma coisa. Às vezes fico pensando se vale mesmo a pena”.

Cantagalo/ Pavão-Pavãozinho

O romance A vista particular, de Ricardo Lísias, mostra a espetacularização da miséria e a estetização da violência de maneira ácida e satírica. O protagonista, José de Arariboia, é um artista bem-sucedido, conhecido por uma série de quadros que pintou sobre o Rio de Janeiro, está prestes a montar sua primeira exposição individual. Ele é, porém, flagrado subindo a favela do Pavão-Pavãozinho. Ninguém sabe o que acontece por lá. E na volta, uma inesperada “performance” leva as pessoas ao delírio: Arariboia desce da Rua Sá Ferreira até a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, completamente nu e ainda com um passo de gingado especial, digno de ser desfilado em um sambódromo. Curiosos filmam a “performance” e os vídeos tornam-se sucessos no YouTube. O que poderia ter sido uma catástrofe e a ruína de sua reputação, transforma-se, assim, em sensação. Arariboia torna-se uma estrela na internet, conhece o chefe do tráfico no morro Pavão-Pavãozinho e, com ele, inicia uma parceria e um trabalho que, crê, é sua obra-prima: uma intervenção na comunidade, a princípio uma espécie de metonímia, que acaba tomando a dimensão de uma sátira feroz de crítica social aos silenciados absurdos cotidianos. Segundo Schneider Carpeggiani, em resenha publicada pelo Suplemento Pernambuco, “o romance dilata o vaivém ‘voyeurístico’ entre favela e classe média, entre o que entendemos por centro/por margem e como esse movimento pode ser kamikaze para ambas (e objetificadas) partes”. Continue lendo

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Literatura

Memórias de Adriano

8 fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

O imperador romano Adriano

Memórias de Adriano, da escritora belga Marguerite Youcenar (1903 — 1987), é uma autobiografia imaginária do imperador romano. Adriano de fato escreveu uma autobiografia que não sobreviveu até nosso conhecimento. Publicada originalmente em 1951, foi a obra que tornou a escritora internacionalmente conhecida. O romance é escrito em primeira pessoa, em forma de uma carta testamento, escrita por Adriano e endereçada a seu neto adotivo, o futuro imperador Marco Aurélio. Na carta, o imperador produz confissões, à maneira de uma anamnese, e assim faz um balanço de seu próprio tempo e existência, de modo que amalgamam-se suas memórias pessoais às memórias históricas. Através da voz de Adriano, falam inúmeras outras, e o retrato memorialístico de sua personalidade, humana por excelência, é também o retrato de uma época, em rigorosa reconstituição histórica. Sua narrativa associa filosoficamente dimensões sociológica e psicológica.

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matraca

Sobre a estupidez

6 fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“O domínio violento e vergonhoso que a estupidez exerce sobre nós é revelado por muitas pessoas ao demonstrarem-se surpresas de maneira amável e conspiratória quando alguém, a quem confiam, pretende evocar esse monstro pelo nome”.

M. C. Escher

Mesmo enquanto grande romancista, o nome de Robert Musil vincula-se à escrita ensaística. Sobre a estupidez, considerado um de seus grandes ensaios, foi publicado no ano passado no Brasil pela editora Âyiné, com tradução de Simone Pereira Gonçalves. O ensaio nasceu de uma conferência, proferida em 1937, a convite da Federação Austríaca do Trabalho. Trata-se de uma penetrante, arguta e irônica conferência sobre o sempre relevante tema da estupidez humana.

Musil sugere uma reflexão filosófica, que pondera ainda ser preliminar, porém relevante. Para ele, era comum à maioria dos filósofos e intelectuais de seu tempo a preferência pela definição a sabedoria em detrimento da compreensão da estupidez – que, adverte, não é necessariamente antônimo de sabedoria. Há, para o autor, dois tipos básicos de estupidez. Uma é a estupidez honesta – falta de inteligência talvez honrada, associada a limitações intrínsecas de um indivíduo: “Pobre em representações e em vocabulário, não sabe muito bem como se servir dele. Prefere o banal, cuja frequência torna a assimilação mais fácil; e quando assimila qualquer coisa, não tem muita predisposição para consentir que lha retirem logo em seguida, nem para permitir que a analisem, ou para jogos de ambiguidade em relação a ela” [citação da edição portuguesa, ed. Relógio D’Água, 2012, tradução de Manuel Alberto]. Outra, a estupidez inteligente – errática, pretensiosa é resultado da abdicação voluntária do pensamento crítico. Esta, é uma fraqueza da inteligência em relação a um objeto particular, é uma doença da cultura, é algo que nunca produz uma ideia significativa e válida. Continue lendo

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história

Dos destinos das utopias

3 fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

Viva!, do escritor francês Patrick Deville, é o mais recente lançamento da sua série de “romances sem ficção”, que investigam o destino das utopias e esperanças modernas nas mais diversas partes do mundo. A série foi inaugurada com Pura vida: Vie & mort de William Walker (2004) e seguiu através dos títulos La Tentation des armes à feu (2006), Équatoria (2009), Kampuchéa (2011), Peste & Choléra (2012). Viva!, publicado na França em 2014, é a primeira obra do autor traduzida no Brasil. O volume acaba de ser lançado pela editora 34, com tradução de Marília Scalzo, e conta com texto de apresentação de Alberto Manguel.

O romance sem ficção inicia-se em Tampico, em janeiro de 1937, momento em que Léon Trótski desembarca no México, banido da URSS, e sabe que não está a salvo. Patrick Deville faz a crônica dos três anos que restam ao revolucionário russo. Desfila um cortejo de figuras que a presença de Trótski imanta e radicaliza: Diego Rivera e Frida Kahlo, Victor Serge e André Breton, David Alfaro Siqueiros e Ramón Mercader, B. Traven – o enigmático autor de O tesouro de Sierra Madre – e Malcolm Lowry – jovem escritor que chega ao México no mesmo ano, sonhando em revolucionar a prosa poética e que reservará a Trótski um papel decisivo nos momentos finais de À sombra do vulcão.

Através dos cruzamentos entre os percursos dessas vidas paralelas e os labirintos da história e da geografia, à sombra da guerra mundial que se aproxima e que levará a uma negra apoteose, Deville cria uma narrativa vertiginosa. No curso de suas vidas meteóricas, no entanto, os personagens de Viva! lançam uma importante luz inconformista sobre este mundo. Continue lendo

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Literatura

Os passos em volta

1 fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo – diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite” – Herberto Helder, “Lugar lugares”.

Evandro Carlos Jardim

Os passos em volta é a primeira obra em prosa de Herberto Helder, um dos maiores poetas portugueses. O livro, lançado originalmente em 1963, ganhou reedição pela Tinta-da-china Brasil em maio do ano passado.

De acordo com Eucanaã Ferraz, “Não são contos. Têm a qualidade dos poemas e o desenho retilíneo da prosa. Materialização de uma singularidade irredutível, são o que são: um estilo”. Para o poeta brasileiro, o livro “espanta-nos pela sua violência, mas também porque nele perdição e terror irrompem no plano de uma escrita ordenada e muitíssimo construída. […] este livro nos apanha e desde suas primeiras palavras começamos a dar passos em volta, já não podemos sair de seu mundo, onde tudo é solidão e deslumbramento”.

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Askhmata

Psicologia da expressão humana

30 janeiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

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Askhmata

Esquemas de percurso, exercícios: ancoragens marcadas em uma carta náutica literária, imaginária. Alheias às exigências profissionais de decoro, desenham memórias de leituras.

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WARBURG, Aby, Histórias de fantasma para gente grande.

[Companhia das Letras, organização de Leopoldo Waizbort, tradução de Lenin Bicudo Bárbara]

 

Afresco do Palazzo Schifanoia, mês de agosto.

 

Warburg expõe, no primeiro ensaio do volume, como Sandro Botticelli assimilou as visões do seu tempo sobre a Antiguidade, porém transformando-as em sua essência secundária – mantendo suas próprias observações, individuais, como substância primária.

No Quattrocento, diz Warburg, “a ‘Antiguidade’ não exigia dos artistas que abdicassem incondicionalmente das formas de expressão adquiridas mediante suas próprias observações – como exigiria o século XVI, quando a matéria antiga foi encarnada à maneira antiga -, mas apenas chamava a atenção para o mais difícil problema das artes plásticas: como capturar as imagens da vida em movimento”.

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“O nascimento da Vênus” contida na Giostra de Angelo Poliziano, guarda semelhanças com a pintura de Botticelli (e a descrição de Poliziano se apoia no hino homérico a Afrodite). “A ação transcorre, na pintura, da mesma forma que no poema”.

De acordo com Warburg, o “esforço ostentsivo, que se manifesta uniformemente tanto no poema como na pintura, em capturar os movimentos transitórios dos cabelos e trajes corresponde a uma corrente dominante nos círculos artísticos no norte da Itália desde o primeira terço do século XV, que encontraria no Da pintura de Alberti sua expressão mais destacada”. Continue lendo

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Literatura

Romance em doze peixes

27 janeiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

William Buelow Gould

O livro de peixes de Gould – Romance em doze peixes, de Richard Flanagan, é um romance engenhoso, cuja ficção entrelaça-se à história da Austrália, à história das colônias penais, ao cientificismo do século XIX, partindo do relato sobre William Gould, pintor e talentoso imitador e falsificador de arte, condenado, em 1827, a cumprir 49 anos de prisão numa colônia penal da Ilha Sarah – território da Terra de Van Diemen, que viria a se tornar a Tasmânia. Ali, coagido pelo médico do presídio, Gould realizou uma série de pinturas retratando os peixes da região. Inspirado nesta personagem histórica, o tasmaniano Richard Flanagan reconstitui as terríveis condições da colonização inglesa. O narrador de sua história é um falsificador de antiguidades que encontra um livro misterioso, escrito à mão, com diversas pinturas de peixes. O objeto, ainda que curioso, não tem valor nenhum. No entanto, o livro some e seu desaparecimento é tão misterioso quanto a sua origem. Trata-se do caderno escrito no cárcere. Continue lendo

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matraca

Sobrevivência dos vaga-lumes

23 janeiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“A única anarquia verdadeira é a do poder” – Pasolini, frase proferida em Saló.

cena de “Teorema”

O filósofo francês Georges Didi-Huberman defende a sobrevivência da experiência e da imagem, em um texto que representa uma grande guinada na história da arte: Sobrevivência dos vaga-lumes, publicado no Brasil pela editora da UFMG em 2014, com tradução de Vera Casa Nova e Márcia Arbex.

Sua reflexão parte do famoso artigo “O vazio do poder na Itália”, escrito por Pier Paolo Pasolini em 1975 e retomado em seus Scritti corsari [Escritos corsários] com o nome pelo qual tornou-se conhecido, “O artigo dos vaga-lumes”. O artigo trata sobretudo, como um lamento fúnebre, da morte do vaga-lumes, fulgurações figurativas de momentos de graça que resistem ao mundo do terror: lampejos de inocência, em um contexto político e histórico marcado pelo aniquilamento da inocência graças ao fascismo triunfante. Pois, ainda que Mussolini houvesse sido executado e pendurado pelos pés, Pasolini diagnostica, a partir da metade da década de 1960, “algo” que deu lugar a um “fascismo radicalmente, totalmente e imprevisivelmente novo”, que, tomado em dimensão antropológica, é responsável por um enfraquecimento cultural ou, nas palavras do cineasta, um “genocídio cultural”. O verdadeiro fascismo para ele, como diz Didi-Huberman, “é aquele que tem por alvo os valores, as almas, as linguagens, os gestos, os corpos do povo. É aquele que ‘conduz sem carrascos nem exceções em massa, à supressão de grandes porções do própria sociedade’, e é por isso que é preciso chamar de genocídio essa ‘assimilação (total) ao modo e à qualidade de vida burguesa’”.

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matraca

Pela supressão dos partidos políticos

20 janeiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“O fim primeiro (e, em última análise, único) de todo partido político é seu próprio crescimento, sem limite” – Simone Weil.

O célebre ensaio de Simone Weil, uma das pensadoras mais audazes e originais do século XX, Pela supressão dos partidos políticos, foi publicado no Brasil no ano passado pela editora Âyine – italiana recém radicada no Brasil – , com tradução de Lucas Neves.

“Um partido político é uma máquina de fabricar paixão coletiva. Um partido político é uma organização construída de modo a exercer uma pressão coletiva sobre cada um dos seres humanos que são membros dele”, diz Weil, para quem todos os partidos, sem exceção, devem ser suprimidos. Enquanto organizações hierárquicas e rígidas, são por definição autoritários e repressivos e mostram, em sua maioria, um desrespeito absoluto pela res publica, além de um talento indescritível para roubar dinheiro público.

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lançamentos

Ressaca tropical

18 janeiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

Fotografia da exposição “Ressaca Tropical”, de Jonathas Andrade

Ressaca tropical é a apresentação em forma de livro da exposição homônima do artista alagoano Jonathas de Andrade. A edição, publicada pela Editora Ubu, foi graficamente preparada pela designer Elaine Ramos.

O artista encontrou um caderno anônimo no lixo, um diário que em que o narrador fala sobre amores e conflitos com o trabalho e em que tece reflexões íntimas a respeito de seu cotidiano, entre os anos de 1973 a 1979, em Recife. Andrade editou trechos do diário, compondo-o por entre fotografias de vistas aéreas do Recife em preto e branco da coleção do fotógrafo Alcir Lacerda, fotos em negativo colorido de um acervo amador, imagens de arquivo da Fundação Joaquim Nabuco e fotografias de prédios modernistas dilapidados feitas pelo próprio Andrade em 2008.

As imagens formam uma narrativa da história de Recife na década de 1960: os diferentes ângulos da cidade nas décadas de 50 e 70, edifícios modernistas semiabandonados registrados entre 2008 e 2009, contrapõem-se a cenas cotidianas da praia, marcadas por pungentes tropicalidade e desejo. Continue lendo

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Guia de Leitura

Viajantes do Brasil

16 janeiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“Serão 13 horas talvez, não sei… Ando já meio perdendo a noção de horário nesta vida viajeira. Até a noção dos nomes topográficos. Me esqueço de perguntar por onde passo, ando misturando tanto as coisas que deixei de ser um indivíduo compreensivo para me tornar essencialmente, unicamente mesmo, sensitivo”. Estas são palavras d’O turista aprendiz de Mário de Andrade – diário de duas viagens do autor, uma para a Amazônia e outra para o Nordeste, felizmente relançado em 2015, em parceria entre o IEB-USP e o IPHAN, porém completamente indisponível.

A literatura de registro mescla observações, reflexões científicas e de cunho pessoal, tornando o relato de viagem uma escritura especial, pois configura uma possibilidade de pesquisa que alia, a um só tempo, o relato, os objetos encontrados e as experimentações pessoais.

 

Livia Raponi [org.], “A única vida possível – Itinerários de Ermanno Stradelli na Amazônia”

Ermanno Stradelli (Borgotaro, Emilia-Romanga, 1852 – Manaus, Amazonas, 1926) foi um conde italiano que aos 27 anos decidiu ir viver na Amazônia. Atravessou o Atlântico, abandonando o reduto das práticas refinadas de um europeu culto, para mergulhar, em 1879, nas profundezas apaixonantes e sinuosas da floresta, movido por sua impetuosa curiosidade. Tornou-se perspicaz fotógrafo, etnógrafo, colecionador, dicionarista, tradutor, geógrafo e desbravador de mitos.

A coletânea A única vida possível: itinerários de Ermanno Stradelli na Amazônia busca ilustrar alguns dos vários perfis da múltipla atuação de um pesquisador que, entre os séculos XIX e XX, desempenhou um delicado papel de intérprete, revelando a Amazônia indígena para o público culto do Brasil e da Itália.

O livro foi lançado no ano passado, sob organização da pesquisadora Livia Raponi, pela editora Unesp. O volume compreende ensaios inéditos de especialistas brasileiros e italianos, em diferentes disciplinas. Conta ainda com uma seleção de fotografias e mapas realizados pelo viajante, cedidos pela Sociedade Geográfica Italiana.

Trata-se de uma reunião que retrata a multiplicidade deste personagem, publicada no ano que homenageou os 90 anos de sua morte. Um livro revelador sobretudo de sua relevância enquanto interlocutor das culturas indígenas amazônicas. Continue lendo

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Literatura

O marechal de costas

13 janeiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“Emarame. Ato de ir e vir ao mesmo tempo, também o duplo, o indissolúvel movimento, ante o espelho, de um corpo refletido em seu cristal, desde que ambos, corpo e reflexo, sejam contemplados por alguém. Silvino era, na realidade, um enérgico utopista”.

Caricatura de Floriano Peixoto feita por Agostini

Operando no limite entre fato e ficção, O marechal de costas, romance de José Luiz Passos, traça um retrato sem paralelos da história do Brasil.

O livro realiza a crônica da vida íntima e política de Floriano Peixoto, no gosto das amizades e antipatias que guardou por décadas, das humilhações de juventude, da imaginação erótica desabrochada na guerra, de sua obsessão por Napoleão Bonaparte e pela meia-irmã com quem se casou. Em paralelo, há a história de uma cozinheira a quem é atribuído um suposto parentesco com Floriano e que narra sua história. No curso de uma noite, em 2013, após o jantar na casa de um advogado, ela participa de uma longa conversa com um professor falastrão, que ouve a história de sua vida enquanto enxerta casos e teorias sobre a relação entre a política e os afetos. A noite leva todos a participarem de uma passeata de protesto, em meio às manifestações que tomaram o país naquele ano. Sobre sua intenção com a obra, o autor disse, em artigo publicado em sua coluna no blog da Companhia das Letras: “Tentei mostrar como, aos poucos, a relação entre eles revela laços de dependência e ressentimento. Maltratados por traições e pela solidão, suas vidas denunciam, num eco sombrio, o paralelo entre a crise política presente e a era Floriano”.

Passado e presente históricos se intercalam de forma espantosa. Acompanhamos não só um Floriano Peixoto humano e o nascimento da República, como os acontecimentos políticos turbulentos do presente – chegando ao impeachment de Dilma Rousseff, traçando uma espécie de panorama da nossa democracia nos últimos 120 anos. Continue lendo

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matraca

Kaari rõ ure etoa: Na floresta se encontra nossa morada

11 janeiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“Um cuidado que partilham todos os índios: afirmar e preservar sem cessar sua humanidade com relação ao mundo natural, velar com constância em não se deixar engolir pela selvageria da natureza, sempre à espreita dos humanos que tenta absorver” – Pierre Clastres, 1972.

Índio Aché do Paraguai

Crônica dos índios Guayaki – O que sabem os Aché, caçadores nômades do Paraguai, do etnólogo francês Pierre Clastres, é  resultado do trabalho de campo realizado pelo autor em 1963 e relata o cotidiano dos Guayakis – que se autodenominam Achés. Apesar da provocação da palavra “crônica” no título, o texto foi concebido como monografia e publicado em 1972 – o antropólogo Márcio Goldman, no artigo “Pierre Clastres ou uma antropologia contra o Estado” comenta que o inusitado vocábuloparece assinalar a intenção consciente de abrir mão de toda veleidade cientificista que consistiria em pretender ‘explicar’ os Guayaki”. Goldman ainda pontua quão inusitado era, à época, “colocar no mesmo sintagma os termos saber e caçadores nômades.

De acordo com Eduardo Viveiros de Castro, o livro é testemunho da “história de um tempo vivido com os Aché, quando estes ainda oscilavam entre a liberdade originária e a servidão genocida: mas história sobretudo, do tempo vivido pelos Aché, com alegria e desespero, entre o nascimento e a morte”. Continue lendo

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