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Literatura

Haverá um dia em que os rios não morrerão de sede?

11 Abril, 2018 | Por Morada das Histórias

Uma leitura comparada entre os livros
Um dia, um rio e Os rios morrem de sede 

Ilustração de André Neves, do livro “Um dia, um rio”

 

Na tarde do dia 5 de novembro de 2015, ocorreu o rompimento da barragem de rejeitos de mineração do Fundão, situada no subdistrito de Bento Rodrigues (35 km de distância em relação ao município de Mariana – Minas Gerais). A empresa responsável pelo controle das atividades de extração nessa localidade é a Samarco Mineração S.A., um empreendimento multinacional conjunto das maiores empresas de mineração do mundo (a brasileira Vale S.A. e a anglo-australiana BHP Billiton).

A lama de 39,2 milhões de m³ de rejeitos de minério se alastrou por cerca de 650 quilômetros entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo – percorrendo os rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce até alcançar o Oceano Atlântico. Ecossistemas foram extremamente afetados (animais e plantas morreram), denúncias de contaminação da água foram apresentadas aos órgãos ambientais e ao Ministério Público e pescadores de comunidades ribeirinhas mineiras e capixabas perderam boa parte das condições de sobrevivência e trabalho [2].

Um dia, um rio é um livro que nasceu a partir de um pedido de Márcia Leite, coordenadora da editora Pulo do Gato, motivada pelos sentimentos de angústia, indignação, denúncia e revolta causados pela maior catástrofe ambiental já registrada na história do Brasil – o desastre de Mariana, cidade localizada em Minas Gerais.

A partir deste contexto, as palavras do mineiro Leo Cunha [3] e as ilustrações do pernambucano André Neves [4], criadores da obra aqui analisada, apresentam a história de um rio/menino que, de repente, tem sua vida transformada pela inundação provocada por uma lama/monstro/máquina. O livro foi publicado em outubro de 2016 – um mês antes, portanto, do primeiro aniversário da catástrofe que ocorreu e vitimou o vale do Rio Doce.
Leo Cunha afirma, em entrevista para a Revista Crescer, que seu desejo era “falar desse caso para as crianças de maneira poética, literária, sem ser didático. Procurei criar uma força simbólica e afetiva sem o tom de denúncia. Eu vi muitas reportagens, visitei a região, então, para escrever, precisei mergulhar na linguagem. Pensei o rio como um personagem que conta a vida antes e depois do desastre”.

Mas, como falar de forma profunda e delicada sobre essa tragédia humana e ambiental com as crianças e os adultos? Léo Cunha explica, na mesma entrevista, que a temática não está relacionada apenas ao meio ambiente, “mas também com respeito, ganância, resistência. Vários assuntos permeiam essa história de maneira pouco explícita e dão margem a muitas discussões. O papel da literatura é esse: oferecer um material rico, em primeiro lugar, para curtir texto e imagens enquanto obra de arte. E, depois, na segunda ou terceira leitura, derivar para outras reflexões. O caso do Rio Doce é o mote do livro, mas quantos outros no Brasil não estão sofrendo? Há várias maneiras de matarmos nossos rios”.

Desse modo, a poesia e a imagem estão de mãos dadas e colaboram para uma conversa criativa e inteligente – distante de qualquer didatismo estreito ou tentativa de “moral da história” – sobre a temática que envolve a relação entre a sociedade e a natureza. A personagem do rio/menino, de Leo Cunha e André Neves, nos conta, inicialmente, que:

Minha dança colore os mapas,
Meu canto refresca as matas.
Minhas veias irrigam florestas,
Alimentam o serrado,
Aliviam o sertão.

A narrativa poética do rio/menino lembra a vida de suas margens, das tribos, povoados e gentes, dos pescadores e seus “causos”, dos viajantes e suas lembranças que caminham e dos cantos encantados dos menestréis. De um tempo em que o menino foi um doce rio/bacia/vale.
O rio/menino se vê, de repente, atingido por um imenso desastre. Um monstro/máquina lança de forma brutal e intensa sua lama. O rio/menino nos faz ouvir o seu lamento:

Meu leito virou lama,
Meu peito, chumbo e cromo.
Minhas margens, tristeza.
Eu era doce,
Hoje sou amargo.

André Neves é também autor dessa narrativa, já que suas ilustrações conseguem expressar toda a dramaticidade que envolve a história. Nas primeiras imagens do livro, um cachorro e algumas crianças estão repletas de objetos e brinquedos para se divertir com a água (toucas, escafandro, varas, patinho de borracha, boias, barquinhos, baldes).

O encontro com o gigante/inimigo que despeja lama por toda a história é uma ilustração que evidencia novos rumos na vida de todos. Imagens cobertas de muito barro, um quase silêncio a tomar conta dos acontecimentos, móveis quebrados, fotos perdidas, peixes carregando casas em suas cabeças são mostras de um desastre nunca antes visto. Lavadeiras, campinhos de futebol, escola, gritos de crianças, apito de trem, cavalos, igreja e seu sino, noiva, festas de domingo e as lavadeiras das margens – tudo desapareceu levado pela enxurrada de lama sem fim. Restaram apenas bonecas sem ninguém para brincar e cachorros assustados.

Conforme indica Bia Reis, do blog Estante das Letrinhas, “André narra com imagens coloridas e que também se modificam: o rio claro vira marrom, com a lama, e depois vermelho, de sangue”. André Neves nos conta, na orelha do livro em questão, que o “poema de Leo chegou ao meu olhar como um grito de socorro tardio. O Rio Doce, indefeso, já havia aceitado sua tragédia. Só restava-me gritar também, por imagens”.

Na orelha do livro Um dia, um rio, Leo Cunha nos conta que escreveu esta história como “uma homenagem ao Rio Doce e a todos os rios que ainda banham, alimentam e enriquecem o nosso povo”. Já André Neves diz, ainda na orelha da mesma obra, que esta é sua “forma de chorar com o tempo que, como água, correrá ao longo do caminho em que o próprio Rio Doce se reconstrói e se destina[5].

A obra de Leo Cunha e André Neves pode ser lida em boa companhia com outro trabalho sobre o mesmo tema, publicado há quarenta anos pelo escritor mineiro Wander Piroli (1931-2006). Relançado em 2015 pela editora Cosac Naify e reeditado em 2017 pela SESI-SP, Os rios morrem de sede foi originalmente publicado em 1976 e rendeu ao seu autor o prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil.

Pai e filho se preparam para um dia inteiro de pescaria no Rio das Velhas. As expectativas do menino Bumba são grandes, mas a mãe mostra certo receio sobre essa empreitada:

– O trem sai de madrugada – disse o homem.
– Trem – exaltou-se o menino. – Mãe, nós vamos de trem.
– Bumba não vai gostar – observou a mulher.
– Eu sei – disse o homem.
– Pai – disse o menino –, por que mamãe tá falando que eu não vou gostar?
– Lá não tem mais peixe – disse a mulher.

O garoto parece não acreditar. Prefere, então, pescar em outro canto – mas a mãe intervém e explica que o pai tem lá seus motivos para ir neste lugar:

– No duro, pai?
– Parece que sim.
Então vamos no Areião – propôs o menino.
– Bumba – disse a mulher –, seu pai está querendo ir num lugar onde ele ia com o seu avô. Seu pai era do seu tamanho e era lá que eles iam.

Após um percurso de trem e caminhadas, pai e filho estão no Rio das Velhas. O tempo passa e, como previsto, ambos não conseguem pegar nada. Eis que surge um homem com uma canoa cheia de areia suja – e o pai do Bumba, durante um breve momento, conversa com ele:

– Aqui já deu muito peixe – disse o homem da canoa.
– Puxa vida, se deu.
– Ah, então o senhor pegou aquela boa.
– Eu vinha com meu pai.
– O senhor lembra da quantidade de gente que o trem despejava aqui? Ninguém saía sem peixe.
– E o rio era largo, profundo e limpo.
– Agora tá essa tristeza.
– Virou esgoto.

A conversa é interrompida pelo menino, impaciente com a situação: – Vãobora, pai. O filho está decepcionado com a pescaria do dia, mas percebe que aquele momento representa tristeza e revolta para o seu pai, obrigado a presenciar a água encardida do velho rio.

Vale ainda dizer que Wander Piroli [6] escreveu sobre sua experiência de garoto, que também viajava para pescar com seu pai no Rio das Velhas. Conforme o próprio autor nos conta, em uma espécie de post-scriptum publicado na edição da Cosac Naify: “Então eu pego o velho trem suburbano e volto ao Rio das Velhas com o meu filho Bumba. Sabemos que o rio mudou e que não tem mais peixes”. Mesmo assim, lá está Wander Piroli e seu filho: “Mas vou lá com o Bumba, como se estivesse indo com meu pai, há quarenta anos. Eu sou o Bumba e Bumba sou eu. Como papai então era eu, e agora sou ele”.

Estamos, sim, diante de uma obra que retrata a trágica relação da sociedade com os rios e o meio ambiente – mas podemos afirmar também, importante ressaltar, que são as tradições familiares e os diálogos entre pai, mãe e filho que permitem nos aproximarmos de forma poética dessa temática.

O livro Os rios morrem de sede, em sua versão mais recente (Cosac Naify/SESI-SP), está ilustrado pelo também mineiro Marcelo Eduardo Lelis de Oliveira, um dos principais artistas quadrinistas do Brasil. Para estabelecer uma conversa com acontecimentos narrados pela história, Lelis se vale de traços escuros e das cores. O preenchimento de laranja representa todas as memórias do que está sendo relatado, sempre em contato e tensão com o presente vivido das ilustrações em branco.

Um dia, um rio termina com certo otimismo, lembrando que as águas e as flores conseguem brotar de situações difíceis e inesperadas, dos lugares mais improváveis. A obra apresenta uma esperança de renovação e desejo de transformação da situação atual para as futuras gerações. Já Os rios morrem de sede se encerra de forma surpreendente, com a cumplicidade de um palavrão compartilhado por pai e filho. Tudo isso diante de um rio que, um dia, foi fonte de vida e felicidade. Uma dura constatação, fruto da memória de uma geração que nadou e se alimentou das águas que, agora, parecem mortas para todo o sempre.

Mesmo com todas as diferenças no período em que foram escritos e nas distintas abordagens escolhidas para relatar a temática ambiental e humana, os livros de Leo Cunha/André Neves e Wander Piroli nos provocam a mesma pergunta: os rios sempre morrerão de sede?

 

 

 

UM DIA, UM RIO

Autor: Leo Cunha / ilustrações de André Neves
Editora: Pulo do gato
Preço: R$ 43,50 (32 págs.)

 

 

 

 

 

 

OS RIOS MORREM DE SEDE

Autor: Wander Piroli / ilustrações de Lelis
Editora: Cosacnaify
Preço mínimo: R$ 13,00 (47 págs.)
[disponível apenas em sebos]

 

 

 

 

__________
Notas:

[1] O Morada das Histórias é um grupo de cultura da infância que desenvolve atividades de arte-educação, mediação de leitura e contação de histórias de narrativas orais populares e obras de literatura contemporânea desde 2014 – tendo se apresentado em escolas públicas, praças, orfanatos, bibliotecas e festas de aniversário em diversas cidades do estado de São Paulo e de Minas Gerais. Maiores informações sobre nossas atividades artísticas cotidianas podem ser encontradas nos seguintes endereços: facebook.com/moradadashistorias, @moradadashistorias (Instagram) e moradadashistorias.wordpress.com.


[2] Para maiores informações e relatos a respeito do desastre ambiental de Mariana, conferir as seguintes reportagens: A onda de Mariana e A terra devastada, ambas publicadas na Revista Piauí e Um ano de lama, elaborada pelo jornal Folha de São Paulo.


[3] Leo Cunha é autor de mais de 60 livros – entre literatura infantil e juvenil, crônicas e poesia. Suas obras foram agraciadas com diversos prêmios no campo da literatura infantil e juvenil, dentre os quais podemos destacar: João-de-Barro, Jabuti, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), Biblioteca Nacional. Contos, poemas, traduções, peças infantis e letras de músicas também fazem parte do repertório de suas produções – professor universitário na PUC-Minas e UniBH.


[4] Arte-educação, pesquisa, escrita, artes plásticas e ilustração são as principais ocupações de André Neves – tendo em sua carreira angariado diversos prêmios (Jabuti de Ilustração, FNLIJ e Açorianos de Literatura) e reconhecimento pela arte de seus livros infantis e juvenis.


[5] Em convergência com essa ideia de André Neves, o próprio Rio Doce busca agora se reconstruir ao entrar com uma ação na Justiça contra o Governo Federal e o Governo de Minas Gerais. Para maiores informações ver reportagem no site IHU.


[6] Wander Piroli também tem outros livros que tiveram importante repercussão na literatura infanto-juvenil, dentre os quais podemos destacar: O menino e o pinto do menino (1975) – obra que deu notoriedade nacional ao autor, sendo considerada por alguns críticos “um divisor de águas na literatura para crianças” –, Macacos me mordam!… (1978), Nem filho educa pai (1998) e o Matador. Esta última, publicada postumamente em 2008 e reeditada em 2014 pela Cosac Naify, conta com ilustrações do artista Odilon Moraes. Wander Piroli iniciou sua vida profissional como jornalista em Belo Horizonte. Posteriormente começou sua carreira como escritor. Ao lado do grande destaque de suas obras infanto-juvenis, podemos também citar seus livros voltados para adultos, como A máquina de fazer (1980) e Minha bela putana (1985), dentre outros. Alguns de seus textos infantis permanecem inéditos – mas a iniciativa anterior da Cosac Naify e a empreitada atual da editora SESI-SP visam publicar pela primeira vez esses escritos.

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Literatura

Itinerário de Pasárgada

28 Março, 2018 | Por Isabela Gaglianone

“Cedo compreendi que o bom fraseado não é o fraseado redondo, mas aquele em que cada palavra está no seu lugar exato e cada palavra tem uma função precisa, de caráter intelectivo ou puramente musical, e não serve senão a palavra cujos fonemas fazem vibrar cada parcela da frase por suas ressonâncias anteriores e posteriores. Não sei se estou sutilizando demais, mas é tão difícil explicar porque num desenho ou num verso esta linha é viva, aquela é morta.” – Manuel Bandeira

Homem peixe, ruína da entrada do palácio S, em Pasárgada.

A conhecida autobiografia de Manuel Bandeira, Itinerário de Pasárgada, foi publicada pela primeira vez em 1954. Então com 68 anos de idade e poeta já consagrado, Bandeira revisita seu refúgio onírico, a famosa Pasárgada que o acompanhou durante a vida desde seus dezesseis anos, quando descobriu o nome desta pequena cidade, nas montanhas da Pérsia, fundada por Ciro.

“Vou-me embora pra Pasárgada”, escrevera em 1930, batizando o notório poema publicado em Libertinagem; símbolo de evasão, de “toda a vida que podia ter sido e que não foi”, Pasárgada acabou por se tornar uma identificação do itinerário da própria busca literária do poeta.

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Doutor Jivago

19 Janeiro, 2018 | Por Isabela Gaglianone

— Metafísica, meu caro, os médicos me proibiram. Meu estômago não digere.
— Deus o proteja. Deixemos isso pra lá. O senhor é um felizardo! Essa vista é admirável! Decerto vive aqui e nem a percebe.
Observar o rio fazia doer os olhos. As águas ondulavam e refletiam a luz do sol como folhas de metal. De repente, a superfície se enrugou. Uma balsa navegava para a outra margem levando cavalos, carroças, mujiques e mulheres.
— Olhe, ainda são cinco horas — disse Ivan Ivánovitch. — Aquele é o expresso de Sízran. Ele passa por aqui alguns minutos depois das cinco.
Ao longe na planície, da direita para a esquerda cruzava um trem amarelo e azul, parecendo menor pela distância. De repente, perceberam que ele parou. Debaixo da locomotiva, tufos de vapor branco se elevaram. Um pouco depois, ouviram-se apitos de alarme.
— Estranho — disse Voskobóinikov. — Há algo errado. Não há razão para ele parar ali no pântano. Alguma coisa está acontecendo. Bem, vamos tomar o nosso chá.

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O romance Doutor Jivago, do russo Boris Pasternak acaba de ganhar uma cuidadosa edição pela Companhia das Letras, com tradução de Sônia Branco e Aurora Fornoni Bernardini.

Destacado por Eric Hobsbawn, em seu clássico A era dos extremos, como autor de relevância indiscutível, Boris Pasternak era poeta e, ao adentrar o terreno da prosa, produziu esta única e grandiosa obra. Seguindo a grande tradição do romance épico russo, herdeiro da prosa oitocentista, o romance traça um panorama completo da sociedade russa em um período historicamente crucial: a Revolução Russa, cujo drama e imensidão são retratados através da história do médico e poeta Iúri Andréievitch Jivago. Por seus olhos hesitantes, o leitor testemunha a eclosão e as consequências deste que foi um dos eventos mais decisivos do século. Em tempos sem esperança no que concerne à aspiração a uma vida normal, o amor de Jivago por Lara e sua crença no indivíduo ganham contornos de verdadeira resistência.

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Qua! qua! ecco! così! E basta!

10 Janeiro, 2018 | Por Isabela Gaglianone
Giorgio De Chirico

Giorgio De Chirico, “La commedia e la tragedia” (1926)

Pirandello em cinco atos reúne cinco peças de Luigi Pirandello (1867-1936), um dos mais notórios escritores italianos do século XX: “O torniquete”, “Limões da Sicília”, “A patente”, “O homem da flor na boca” e “O outro filho”. O belo volume foi publicado no final do ano passado pela Editora Carambaia, com tradução e seleção dos textos realizadas por Maurício Santana Dias, professor de Literatura Italiana e Estudos da Tradução na USP. O livro conta ainda com um ensaio do tradutor, que trata da gênese das peças e estabelece relações com outras obras de Pirandello. Parte das obras reunidas neste volume já foi encenada em palcos brasileiros, mas todas permaneciam ainda inéditas em livro no país.

A produção dramatúrgica de Pirandello é posterior à sua produção prosaica e, inclusive, as cinco peças aqui reunidas, todas de ato único, foram criadas a partir de histórias que o autor siciliano havia escrito anteriormente sob o formato de novelas. Reconhecido pela genialidade de sua produção literária em prosa, foi, no entanto, no teatro que Pirandello levou às últimas consequências as tensões entre fato e ficção, marca fundamental de sua obra.

“Minha arte é cheia de compaixão por todos aqueles que iludem a si próprios”, diz o próprio Pirandello. “Mas, é inevitável, que esta compaixão seja seguida pelo escárnio feroz a um destino que condena o homem à mentira”. Continue lendo

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Literatura

Entro em cena em meu olhar

4 Janeiro, 2018 | Por Isabela Gaglianone

Janelas se iluminam. Dou um passo na sacada…

Entro em cena em meu olhar.

Minha presença se percebe como o igual e o oposto de todo este mundo luminoso que quer convencê-la de que ele a rodeia. Eis aqui todo o choque entre a terra e o céu. O instante quer me prender e o lugar acredita me cercar…

Mas o lugar com seu instante não é, para o espírito, senão um incidente – um acontecimento – um demônio como um outro… Todo esse dia, um demônio de minha noite pessoal. […] – Paul Valéry.

Esboço, Edgar Degas

Esboço, Edgar Degas

Diz o próprio Paul Valéry, sobre seu Alfabeto:

Foi-me pedido, há alguns anos, que escrevesse vinte e quatro fragmentos de prosa (ou de versos variados) cuja primeira palavra deveria, em cada um, começar por uma das letras do alfabeto. Alfabeto incompleto? Sim. É que se tratava de utilizar vinte e quatro letras ordenadas, em xilogravura, que se pretendia publicar com o auxílio de alguma literatura – pretexto e causa aparente do álbum pensado. Essas condições não me intimidam. O gravador havia omitido duas letras, as mais incômodas, aliás, as mais raras em francês: o K e o W. Restam XXIV caracteres. Veio-me a ideia de ajustar essas XXIV peças a serem escritas às XXIV horas do dia; a cada uma das quais se pode bastante facilmente fazer corresponder um estado e uma ocupação ou uma disposição da alma diferente; decisão bastante simples.

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Literatura

O tempo passa

22 dezembro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“Nesse calor, o vento enviou de novo seus espiões à casa. As moscas trançavam uma rede nos quartos ensolarados; as ervas daninhas que tinham crescido junto à vidraça, batiam metodicamente, à noite, na janela. Quando a escuridão caía, o clarão do farol, que nas noites escuras se estendia com autoridade sobre os tapetes, traçando seu desenho, vinha agora misturado ao luar, deslizando suave e furtivamente como se depositasse sua carícia e se demorasse e olhasse amorosamente outra vez.”

Turner, "Waves Breaking against the Wind"

Turner, “Waves Breaking against the Wind”

O tempo passa” é o título da segunda das três partes que compõem o romance Ao Farol, de Virginia Woolf. No início de 1927, ano da publicação do livro na Inglaterra, Virginia enviou uma versão dessa parte para ser publicada, em tradução, em uma revista francesa e o original em inglês permaneceu inédito até 1983, quando o pesquisador James M. Haule o descobriu. Esta versão – que difere significativamente da que foi incluída em Ao Farol e cuja autonomia parece ter sido reconhecida pela própria Virginia – foi publicada em edição bilíngue no Brasil em 2013, pela editora Autêntica, com tradução de Tomaz Tadeu.

Trata-se de um texto de beleza pungente. O fluxo de consciência perpassa a progressiva deterioração da casa de praia na qual a família Ramsay passava suas férias de verão. A poesia da narrativa ramifica metaforicamente a deterioração da casa em temporalidades diversas, desdobra-a em memórias idas, que a imagem constante do mar enfatiza, do mofo dos objetos esquecidos à afirmação de sua própria eternidade, onda após onda.

“A quietude e a beleza apertaram-se as mãos no quarto; entre os jarros com suas mortalhas e as cadeiras revestidas, nem mesmo a prece do vento, o delicado nariz dos úmidos ares marinhos, roçando, farejando, iterando e reiterando suas perguntas – ‘Irão vocês extinguir-se? Irão vocês perecer?’ – conseguem perturbar essa paz, esta indiferença, este ar de integridade, em que não há qualquer compromisso, em que a verdade estava descoberta, como se a pergunta que faziam não precisasse de nenhuma resposta: nós permanecemos”. Continue lendo

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Narrativas da revolução

17 novembro, 2017 | Por Isabela Gaglianone
El Lissitzky, "Tatlin trabalhando"

El Lissitzky, “Tatlin trabalhando”

Inveja, do escritor russo Iuri Oliécha (1899-1960), novela aclamada como um acontecimento literário radicalmente novo no ano de sua publicação, 1927, acaba de ser publicada no Brasil pela editora 34, com tradução de Boris Schnaiderman.

A novela recebeu novas e complexas leituras ao longo do tempo; trata-se de uma sátira mordaz e crítica implacável quanto aos ideais socialistas, porém marcadamente poética.

A trama vertiginosa beira o nonsense. É complexa a ambiguidade psicológica dos personagens, a exaltação de sentimentos contraditórios, que vão da arrogância à auto-humilhação, do amor à inveja desvairada. Satiricamente irresolutas na obra, estas contradições são articuladas por uma imaginação desenfreada e um domínio completo do tempo e do espaço narrativos: o resultado, é uma obra de metáforas audaciosas, desenvoltura soberba e de grandeza ímpar.

Ainda hoje, a novela é desconcertante sob muitos aspectos. Uma tragicomédia anárquica, cujo ritmo e intensidade verbal foram recriados com brilho pela tradução de Boris Schnaiderman.

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Literatura

Os contos reunidos de Dostoiévski

26 setembro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“Saí para me divertir, acabei num enterro. Um parente distante. No entanto, conselheiro de colégio. Viúva, cinco filhas, todas donzelas. Só em sapato, o quanto não vai isso!” – Dostoiévski, trecho de “Bóbok”.

“Lua”, xilogravura original de Oswaldo Goeldi, impressa a partir da matriz original.

Os Contos reunidos, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), foram há pouco publicados pela Editora 34, com traduções, diretas do russo para o português, de Boris Schnaiderman, Paulo Bezerra, Fátima Bianchi, Priscila Marques e outros, sob organização de Fátima Bianchi. A coletânea abrange 28 contos de Dostoiévski, escritos do primeiro ao último ano de sua vida literária. Buscando a fidelidade quanto ao espírito da obra dostoievskiana, a edição compreende uma concepção ampla de “conto”, de modo que inclui também breves novelas, narrativas autônomas dentro de romances e peças jornalísticas com viés ficcional.

Além dos contos mais conhecidos do início de carreira do autor, como “O senhor Prokhártchin”, “Romance em nove cartas” e “Uma árvore de Natal e um casamento”, destaca-se na coletânea a primeira narrativa breve publicada por Dostoiévski, “Como é perigoso entregar-se a sonhos de vaidade” (1846), o conjunto de textos de ficção publicados em Diário de um escritor (periódico editado pelo próprio Dostoiévski entre 1873 e 1881), além das duas versões de “A mulher de outro e o marido debaixo da cama” e “O ladrão honrado” (1848 e 1860).

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Literatura

Khadji-Murát

22 agosto, 2017 | Por Isabela Gaglianone

Tipos caucasiano,s representados pelo artista I. Mikeshin

Khadji-Murát, de Lev Tolstói (1828-1910), foi relançado no Brasil, pela editora 34, com a primorosa tradução de Boris Schnaiderman. O volume conta ainda com o ensaio “Tolstói: antiarte e rebeldia”, em que Schnaiderman, fundamentado nos diários do autor e em extenso material crítico, contextualiza, na vida e na obra do escritor, a posição peculiar que Khadji-Murát ocupa na sua produção literária e intelectual.

A obra foi editada postumamente em 1912 e a maior parte dos críticos considera que tenha sido composta entre 1896 e 1904. Boris Schnaiderman sugere que a composição tenha sido mais longa, argumentando que “os rascunhos encontrados após a morte de Tolstói somam 2.166 páginas”. A novela e sua própria forma foram objeto de um profundo embate literário do autor. Em 1893, Lev Tolstói anotava em seu diário que: “A forma do romance acabou”; não tratava-se de derrotismo, mas da consciência do início de uma luta intelectual em busca da criação de uma nova forma literária: a concisão da novela, que mantém a abrangência das múltiplas linhas narrativas dos seus grandes romances. O resultado desse embate é Khadji-Murát, obra-prima de atualidade impressionante.

A novela narra a história verídica do líder rebelde caucasiano Khadji-Murát (1796-1852), em sua luta contra a incorporação da Tchetchênia e do Daguestão pelos russos. A região até hoje é foco de instabilidade política. Continue lendo

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história

Triste visionário

30 junho, 2017 | Por Isabela Gaglianone

Lima Barreto, fotografia de 1909

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), grande escritor brasileiro, cuja vida foi perpassada por dificuldades por ser mulato e filho de uma família pobre, será o homenageado da Festa Literária de Paraty neste ano.

Lima Barreto soube justamente retratar criticamente as injustiças sociais do Brasil e o preconceito de cor do qual também foi vítima, nascido em um país que aboliu a escravidão no exato dia em que o ainda futuro escritor completava sete anos, em 13 de maio de 1888 – mesmo ano em que ficou órfão de mãe. Sua literatura não foi reconhecida durante sua vida. Lima Barreto é conhecido por ter tido uma vida boêmia, solitária e entregue à bebida, pelo que foi internado duas vezes na Colônia de Alienados na Praia Vermelha, em razão das alucinações que sofria durante seus estados de embriaguez. Morreu na pobreza, na doença e no esquecimento.

Durante mais de dez anos, Lilia Moritz Schwarcz mergulhou na obra desta interessantíssima figura da literatura brasileira. Seu profundo estudo biográfico, Lima Barreto: triste visionário, que alia seus olhares historiográficos e antropológicos e abrange o corpo, a alma e os livros do escritor, acaba de ser lançado pela Companhia das Letras. Continue lendo

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Literatura

A vista particular

10 Fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“A montagem do morro foi mais tranquila. Arariba tinha deixado à disposição uma série de materiais, já com as instruções do lugar de tudo. Não era preciso. Com a experiência, os moradores sabiam perfeitamente erguer os barracos, lembravam-se dos lugares onde deveriam ficar a vendinha, a boca de fumo, a igreja evangélica e a biblioteca comunitária. De qualquer forma, não é preciso deixar tudo igual. A arte contemporânea tomou para si, com grande criatividade, o aspecto efêmero das coisas humanas. Haverá alguma pulsão de morte na obra de Zé Arariba?, um crítico se pergunta em um longo artigo de jornal. Esse, por razões que não vêm ao caso, nosso artista leu e ficou abalado. Afinal de contas, estou sempre despedaçando alguma coisa. Às vezes fico pensando se vale mesmo a pena”.

Cantagalo/ Pavão-Pavãozinho

O romance A vista particular, de Ricardo Lísias, mostra a espetacularização da miséria e a estetização da violência de maneira ácida e satírica. O protagonista, José de Arariboia, é um artista bem-sucedido, conhecido por uma série de quadros que pintou sobre o Rio de Janeiro, está prestes a montar sua primeira exposição individual. Ele é, porém, flagrado subindo a favela do Pavão-Pavãozinho. Ninguém sabe o que acontece por lá. E na volta, uma inesperada “performance” leva as pessoas ao delírio: Arariboia desce da Rua Sá Ferreira até a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, completamente nu e ainda com um passo de gingado especial, digno de ser desfilado em um sambódromo. Curiosos filmam a “performance” e os vídeos tornam-se sucessos no YouTube. O que poderia ter sido uma catástrofe e a ruína de sua reputação, transforma-se, assim, em sensação. Arariboia torna-se uma estrela na internet, conhece o chefe do tráfico no morro Pavão-Pavãozinho e, com ele, inicia uma parceria e um trabalho que, crê, é sua obra-prima: uma intervenção na comunidade, a princípio uma espécie de metonímia, que acaba tomando a dimensão de uma sátira feroz de crítica social aos silenciados absurdos cotidianos. Segundo Schneider Carpeggiani, em resenha publicada pelo Suplemento Pernambuco, “o romance dilata o vaivém ‘voyeurístico’ entre favela e classe média, entre o que entendemos por centro/por margem e como esse movimento pode ser kamikaze para ambas (e objetificadas) partes”. Continue lendo

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Literatura

Memórias de Adriano

8 Fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

Mausoléu de Adriano, em Roma [atualmente, Castel Sant’Angelo]

Memórias de Adriano, da escritora belga Marguerite Youcenar (1903 — 1987), é uma autobiografia imaginária do imperador romano. Adriano de fato escreveu uma autobiografia que não sobreviveu até nosso conhecimento. Publicada originalmente em 1951, foi a obra de Youcenar que a tornou internacionalmente conhecida.

O romance é escrito em primeira pessoa, em forma de uma carta testamento, escrita por Adriano e endereçada a seu neto adotivo, o futuro imperador Marco Aurélio. Na carta, o imperador produz confissões, à maneira de uma anamnese, e assim faz um balanço de seu próprio tempo e existência, de modo que amalgamam-se suas memórias pessoais às memórias históricas. Através da voz de Adriano, falam inúmeras outras, e o retrato memorialístico de sua personalidade, humana por excelência, é também o retrato de uma época, em rigorosa reconstituição histórica. Sua narrativa associa filosoficamente dimensões sociológica e psicológica.

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história

Dos destinos das utopias

3 Fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

Viva!, do escritor francês Patrick Deville, é o mais recente lançamento da sua série de “romances sem ficção”, que investigam o destino das utopias e esperanças modernas nas mais diversas partes do mundo. A série foi inaugurada com Pura vida: Vie & mort de William Walker (2004) e seguiu através dos títulos La Tentation des armes à feu (2006), Équatoria (2009), Kampuchéa (2011), Peste & Choléra (2012). Viva!, publicado na França em 2014, é a primeira obra do autor traduzida no Brasil. O volume acaba de ser lançado pela editora 34, com tradução de Marília Scalzo, e conta com texto de apresentação de Alberto Manguel.

O romance sem ficção inicia-se em Tampico, em janeiro de 1937, momento em que Léon Trótski desembarca no México, banido da URSS, e sabe que não está a salvo. Patrick Deville faz a crônica dos três anos que restam ao revolucionário russo. Desfila um cortejo de figuras que a presença de Trótski imanta e radicaliza: Diego Rivera e Frida Kahlo, Victor Serge e André Breton, David Alfaro Siqueiros e Ramón Mercader, B. Traven – o enigmático autor de O tesouro de Sierra Madre – e Malcolm Lowry – jovem escritor que chega ao México no mesmo ano, sonhando em revolucionar a prosa poética e que reservará a Trótski um papel decisivo nos momentos finais de À sombra do vulcão.

Através dos cruzamentos entre os percursos dessas vidas paralelas e os labirintos da história e da geografia, à sombra da guerra mundial que se aproxima e que levará a uma negra apoteose, Deville cria uma narrativa vertiginosa. No curso de suas vidas meteóricas, no entanto, os personagens de Viva! lançam uma importante luz inconformista sobre este mundo. Continue lendo

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Literatura

Os passos em volta

1 Fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo – diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite” – Herberto Helder, “Lugar lugares”.

Evandro Carlos Jardim

Os passos em volta é a primeira obra em prosa de Herberto Helder, um dos maiores poetas portugueses. O livro, lançado originalmente em 1963, ganhou reedição pela Tinta-da-china Brasil em maio do ano passado.

De acordo com Eucanaã Ferraz, “Não são contos. Têm a qualidade dos poemas e o desenho retilíneo da prosa. Materialização de uma singularidade irredutível, são o que são: um estilo”. Para o poeta brasileiro, o livro “espanta-nos pela sua violência, mas também porque nele perdição e terror irrompem no plano de uma escrita ordenada e muitíssimo construída. […] este livro nos apanha e desde suas primeiras palavras começamos a dar passos em volta, já não podemos sair de seu mundo, onde tudo é solidão e deslumbramento”.

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Literatura

Romance em doze peixes

27 Janeiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

William Buelow Gould

O livro de peixes de Gould – Romance em doze peixes, de Richard Flanagan, é um romance engenhoso, cuja ficção entrelaça-se à história da Austrália, à história das colônias penais, ao cientificismo do século XIX, partindo do relato sobre William Gould, pintor e talentoso imitador e falsificador de arte, condenado, em 1827, a cumprir 49 anos de prisão numa colônia penal da Ilha Sarah – território da Terra de Van Diemen, que viria a se tornar a Tasmânia. Ali, coagido pelo médico do presídio, Gould realizou uma série de pinturas retratando os peixes da região. Inspirado nesta personagem histórica, o tasmaniano Richard Flanagan reconstitui as terríveis condições da colonização inglesa. O narrador de sua história é um falsificador de antiguidades que encontra um livro misterioso, escrito à mão, com diversas pinturas de peixes. O objeto, ainda que curioso, não tem valor nenhum. No entanto, o livro some e seu desaparecimento é tão misterioso quanto a sua origem. Trata-se do caderno escrito no cárcere. Continue lendo

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