história

Dos destinos das utopias

3 fevereiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

Viva!, do escritor francês Patrick Deville, é o mais recente lançamento da sua série de “romances sem ficção”, que investigam o destino das utopias e esperanças modernas nas mais diversas partes do mundo. A série foi inaugurada com Pura vida: Vie & mort de William Walker (2004) e seguiu através dos títulos La Tentation des armes à feu (2006), Équatoria (2009), Kampuchéa (2011), Peste & Choléra (2012). Viva!, publicado na França em 2014, é a primeira obra do autor traduzida no Brasil. O volume acaba de ser lançado pela editora 34, com tradução de Marília Scalzo, e conta com texto de apresentação de Alberto Manguel.

O romance sem ficção inicia-se em Tampico, em janeiro de 1937, momento em que Léon Trótski desembarca no México, banido da URSS, e sabe que não está a salvo. Patrick Deville faz a crônica dos três anos que restam ao revolucionário russo. Desfila um cortejo de figuras que a presença de Trótski imanta e radicaliza: Diego Rivera e Frida Kahlo, Victor Serge e André Breton, David Alfaro Siqueiros e Ramón Mercader, B. Traven – o enigmático autor de O tesouro de Sierra Madre – e Malcolm Lowry – jovem escritor que chega ao México no mesmo ano, sonhando em revolucionar a prosa poética e que reservará a Trótski um papel decisivo nos momentos finais de À sombra do vulcão.

Através dos cruzamentos entre os percursos dessas vidas paralelas e os labirintos da história e da geografia, à sombra da guerra mundial que se aproxima e que levará a uma negra apoteose, Deville cria uma narrativa vertiginosa. No curso de suas vidas meteóricas, no entanto, os personagens de Viva! lançam uma importante luz inconformista sobre este mundo.

O escritor brasileiro Joca Reiners Terron, em resenha publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, aponta: “O México, como apontou André Breton, é o lugar surrealista por excelência. Nos anos 1930, a máxima do poeta francês adquiria ainda mais contundência. Durante a presidência de Lázaro Cárdenas (de 1934 a 1940), revolucionários de todas as extrações –comunistas, anarquistas, republicanos espanhóis–, migraram para lá”; o porto de Tampico tornara-se um “exuberante zoológico do século 20”. Neste cenário, em paralelo à vida de Trotsky, “como se Deville expusesse a vida heroica do revolucionário russo diante de um espelho deformado, acompanha-se a trajetória peripatética de Malcolm Lowry (1909-1957). Ao escritor inglês pode ser creditado aquele que é o maior romance ‘mexicano’ do século passado, ‘À Sombra do Vulcão’ (1947), relato da via crucis movida a mescal do cônsul Geoffrey Firmin rumo ao inferno em Quauhnahuac, assim como a existência acidentada em busca da transcendência artística do próprio autor, um burguês mantido pela mesada do pai. Contudo, ao explorar descaminhos do alcoolismo místico de Lowry e da luta pessoal do escritor para realizar algo de belo, Deville encontra o ponto comum entre ambos. Além da coincidência geográfica que abriga ao mesmo tempo a ambientação da obra-prima de Lowry com o assassinato a picaretadas do revolucionário por Ramón Mercader, há o passo final do cônsul Firmin, em ‘À Sombra do Vulcão’, que termina assassinado barbaramente nos fundos de um bar após o acusarem de ser Trótski”.

Sylvia Colombo, em resenha também publicada na Folha de S. Paulo, entrevistou o autor, que disse: “Foram tempos difíceis para Trótski, pois ele pressentia a possibilidade de ser assassinado a qualquer momento. Mas estou certo de que ele foi feliz no México. Porque construiu um cotidiano de trabalho, cuidava de seu jardim, atuava politicamente por meio de seus escritos, e tinha uma rede de amigos e intelectuais que só existia no México naquela época”. De acordo com Colombo, “o livro não é só uma investigação sobre como foram os últimos três anos de vida de Trótski, até ser morto pelo militante comunista espanhol Ramón Mercader, mas um projeto mais ambicioso. Deville recria a cartografia humana, social e geográfica do país em que Trótski desembarcou. Um México das décadas de 1920 e 1930, recém-saído da Revolução (iniciada em 1910), em que se havia criado um rico ambiente intelectual. Ali chegaram várias pessoas, artistas, intelectuais e ativistas que queriam escapar de um mundo de conflitos e que caminharia para uma época de totalitarismos. Para Deville, o fato de tantos personagens ilustres terem estado lá ao mesmo tempo –alguns encontrando-se, outros não– determinou o surgimento de caminhos políticos e artísticos que marcaram o resto do século”. Colombo também comenta o personagem que, ao lado de Trotsky, é um dos pilares do livro: “Não há registros de que Trótski e Lowry tenham se conhecido pessoalmente, apesar de terem vivido no mesmo país. Mas Deville vê muito em comum em ambas as trajetórias: dois autores no exílio, escrevendo obsessivamente e ‘com apaixonado sentido de urgência, enquanto o México os impactava muito’”. A crítica, porém, ressalta que “são muitos mais os habitantes do universo de ‘Viva!’. Estão nele também a fotógrafa revolucionária italiana Tina Modotti, a artista Frida Kahlo, com quem Trótski teve um romance, e o escritor britânico Graham Greene, entre outros. A narrativa segue uma toada de tom vertiginoso que pode parecer confuso, tal a rapidez com que Deville vai fazendo associações e abrindo novos caminhos entre autores e obras. ‘Quis dar um pouco a sensação de como esses cruzamentos de trajetórias não eram planejados, mas sim obedeciam a uma certa lógica da casualidade’, explica”.

De acordo com Tiago Ferro, em resenha para a ótima revista Peixe Elétrico, há, na verdade, três personagens principais: “Trótsky e o autor de À sombra do vulcão, Malcolm Lowry; e um país que amarra essas trajetórias, e tantas outras que aparecem pelo livro, o México”. Segundo o crítico, Viva! “é composto por capítulos curtos, sem uma conexão forte entre eles, em termos de sequência narrativa e desenvolvimento temporal. O tempo avança e recua por todo o livro e uma série de personagens surge rapidamente para nunca mais aparecer. A escolha de Trótsky e Lowry, salvo engano, representa dois modelos, ou melhor, duas ideias de revolução: a social e a comportamental-estética. A primeira pensando em transformar a sociedade como um todo e assim englobar o indivíduo, e a segunda partindo de questões pessoais que se desdobrariam por setores da sociedade”. De acordo com Ferro, “Deville entra numa questão quente do debate das esquerdas nos nossos tempos: o valor das revoluções comportamentais motivadas por minorias (jovens, mulheres, negros, gays etc). O autor não faz nenhuma distinção de valor entre as duas. Ou melhor, as apresenta sob o mesmo impulso utópico e com iguais consequências para os que embarcam nessas locomotivas revolucionárias. As revoluções sociais do século XX, inspiradas em ideais de esquerda, via de regra, ao não lidar com as questões comportamentais, foram incapazes de criar sociedades de fato igualitárias. Ou melhor, só conseguiram essa proeza massacrando aqueles que não se ajustavam ao projeto principal”. O crítico mostra o impulso utópico das ações revolucionárias, sejam elas sociais ou estéticas; segundo ele: “O livro é complexo assim como os problemas levantados. Não há respostas fáceis. As revoluções (sociais ou comportamentais-estéticas) motivadas pelo paradigma civilizacional europeu valeram (valem?) a pena? Para tentar responder a essa questão surgem Artaud e o subcomandante Marcos. ‘Marcos é o nome de um colega que morreu, e sempre usamos os nomes daqueles que morreram nesta ideia de que um não morre, se a luta continuar’, explica o subcomandante Marcos, que nasceu em Tampico em 1957, e se tornou o principal porta-voz do movimento revolucionário pós-moderno Zapatista. Marcos reafirma assim o mote principal de Trótsky: a revolução sem fim. Encontramos aí um grande fio condutor do desejo de reformar o projeto moderno por dentro e, dessa forma, incluir os excluídos na festa da modernidade. Já Artaud sugere que saltemos do trem revolucionário para nos sentarmos ao lado dos índios apenas observando calados a modernidade e sua civilização passar”.

 

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“Trotsky vê diante de si o sorriso da bela Frida das sobrancelhas muito negras, do melro na testa, da blusa indígena multicolor, dos lábios vermelhos que já talvez cantarolem. Já sente ciúme de Rivera”.

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VIVA!

Autor: Patrick Deville
Editora: 34
Preço: R$ 36,40 (208 págs.)

 

 

 

 

 

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