Crítica Literária

Rubens Rodrigues Torres Filho .parte I.

17 maio, 2013 | Por Isabela Gaglianone

poema semipronto*

Dante fez o que quis.
–  –  –  Beatriz.

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*) Adicionar água e levar a fogo brando.

A arqueologia da palavra é tarefa compartilhada pelo filósofo e pelo poeta. “As palavras são símbolos que postulam uma memória compartilhada”, segundo Borges. Trabalho minucioso, do espírito e da letra. E se acontece-lhe ser feito na poesia escrita por um filósofo, como o é Rubens Rodrigues Torres Filho, ganha um polimento ambivalente porém exato, um humor fino que permite-se chegar a vocábulos eruditos ou expressões coloquiais com a mesma facilidade – e com a mesma ironia.

Poeta solitário, alheio a escolas, grupos ou modismos, mesmo porque a poesia foi-lhe tarefa secundária – quase um capricho, segundo o poeta Cacaso (Antônio Carlos de Brito) – em relação à filosofia, seu objeto de estudo e interesse primeiro. Rubens foi professor de filosofia moderna na Universidade de São Paulo, especialista na filosofia de Fichte – a respeito da qual escreveu uma notória tese, O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte –, comentador da filosofia alemã, sobretudo dos períodos conhecidos como o Idealismo e o Romantismo, profícuo tradutor de obras de autores como Nietzsche, Novalis, Benjamin, Adorno, Schelling, Kant e Fichte. Nos trabalhos filosóficos vemos sua poesia – a sua articulação de uma brincadeira com a hermenêutica das palavras – em germe. Suas traduções já possuem o cuidado preciso com as palavras, equilibradas como numa escultura; seus comentários de filosofia, o humor irônico que lhe é peculiar.

ensaio

Sempre uma tentativa de recomeço,
um abalo para diante,
embalo, impulso, empuxo –
uma volta e revolta da experiência,
reviravolta de dados para enfeitiçar o acaso.

Em 1997, a editora Iluminuras lançou a coletânea Novolume, uma compilação de todos os livros, alguns poemas novos, inéditos, e traduções de Rubens Rodrigues Torres Filho. Lendo sua poesia em ordem cronológica a partir das primeiras publicações, é possível sugerir que ela foi condensando um humor cada vez mais ácido. Sua ironia tornou-se cada vez mais limpa e precisa, com o passar dos anos apurou-se e passou a concentrar gamas cada vez maiores de significados com poucas palavras, certeiras.

Rubens publicou A investigação do olhar, em 1963, Nem tanto ao mar, em 1965 e, o breve Poema desmontável, espécie de brincadeira com os concretistas, data de 1965 a 1967. Depois destes, seu próximo livro de poesia foi publicado apenas em 1981, O vôo circunflexo, que reúne poesias escritas durante diferentes épocas da vida do poeta. É a partir deste intervalo editorial que reconhecemos um certo amadurecimento da poesia e de sua ironia, além da manifestação mais elegante e espirituosa da filosofia, flagrada entre chistes e jocosidades nos poemas. Após O vôo circunflexo, o contexto de ironias é mais cortante, tanto em A letra descalça, de 1985, como em Poros, de 1989, em Retrovar, de 1993 ou nos Poemas novos, escritos entre 1994 e 1997. Como disse Viviana Bosi, em artigo escrito à revista Terceira Margem, Rubens

“aparentemente saiu de um lirismo tardomodernista epigonal, praticado em São Paulo nos idos da década de sessenta, com influência francesa de um suave surrealismo amoroso éluardiano, e enveredou mais tarde pela concisão e pelo humor melancólico”.
(Bosi, Rubens Rodrigues Torres Filho: verso e avesso)

Reconhece-se uma mudança de tom na sua poesia, que encontrou registros cada vez mais zombeteiros. Os poemas publicados até a década de sessenta podem ser lidos como uma espécie de prelúdio aos poemas mais recentes, tendo como fio condutor, presente em todos os momentos de sua trajetória poética, a ironia, que, olhada sob o prisma da coletânea, traveste-se camaleônica, multiforme:

cáustica – “se vem do cú é menos expressão?” –, graciosa – “borboletreiramente” –, filosófica – “e coisa e Tales” –, ou elegante – “Aqui e agora / o now e o here / formam meu pícolo nowhere”.

Arthur Nestrovski em uma resenha a Novolume, escrita ao jornal A Folha de São Paulo, fala um pouco sobre essa tentação de ler os poemas comparativamente, numa coletânea que abrange toda a vida poética do autor. Nestrovski fala da “poesia do pensamento de Rubens Rodrigues Torres Filho”, que expressa “a obsessão de um prisioneiro da linguagem, sem ilusões quanto à possibilidade de fuga”, problemática cujo eco abstrato traduz um poeta plenamente irônico: “e é bom frisar que não se trata de uma figura de linguagem: é uma condição do texto inteiro”.

Na epígrafe ao seu primeiro livro poético, Investigação do olhar, existe talvez o indício de uma fagulha inicial dessa ironia tão marcada na sua poesia:

“A poesia, esforço da linguagem, será primeiramente “lógica”. Não há perdão possível. A poesia deve ser escavação e tortura. Não há flores no rosto, mas roteiros nas mãos. Eis o caminho”.
(“anotação antiga”)

A poesia, esforço da linguagem, deve realizar a escavação dos significados e a tortura da palavra. É a fórmula para o “lúdico cético” cultivado na poesia de Rubens, o cerne de sua ironia. Esse ceticismo lúdico, quem define é Viviana Bosi, que diz:

“(…) a ironia hoje, ainda que descenda do poema-piada modernista ou do ouriço romântico apresenta um tom algo diferente: um contraste menor com o “alto” ou “ideal”. (…) a partir de meados de 60, quando a nova ironia de Paes e Sebastião se afirmou. (…) o horizonte do futuro torna-se cada vez mais apertado e, especialmente com os marginais, desencantado. Cremos que Rubens cultiva o lúdico cético dessa nova onda dos “pós-utópicos”. Por outro lado, se haveria alguma semelhança entre sua poesia e a dos marginais – pelo viés do descompromisso aparente com as “instituições sociais e culturais”, nele isto não se deve a algum tipo de entusiasmo juvenil e sim, ao contrário, pelo ceticismo que nem no próprio – ceticismo – acredita”.

É o problema do desencantamento com o futuro, típico da zombaria dos poetas marginais e que figura um ceticismo exacerbado. Mas um ceticismo que cultiva gracejo ou ludíbrio, de que resulta uma ironia cortante. Na obra poética de Rubens, o anonimato da poesia nas mãos do filósofo encontra na ironia penetrante e mordaz a evasão para a desilusão do mundo e da própria ideia histórica e sistemática de verdade.

elogio do oco

O oco desfaz as dúvidas
quanto ao vazio do que é:
ninguém fica sem recado.
Todos sabemos direito
o que importa a seu respeito.
O oco é fácil e honesto.
Não digo o mesmo do resto.

(in: Poemas Novos, 1994 – 1997)

Essa desilusão tão lúcida é constante através dos livros da poesia de Rubens. No poema “(duplo) resíduo”, por exemplo, do livro A letra descalça (1985), por exemplo, o poeta diz: “Antigamente eu acreditava nos direitos / de minha subjetividade soberana. / Hoje em dia não há mais direitos nem esquerdos:”. Os direitos da soberania da subjetividade não mais existem, assim como também não existe mais a própria subjetividade, pois “não há mais direitos nem esquerdos”, há apenas um caminho, estreito, um fio, que delimita as possibilidades, que marca o limite do mundo. A alma está vazia, sem direito à escolha de seus próprios caminhos e, com uma desesperança irônica, seu vazio é comparado à crescente ausência de fios de cabelo na cabeça cada vez mais calva.

O ceticismo lúdico é, portanto, na exata palavra do poeta, o “niilirismo” – título de um poema de A letra descalça –, um vazio pungente que sobra no leitor após a leitura dos poemas, apesar e devido ao seu viés lúdico. Segundo Cacaso,

“o seu virtuosismo parece disfarçar um niilismo mais profundo, que vibra como uma sensação de vazio na experiência final do leitor. (…) Na sucessão de despistamentos a que somos levados, a sensação que perdura é de rarefação, de falta”.

O “niilirismo” é ironicamente recorrente nas referências a temas musicais e a evasões náuticas, metáforas marítimas, em diferentes épocas. Nos poemas com referências musicais, ressoa especialmente a elegância da poesia de Rubens. Em Nem tanto ao mar (1965), por exemplo, há uma indicação de andamento, como em uma peça musical, “(largo – alegro – largo)”; o poema desenvolve-se em duas vozes, como tocadas ao piano, um baixo e uma voz alta. O vai e vem que brinca e não se entrelaça, como perguntas e respostas que uma faz à outra, dentro da harmonia conjunta que as rege. Perguntas que ecoam em uma ou outra nota, em uma ou outra palavra, a resposta – dominante e silenciosamente tônica: nem tanto à terra; pêndulo mudo.

Em “imitação de Mozart”, outro exemplo, poema de O vôo circunflexo (1981), a forma sonata é estilizada, dando corpo irônico ao poema de amor (-próprio). Uma espécie de modulação de compasso ajuda o ritmo incerto e sincopado da parte final do poema, intensificando a ironia – a primeira parte é um movimento mais rápido, em pares de duas estrofes por verso, num ritmo mais marcado e mais impaciente, o enamoramento pândego; ao passo que a segunda parte demora-se mais, escrita em três estrofes por verso, o tempo mais lânguido, após as decepções amorosas: o choro, solista afinal, acompanhado por um baixo contínuo, o amante conformado. A forma sonata normalmente era composta no classicismo por três movimentos, exposição, desenvolvimento e reexposição; aqui é como se o amor não tivesse reexposição, se prostrasse no desenvolvimento, solista, do choro. O poeta adverte seu leitor: deve apaixonar-se, mas manter-se fora do mundo de puros devaneios, “as flores abrem asas de manhã”, mas as fecham, pesadas, sobre si mesmas à noite, o mundo real chama, embora o amor ensurdeça os ouvidos enamorados. “É bom cantar de amor”, mas não desencantar o próprio amor. Ironicamente, em um poema que aparentemente apenas celebraria o amor, Rubens chama seu leitor para a consciência das possibilidades reais cotidianas. Na primeira parte do poema, em todas as estrofes ele cria um encantamento ou um horizonte positivo no primeiro verso e os desfaz cruelmente no segundo. Na segunda parte, o tom desiludido é reforçado pelo afastamento, “e te destaco do peito”. Entre o fazer e desfazer sobra a confirmação da desilusão, o pessimismo e a negação, a previsão do desencantamento do amor.

Há um jogo hermenêutico específico quando aparecem os temas musicais: um dos prazeres da música é decorrente do ritmo, ou tempo e compasso, um prazer que fundamenta-se numa sucessão de sons, regulamentada. Transposto em criação mimética dos versos poéticos, em que a própria pronunciação das palavras submete a voz ao tempo e ao compasso, tem-se a imagem da decomposição do pensamento à maneira de seu próprio reflexo: sequência de signos verbais substituindo a simultaneidade das representações, resta à linguagem seu paradoxo tautológico, enquanto efeito das operações mentais, ela é também constituinte da elaboração dessas operações. Na poesia de Rubens, a articulação de relações de interpretação dos signos e valores simbólicos da própria linguagem encontra respaldo e conduto na ironia, profunda e vertiginosa e mesmo brutal.

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(Desenho de Odilon Redon, Gênio sobre as águas (1878), feito a carvão, da série de desenhos Negros: “… destruídos e desagregados, cada um com os olhos magoados, no abandono de si mesmo e do lugar” (Odilon).

 

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