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Sonhos em prosa

16 outubro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Gyula Krúdy (1878 – 1933) é considerado por muitos escritores húngaros o maior prosador da Hungria. Apesar de ter obtido sucesso literário em vida – desde os vinte anos teve seus textos publicados e em 1930 recebeu o Baumgarten, o prêmio de literatura mais importante na Hungria na época – suas narrativas foram muito difundidas após sua morte, durante a Segunda Guerra Mundial, redescobertas porque resguardavam a intimidade da memória e do próprio espírito do povo húngaro: narrativas capazes de despertar a sociedade então entorpecida, invadida, destruída pela guerra, capazes de resgatar uma sensibilidade cultural que a um estrangeiro não é perceptível, porque falam diretamente com o que há de mais secreto e profundo na identidade de seu povo, no que há de próprio em suas simbologias, seus costumes, sua compreensão do mundo, ou nos detalhes de um semblante, de prato de sopa ou de uma vitrine. Como diz o tradutor Paulo Schiller, na apresentação da edição de O companheiro de viagem, publicada pela editora Cosacnaify, “Em tom melodioso, Krúdy falava de uma outra Hungria, atemporal, cujo território era a memória, ressuscitava um passado talvez inexistente em que realidade e sonho se entrelaçavam e confundiam”. A alusão a uma melodia musical segue a interpretação de Paulo Rónai, primeiro a traduzir contos de Krúdy no Brasil, segundo quem “a prosa de Krúdy é próxima da música”.

Boêmio, alcóolatra, Krúdy jamais relia o que escrevia. Escrevia constantemente, quase compulsivamente. O companheiro de viagem é o primeiro romance de sua autoria a ser publicado no Brasil. Uma de suas obras mais maduras, traz os traços marcantes de seu estilo. Uma viagem numa cabine de trem é o cenário onde as lembranças da personagem desenrolam com lirismo questões de pecado, traição, sacrifício e salvação. Sonhos em prosa, realista e expressionista a um só tempo.

Em 1911, Krúdy criou o personagem mais famoso da literatura húngara, seu alter-ego, Szindbád – um navegante das mil e uma noites que vivia à margem da sociedade, percorrendo toda a Hungria em um mundo de sonhos e recordações amorosas, revisitando o passado para desvendar as incertezas da vida. Quando o escritor morreu, as elegias dos amigos e admiradores foram escritas para o pseudônimo Szindbád. Em 1940 Sandór Márai publicou o romance Szindbád volta para casa, do qual há um recorte incluso como apêndice nesta edição da Cosacnaify; nele, diz, também pensando numa analogia da prosa do mestre com uma linguagem musical, grave e diminuta:

[…] Escrevia porque era escritor e às vezes ouvia uma voz, como num quarto vazio o lamento de uma viola, solitária, esquecida a um canto. […] Essa voz era grave como o som da viola, triste como o olhar das mulheres solitárias, séria como as perguntas dos homens quando cobram da vida tudo o que ela ficou devendo, às vezes lúgubre como o lamento do destino. […] como se a melodia da viola fizesse tocar em sua alma toda uma orquestra, ouvia todos os sons que compunham o acompanhamento da vida do húngaro […]. Via a verdade, a outra Hungria, que vivia por trás do mapa e que a ilusão da realidade refletia.

 

 

 

 

O COMPANHEIRO DE VIAGEM
Autor: Gyula Krúdy
Editora: Cosacnaify
(136 págs.)

 

 

 

 

 

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