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A era pós-democrática

7 abril, 2016 | Por Isabela Gaglianone

“‘We are the champions’ [Nós somos os campeões] – esse é o hino do novo sujeito empresarial. Da letra da música, que a sua maneira anuncia o novo curso subjetivo, devemos guardar sobretudo esta advertência: ‘No time for losers’ [Não há tempo para perdedores]. A novidade é justamente que o loser é o homem comum, aquele que perde por essência. De fato, a norma social do sujeito mudou. Não é mais o equilíbrio, a média, mas o desempenho máximo que se torna o alvo da ‘reestruturação’ que cada indivíduo deve realizar em si mesmo”.

Francisco de Goya, "Regozijo" e "Bajan riñendo"

Francisco de Goya, “Regozijo” e “Bajan riñendo”

A nova razão do mundo – Ensaios sobre a sociedade neoliberal, escrito a quatro mãos pelo sociólogo Christian Laval e pelo filósofo Pierre Dardot, acaba de ser lançado no Brasil. A reflexão dos dois pesquisadores parte da percepção de que ainda não entendemos o que é o neoliberalismo e, atualmente, por isso pagamos um alto preço. Nesse sentido, a obra tem um forte senso de urgência por repensar os lugares-comuns a respeito da natureza do capitalismo contemporâneo.

Articulando uma investigação histórico-social e econômica com a psicanálise, os autores apontam que a novidade do neoliberalismo é que se trata, mais do que apenas uma doutrina econômica ou ideológica, de uma racionalidade global que funciona como espécie de lençol freático normativo global. 

Dardot e Laval afirmam que a grande inovação da tecnologia neoliberal é vincular diretamente a maneira como um homem “é governado” à maneira como ele próprio “se governa”. 

Para mostrá-lo, os autores exploram as raízes e ramificações do pensamento neoliberal ao longo do século XX, analisando suas implicações paradigmáticas, que transformam a economia em uma disciplina pessoal. Uma racionalidade da qual a figura central é o “sujeito empresarial”, ou seja, em que cada indivíduo é uma empresa que se deve gerir e um capital que deve fazer-se frutificar.

Na nova razão do mundo, todas as atividades acabam por assemelharem-se a uma produção, submetida a um cálculo de custo e regida pelo imperativo do “sempre mais”, da intensificação da eficácia de cada sujeito, em todos os domínios de sua existência, da vida escolar e profissional à sua vida relacional, sexual e assim por diante. Todas as atividades que permeiam a vida são, portanto, concebidas essencialmente como “investimento” no interminável processo de valorização do eu, de inteira responsabilidade de cada indivíduo.

Segundo José Luiz B. Neves, em artigo que comenta o livro, escrito à revista Fevereiro, o neoliberalismo foi criado como a estratégia de poder “encontrada pelo capital para impulsionar-se para fora da crise dos anos 1970, explica-se menos como um programa econômico estrito senso (privatizações e espoliações do fundo público) do que como uma certa racionalidade, certamente anônima e sem artífice, a organizar a conduta de governos e de governados por meio de práticas de estilo concorrencial”. Neste sentido, diz Neves, “não seria forçosamente a ‘privatização’ das instituições públicas o que caracterizaria a ordem neoliberal (ao menos, não em primeiro plano), e sim a difusão, no interior dessas instituições, de técnicas e regras gerenciais cuja eficácia passaria a moldar as ações e – por que não? – as subjetividades que ali se desenvolvem. Por meio de expedientes aparentemente banais como as constantes avaliações de resultado, medições quantitativas de desempenho e premiações correspondentes, vai-se criando em hospitais, escolas (universidades?), tribunais de justiça, etc. o que os autores chamam de ‘uma situação de mercado sem mercadorias’, isto é, uma acirrada dinâmica competitiva que, por ocorrer onde ocorre, não produz bens ou valores (nessa medida, o sistema de prêmios e preços desse ‘quase-mercado’ é, nas palavras mesmas dos autores, ‘autorreferencial’), mas que contribui, ainda assim, para difundir a lógica concorrencial por toda a sociedade intra e extramercantil, homogeneizando assim essas duas esferas”. A essa nova racionalidade, correspondem também novas formas de subjetivação, resultado da interiorização dos padrões de medida das práticas concorrenciais. ‘Para além da transformação do Estado’, dizem os autores, o que está em questão no neoliberalismo ‘é a gestão de populações, no sentido de Michel Foucault, isto é, enquanto ela atinge os próprios indivíduos em seu modo de viver’”. A “razão neoliberal”, diz Neves, ou seja, a lógica da concorrência completamente disseminada, “se é posta em funcionamento por práticas específicas, tende a autonomizar-se e passar a dominar os agentes que a efetivaram em primeiro lugar. Essa construção política não é fruto único da vida do capital, nem projeto consciente de arquitetos políticos. Dito de outro modo, essa forma de poder não se lê nem por análise econômica, nem por análise jurídica. Explicitamente, Dardot e Laval buscam então refúgio na noção marxiana de atividade”. Segundo Neves, “grosso modo, estariam em questão duas concepções de atividade, forjadas através da leitura da lógica da reflexão: de um lado, uma atividade – que Marx encontrará no capital – caracterizada pela relação a si e pela reposição dos pressupostos, de outro, uma atividade – os autores a chamarão de ‘atividade prática ou objetiva dos homens’ – incapaz de pôr seu pressuposto, permanecendo assim condicionada do exterior por ‘pressuposições efetivas’ não produzidas por ela. Os autores pensam, aqui, na atividade prática de gerações que, encontrando diante de si condições historicamente já dadas (porém produzidas por gerações passadas), transformam essas condições assim que as retomam (e, no processo, se transformam a si mesmas), porém sem jamais abolir definitivamente sua dependência em relação à exterioridade”.

No prefácio, Dardot e Laval sintetizam o ponto de partida de sua análise: “O neoliberalismo tem uma história e uma coerência. Combatê-lo exige não se deixar iludir, fazer uma análise lúcida dele. O conhecimento e a crítica do neoliberalismo são indispensáveis. A esquerda radical e alternativa não pode contentar-se com denúncias e slogans, muitas vezes confusos, parciais ou atemporais. Assim, é errado dizer que estamos lidando com o ‘capitalismo’, sempre igual a ele mesmo, e com suas contradições, que inevitavelmente levariam à ruína final. Eficácia política pressupõe uma análise precisa, documentada, circunstanciada e atualizada da situação”. Segundo os autores, o capitalismo “é indissociável da história de suas metamorfoses, de seus descarrilhamentos, das lutas que o transformam, das estratégias que o renovam. O neoliberalismo transformou profundamente o capitalismo, transformando profundamente as sociedades. Nesse sentido, o neoliberalismo não é apenas uma ideologia, um tipo de política econômica. É um sistema normativo que ampliou sua influência ao mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a todas as relações sociais e a todas as esferas da vida”. Com o neoliberalismo, eles analisam, o capitalismo “não parece mais capaz de encontrar compensações, contrapartidas, compromissos. A maneira como a crise de 2008 foi provisoriamente superada, com uma inundação de moeda especulativa emitida pelos bancos centrais, mostra que a lógica neoliberal escapa de maneira extraordinariamente perigosa”. Por isso, compreender politicamente o neoliberalismo “pressupõe que se compreenda a natureza do projeto social e político que ele representa e promove desde os anos 1930. Ele traz em si uma ideia muito particular da democracia, que, sob muitos aspectos, deriva de um antidemocratismo: o direito privado deveria ser isentado de qualquer deliberação e qualquer controle, mesmo sob a forma do sufrágio universal”. O sistema neoliberal, pontuam os autores, “está nos fazendo entrar na era pós-democrática”.

O estudo do caráter sistêmico da racionalidade neoliberal permite analisar a corrosão interna da própria dimensão pública e democrática dos Estados nacionais, à direita e à esquerda no espectro político. O sistema neoliberal opera uma desativação do jogo democrático, introduz formas sem precedentes de sujeição que constituem, para os que a contestam, um desafio político e intelectual inédito. “Combatê-la exige não se deixar iludir, fazer uma análise lúcida dele. O conhecimento e a crítica do neoliberalismo são indispensáveis”, sustentam os autores, para quem somente a compreensão dessa racionalidade permitirá que se oponha a ela uma verdadeira resistência e que se inaugure, novamente, uma outra razão do mundo. A esquerda, Dardot e Laval dizem, “somente poderá tirar partido disso se souber remediar a pane de imaginação que vem sofrendo”.

Christian Laval é docente de Sociologia na Université Paris Ouest Nanterre La Défense. Tem diversos livros publicados sobre utilitarismo e liberalismo, notadamente investigações genealógicas da emergência ocidental da normatividade fundada no princípio do interesse, além de estudos sobre Marx, história da sociologia clássica, transformação dos sistemas educativos, dentre outros temas. Seus trabalhos mais recentes, realizados com Pierre Dardot, se inscrevem em um programa de pesquisa sobre a racionalidade neoliberal e a problematização política do “comum”.

Os trabalhos de Laval e Dardot vêm ganhando cada vez mais repercussão. A perspectiva interdisciplinar de seus estudos e a amplitude dos temas analisados convergem e têm colaborado com os debates sobre a natureza política e o processo histórico subjacente às crises estruturais do capitalismo, reunidas e indexadas, de acordo com seu programa de investigação, como parte da realidade normativa da racionalidade neoliberal. Ao contrário das correntes teóricas predominantes hegemonicamente, a perspectiva adotada não resume o neoliberalismo à sua expressão propriamente econômica e, tampouco, envolve um simples retorno ao liberalismo clássico. Compreendido como uma racionalidade política, o neoliberalismo passa a ser investigado no registro das condutas individuais e coletivas, na dinâmica organizacional das instituições e na própria esfera regulatória do Estado. Sua prerrogativa diria respeito à disseminação da norma concorrencial para contextos, situações e comportamentos que não têm origem e nem se vinculam diretamente ao mercado.

 A nova razão do mundo foi traduzido para o portguês por Mariana Echalar e publicado pela editora Boitempo.

 

Em tempo:

Nos dias 11 a 14 de abril de 2016, no prédio das Ciências Sociais e Filosofia – FFLCH/USP, será realizado o Seminário “Neoliberalismo e a razão do comum: história, dispositivos e crítica”, com Christian Laval.

O Seminário é iniciativa conjunta dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia, em Filosofia e em Ciência Política da FFLCH/USP e visa fomentar o debate sobre as racionalidades políticas contemporâneas, em especial o exame crítico da vertente hegemônica neoliberal. Pouco desenvolvida pelas filosofia e ciências sociais brasileiras, essa abordagem teórica do neoliberalismo tem permitido, nos circuitos internacionais de pesquisa, a agregação de diferentes áreas disciplinares e a análise de distintas configurações histórico-sociais. O Seminário pretende problematizar a atualidade política do neoliberalismo à luz do confronto com outras racionalidades, objeto dos últimos livros de Christian Laval, realizados em parceria com Pierre Dardot: “La Nouvelle Raison du Monde” (2009), “Marx: Prénom, Karl” (2012) e “Commun” (2014).

 

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 Trecho:

“O grande erro cometido por aqueles que anunciam a “morte do liberalismo” é confundir a representação ideológica que acompanha a implantação das políticas neoliberais com a normatividade prática que caracteriza propriamente o neoliberalismo. Por isso, o relativo descrédito que atinge hoje a ideologia do laissez-faire não impede de forma alguma que o neoliberalismo predomine mais do que nunca enquanto sistema normativo dotado de certa eficiência, isto é, capaz de orientar internamente a prática efetiva dos governos, das empresas e, para além deles, de milhões de pessoas que não têm necessariamente consciência disso. Porque este é o ponto principal da questão: como é que, apesar das consequências catastróficas a que nos conduziram as políticas neoliberais, essas políticas são cada vez mais ativas, a ponto de afundar os Estados e as sociedades em crises políticas e retrocessos sociais cada vez mais graves?”

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christian laval

 

A NOVA RAZÃO DO MUNDO

Autores: Christian Laval e Pierre Dardot
Editora: Boitempo
Preço: R$ 51,10 (416 págs.)

 

 

 

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* Programação do Seminário “Neoliberalismo e a razão do comum: história, dispositivos e crítica”, com Christian Laval (Univ. Paris X)

 

11 de abril. (16:00. Sala 118)

“As raízes históricas do neoliberalismo ou o nascimento do homem econômico”

– debatedor: Jean Tible (Ciência Política/USP)

 

12 de abril. (15:00. Sala 14)

“Neoliberalismo, uma lógica normativa universal”

– debatedor: Paulo Arantes (Filosofia/USP)

 

13 de abril. (19:30. Auditório 8)

“O comum: história longa e emergência contemporânea”

– debatedor: Ruy Fausto (Filosofia/USP)

 

14 de abril. (19:30. Auditório 24)

“Neoliberalismo e o comum, duas razões do mundo em luta”

– debatedora: Vera Telles (Sociologia/USP)

 

 

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