Literatura

A exposição luminosa do lodo não é retórica

18 agosto, 2016 | Por Isabela Gaglianone

gravura de Gustave Doré [1832-1883], ilustração para o “Paraíso perdido”, de Milton.

Vencedor do Prêmio Rio de Literatura, o romance Anatomia do paraíso traz a lume mais uma vez a singular expressividade literária da escritora Beatriz Bracher, através de uma narrativa densa e profunda.

O romance acompanha a história de um jovem estudante de classe média que escreve uma dissertação de mestrado sobre o Paraíso perdido (1667), poema épico de John Milton que narra a queda do homem e a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Sua história, porém, desdobra-se em simultâneos planos, que se encontram, imbricam-se, ressoam-se, amalgamando em si a articulação de suas reflexões sobre a obra de Milton, de sua observação da dura vida de sua vizinha Vanda, que se divide entre trabalho, estudo e os cuidados com a irmã mais nova, de sua percepção do delicado processo de amadurecimento desta última.

A narrativa, por vezes vertiginosa, é dramática na medida em que as trajetórias dos personagens cruzam-se com os temas do Paraíso perdido – sexo, violência, pecado, culpa, traição, morte e redenção.

Para o crítico Luis Augusto Fischer, em resenha escrita para o jornal Folha de S. Paulo: “Tudo tem força no mais novo romance de Beatriz Bracher. Personagens, enredo, linguagem, construção narrativa, cenas, notação de tempo e de espaço, tudo é denso, nada está ali apenas por estar – e essa sensação da necessidade de cada item contribuiu para o ótimo efeito geral”. Segundo o crítico, Beatriz Bracher “apresenta uma narrativa de certa ousadia, em parte pelo aspecto compósito e erudito, em parte maior ainda pela precisão – analítica e fria no enunciado, humanamente empenhada no efeito – e pela coragem com que faz seus personagens viverem cenas duras, corriqueiras em sua brutalidade e crueza, pasto da violência que não sabemos ver, mas que o romance ilumina com nitidez”. Uma das fontes da força da narrativa, é a violenta espontaneidade do brutal, a fria anomia que se mantém mesmo diante de um crime, de um abuso sexual, como comenta Fischer: “Abuso sexual: esta é uma das matérias-primas centrais do romance. Muito mais do que a presença ostensiva (e alguma vez artificiosa) dos versos de Milton, é de mulheres abusadas que trata o romance”.

Em entrevista concedida ao jornal O Globo, Beatriz Bracher disse: “Queria que o estudante misturasse o poema com a vida, não conseguisse sair dele. O fato do Félix estudar o ‘Paraíso perdido’ fez toda a diferença. Aí eu que eu entendi que a questão que queria tratar era o homem e a mulher. No começo, me pareceu que a escolha de Milton tinha sido por acaso”. À narrativa, Bracher intercala extensos fragmentos do poema. Ainda na mesma entrevista, ela aponta que o espelhamento entre a narrativa ficcional das personagens e os trechos do poema protagonizados por Deus, Satanás e Adão, mostra que o mito cristão forja o próprio mundo em que vivemos: “A questão da construção dos gêneros é muito mais profunda do que simplesmente o homem oprime a mulher e ponto. O homem é oprimido pela sua opressão também. Ele é tão pouco dono de si como a mulher. O fato da nossa história ter colocado ele nessa posição de subjugar a mulher não deu ao homem liberdade. Isso tudo está no Milton de certa maneira. Não se trata de atualizar, está lá”.

Em outra entrevista, publicada pela revista virtual Brasileiros, a autora contou como desenvolveu a ideia de utilizar Paraíso perdido como fio de reflexão da narrativa: “A minha ideia era fazer um livro em que a relação de um rapaz com a literatura fosse algo tão intenso, erótico e amoroso quanto a relação dele com a vida. Eu já tinha lido o Paraíso perdido e não era especialmente encantada pelo livro, mas fiquei muito impressionada com a descrição das sensações e do lado físico, de como os anjos são musculosos e usam capacetes e lanças, de como o corpo de Eva é coberto pelas tranças e bonito, de como você cheira o inferno e sente a terra… eu achei curioso, porque a mitologia do nascimento, de onde viemos, Adão e Eva, é um dos temas mais espirituais, e o Milton o expõe de forma tão carnal! Achei legal que fosse esse livro que o Félix estivesse querendo analisar e, na verdade, viver – ele vai vivendo o livro, né? E entendi também que era um livro sobre a construção da ideia de mulher e da ideia de homem”. Na mesma entrevista, ela conta que o diálogo com outros autores faz parte de sua literatura como um todo: “não só como citação, mas, exagerando, ‘como carne’, algo que não está só para exemplificar ou ilustrar ou ajudar um pensamento, é o pensamento em si mesmo daquela pessoa. Porque tem um pouco de colagem, né? Tanto nesse livro quanto nos outros sempre tem essa coisa de misturar outros autores, às vezes os personagens são colagens também. […] Eu penso se os livros que faço não são um pouco uma colagem de épocas diversas, de literatura de épocas diversas. Mas de jeito nenhum sinto que ela chega vazia. Porque realmente, como todas as escolas me tocam, acho que eu faço como se fosse uma colagem modernista, um ‘pós-modernismo moderno’. Para mim, por exemplo, o Barroco diz muito, assim como o Modernismo ou o Concretismo são coisas que me tocam, me emocionam. Talvez também exista aí uma desambição que é boa. Não há nenhuma ambição revolucionária na forma, sendo que muitas formas diferentes estão acontecendo”.

Em Anatomia do paraíso, portanto, Bracher desenvolve uma reflexão rica e interessante, sobre a literatura, sobre a profundidade da simbologia religiosa que encontra-se nas raízes de nossas concepções de gênero e, consequentemente, das complexas relações de opressão e violência que as rodeiam.

 

 

 

ANATOMIA DO PARAÍSO

Autor: Beatriz Bracher
Editora: 34
Preço: R$ 38,50 (328 págs.)

 

 

 

 

 

 

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.nota.

O título é uma alusão ao discurso de agradecimento da autora quando do recebimento do Prêmio Rio Literatura, no início de julho deste ano. Disse Bracher:

“A militância feminista, como qualquer militância, tem a urgência de objetivos precisos. Para alcançá-los, as palavras devem ser duras, a ambiguidade abolida, a diferença entre o nós e os outros definida com clareza. Omite-se e exagera-se, há o tempo para se falar isso e não aquilo. O compromisso não é com a busca da verdade, mas com a justiça. Por isso a profundidade e a dúvida precisam ser evitadas, ou usadas apenas como instrumentos de retórica.

A ficção é outra coisa. Nos perdemos, o rumo é incerto, palavras erradas, o fundo nunca é suficientemente fundo para esconder o gozo com a dor alheia, inclusive de crianças. A exposição luminosa do lodo não é retórica, não prova nada, o sexo do homem e da mulher, da adolescente e da menina é confuso, autoritário, medroso, inocente, sem paciência, exuberante. No final de o Paraíso perdido, poema reafirmador da origem mítica de nosso machismo, mulher e homem dão-se as mãos e, com passos incertos e solitários, seguem juntos por um novo caminho.

O respeito por nossas lutas necessárias tornava medíocre a minha história”.

divulgado pelo site da editora 34.

 

 

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