Artes Plásticas

Um livro que dança

18 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“[…] A vontade domina. Seu traço nunca está suficientemente perto do que ele quer. Não alcança nem a eloquência, nem a poesia da pintura; busca apenas a verdade no estilo e o estilo na verdade. Sua arte se compara à dos moralistas: uma prosa das mais límpidas que encerra ou articula com intensidade uma observação nova e verdadeira” – Paul Valéry, sobre Degas.

Degas dança desenho. Paul Valéry não enumerou com vírgulas as três palavras que dão título ao pequeno livro que dedicou ao caro amigo e pintor, Edgar Degas. Não o fez, para não distinguí-las em hierarquias categoriais sequenciadas em termos de relevância: o desenho dança em Degas, a dança desenha-se na maneira como ele vê as formas e as capta, ligeiramente fora de proporção, Degas dança o desenho; e no desenho Valéry encontra um conceito amplo, que abarca uma visão de época, uma visão de mundo e uma mediação entre o artista e essas duas visões. Mediação feita à maneira de uma tradução, de matriz hermenêutica: o desenho, livre enquanto dança, estruturador enquanto arte, é a própria arquitetura da imagem enquanto retórica da imaginação em relação à razão: através dele, a noção torna-se substância.

 

“Como acontece que um leitor um pouco distraído rabisque nas margens de uma obra e produza, ao sabor do alheamento ou do lápis, pequenos seres ou vagas ramagens, ao lado das massas legíveis, assim farei, segundo o capricho da mente, em torno desses poucos estudos de Edgar Degas. Acompanharei essas imagens com um pouco de texto que seja possível não ler, ou ler de uma única vez, e que tenha com esses desenhos não mais que uma ligação frouxa e as relações menos estreitas”. 

Valéry alerta seu leitor logo no princípio do livro, não pretende fazer um estudo sistemático, nem da dança, nem do desenho, nem do próprio Degas. Apenas permite-se livre para anotar, conforme lhe surgem, alguns apontamentos: “O que me importa em um homem não são os acidentes, nem seu nascimento, nem seus amores, nem suas tristezas, nem quase nada do que é observável pode me servir”. O próprio livro dança, em movimentos intelectuais complexos que, contudo, não buscam deslocar-se a um ponto definido. Valéry capta fragmentos, escolhas poéticas, que guardam o que ele chama de “tempo da ressonância” e exprimem os ornamentos da extensão e da duração. Sua prosa desdobra literariamente aquilo que Degas dizia em relação ao desenho: “O desenho não é a forma, é a maneira como se vê a forma”. Com esse desdobramento, é possível encontrar uma linguagem, a obra como uma construção de sentido, dotada de caráter hermenêutico.

“Dizer que são coisas informes não é dizer que não tem formas, mas que suas formas não encontram em nós nada que permita substituí-las por um ato de traçado ou reconhecimento nítido. E de fato, as formas informes não deixam outra lembrança senão a de uma possibilidade”.

Ver a forma, inclusive no que tem de amorfa. A visão constrói o sentido. “Há uma imensa diferença entre ver uma coisa sem o lápis na mão e vê-la desenhando-a”. O informe obriga a construção da visão. “Trata-se, portanto, de tornar inteligível certa estrutura de um objeto que não tem nenhuma estrutura determinada, e do qual não há clichê nem lembrança que permita dirigir o trabalho”. E Valéry acrescenta, interpenetrando a poesia e a arte do desenho:

“Esse exercício pelo informe ensina, entre outras coisas, a não confundir o que se acredita ver com o que se vê. Há uma espécie de construção na visão, de que somos dispensados pelo hábito. Adivinhamos, ou prevemos, em geral, mais do que vemos, e as impressões do olho são para nós signos, e não presenças singulares, anteriores a todos os arranjos, resumos, escorços, substituições imediatas que a educação elementar nos inculcou.

Assim como o pensador tenta se defender das palavras e das expressões prontas que dispensam os espíritos de se surpreender com tudo e tornam possível a vida prática, do mesmo modo o artista pode, pelo estudo das coisas informes, isto é, de forma singular, tentar encontrar sua própria singularidade e o estado primitivo e original da coordenação de seu olho, de sua mão, dos objetos e de seu querer”.   

Essa aproximação sugere, não só entendido no sentido artístico mas como metáfora mais abrangente de estruturação do pensamento e atribuição designadora do sentido, o caráter hermenêutico, pois interpretativo, do desenho: um conhecimento refletido, que o desenho, enquanto conceito ambivalente, resume. O desenho de Degas era sua interpretação do mundo – e interpretativo, não somente no óbvio sentido figurativo, mas principalmente enquanto trabalho que reflete uma relação profunda com a história.

O efeito imagético amalgama-se ao procedimento semântico, de maneira lírica, atribuindo-lhe um modo de discurso. E o entrelaçamento das duas perspectivas, as obras de Degas e as reflexões que elas suscitam a Valéry, cria uma composição sobre a qual desenvolve-se a relação rica entre a construção e articulação da linguagem, quer enquanto pensamento, enquanto intencionalidade, ou arte. E aprofunda a ambivalência do desenho enquanto, também, desígnio ou estrutura. O filósofo Shaftesbury, moralista inglês do século XVIII, desenvolveu a noção de desenho, compreendendo-o em sua duplicidade semântica – em inglês, o vocábulo design é ainda mais claramente ambíguo – como possibilidade de articulação das formas. Através do desenvolvimento do conceito de desenho designante, ele procurou redefinir a própria atividade filosófica, aproximando-a da atividade artística – do poeta, do pintor. Como define o comentador Pedro Paulo Pimenta, o “desenho indica portanto, mesmo numa acepção vaga, uma intenção: executar um projeto, um plano que redunde numa composição, numa construção, numa obra. Enquanto desígnio, o desenho é a ponte entre concepção e execução” (p. 161). O desenho permite que o artista coloque-se diante de seus predecessores, sua criação não é exatamente idêntica à forma que copia, mas uma forma autêntica e original. Segundo Pimenta, “o ‘design’ é uma ‘ideia’, uma ‘concepção’, mas não no sentido de ‘esboço’ ou ‘rascunho’, porque o que se encontra concebido já é uma obra inteira” (p. 39).

O argumento shftesburyano não tanto define o conceito de desenho, mas incorpora na filosofia uma linguagem das formas. Assim, constrói uma ideia de linguagem da arte, que soa no refinamento da execução tanto de Degas quanto de Valéry. Há, nesta leitura, uma intensificação da ressonância das palavras e dos sentidos, polissemia que o desenho, tanto metaforica como literalmente, articula – entroncamento de linguagem e arte.

“As coisas nos olham. O mundo visível é um excitante perpétuo: tudo desperta ou alimenta o instinto de se apropriar da figura ou do modelado da coisa que o olhar constrói.

Ou então o desejo de formar mais minuciosamente a imagem esboçada na mente faz pegar o lápis, e eis que tem início uma estranha partida, às vezes furiosamente conduzida, na estranha partida, às vezes furiosamente conduzida, na qual esse desejo, o acaso, as recordações, a ciência e as facilidades desiguais que se encontram na mão, na ideia e no instrumento se combinam, realizam trocas cujos traços, sombras, formas, aparências de seres e lugares – a obra, enfim – são os efeitos mais ou menos felizes, mais ou menos previstos…

Ocorre que esse desenho de invenção inebrie o executante, torne-se uma ação furiosa que devora a si própria, alimenta-se, acelera-se, exaspera-se consigo mesma, um movimento de arrebatamento que se precipita para seu gozo, para a posse do que se quer ver”.   

 

 

 

DEGAS DANÇA DESENHO

Autor: Paul Valéry
Editora: Cosacnaify
Preço: R$ 16,73 (192 págs.)

 

 

 

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