Literatura

O baile de Lygia

7 Março, 2016 | Por Isabela Gaglianone

“Era o círculo eterno sem começo nem fim. […] A perplexidade do moço diante de certas considerações tão ingênuas, a mesma perplexidade que um dia senti. Depois, com o passar do tempo, a metamorfose na maquinazinha social azeitada pelo hábito: hábito de rir sem vontade, de chorar sem vontade, de falar sem vontade, de fazer amor sem vontade… O homem adaptável, ideal. Quanto mais for se apoltronando, mais há de convir aos outros, tão cômodo, tão portátil”

– trecho de “Eu era mudo e só” [Telles, Antes do baile verde]

 

Renina Katz

Reunião de narrativas escritas entre 1949 e 1969, publicada em originalmente em 1970, Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles, é uma das obras mais marcantes da carreira da autora, pontuada por uma sensibilidade singular.

As situações narradas são as mais variadas. No conto “A caçada”, um homem, a tal ponto intrigado com uma velha tapeçaria que encontra em um antiquário, acaba por imiscuir-se à cena retratada na peça, como se tivesse já participado dela, em outra vida ou dimensão. Há uma macabra homenagem a Egdar Allan Poe, “Venha ver o Pôr-do-Sol”, em que um rapaz leva sua ex-namorada ao jazigo da família. Por entre conflitos amorosos passam os contos “Apenas um Saxofone”, “Um Chá bem Forte e Três Xícaras”, “O Jardim Selvagem” e “As Pérolas”. “O Menino” desvela uma infidelidade conjugal pelos olhos de um garoto que vai ao cinema com a mãe, portanto observada de modo oblíquo. O conto “Natal na Barca” é uma pequena parábola, com final epifânico. “Meia-noite em Ponto em Xangai” é o balanço que uma prima-dona da ópera faz de sua vida solitária e vazia. Em “O moço do Saxofone” um motorista de caminhão hesita em ir para a cama com uma mulher casada em uma pensão de beira de estrada. Em “A Janela”, um louco visita um bordel dizendo que é a casa onde seu filho morreu.

Lygia mostra aqui sua prosa segura e elegante, alternando com desenvoltura gêneros e vozes narrativas, atingindo uma profundidade humana e literária. É marcante também, num momento de agudo mal-estar social em meio ao quadro de choque entre valores patriarcais e a emergência do feminino, sua abordagem do tema da impotência da mulher.

Segundo Paulo Rónai: “Essas pequenas obras-primas, de tão fremente inquietação íntima e que exalam um desespero tão profundo, ganham a clássica serenidade das formas de arte definitivas”. Para o crítico Antonio Candido, “Lygia Fagundes Telles sempre teve o alto mérito de obter, no romance e no conto, a limpidez adequada a uma visão que penetra e revela, sem recurso a qualquer truque ou traço carregado, na linguagem ou na caracterização”.  

Parte interessante da construção das narrativas é a escolha da autora quanto ao tipo de narrador, quando ao foco narrativo. Seus narradores prolongam os breves momento de amálgama entre ficção e realidade e sugerem, com sutileza e precisão, sua visualização. Junto a isso, seus diálogos, cuidadosamente esculpidos e marcadas por finais muitas vezes deixados em aberto. Diálogos vívidos, elípticos, marcados por oralidade e coloquialismo.

Um dos contos marcantes é “O Menino”, história de minúcias sobrepostas e interpenetradas. Um menino vai ao cinema com a mãe, uma situação segura e simples; porém o protagonista passa de criança a adulto em segundos, em meio à enorme confusão emocional que experimenta ao presenciar sinais do adultério da mãe, exatamente no conforto da sala de projeções. O menino percebe “a mão pequena e branca, muito branca”, de sua mãe, repousar “devagarinho nos joelhos do homem que acabara de chegar”. Revelação brutal, que quebra simultaneamente a confiança do filho com a mãe e sua inocência; ao retornarem para casa, o menino encontra-se com sua “feio e bom” pai.

Para Mabel Knust Pedra, doutora em literatura comparada pela UFF, conforme diz no artigo “Sombra silenciosa – Impotência e solidão em dois contos de Lygia Fagundes Telles”: “Os conflitos que se encerram e se desdobram, recorrentes, nos contos e romances de Lygia Fagundes Telles, prenunciam uma desestruturação maior que vai se instaurar a partir de meados do século XX e que perdura até hoje, revelando as profundas crises de identidade que marcam os sujeitos individuais e sociais. No contexto de crise de uma ordem burguesa patriarcal, Lygia capta, registra e representa o drama da construção social da mulher como sujeito e o duplo conflito que daí advém e que a divide: o desencontro entre o desejo de construir uma identidade que a defina como sujeito íntegro e a superação das limitações sociais impostas pelos papéis de gênero. A angústia e o sentimento de desamparo do sujeito moderno que a escritora põe em cena – insistentemente desenhado na sua dimensão mais desolada e patética – compõem a idéia de solidão que percorre toda a obra e lhe dá unidade. A questão da impotência e da solidão é aprofundada pela condição feminina: nos textos que vamos analisar, fixa-se a angústia da mulher dividida entre as tarefas que lhe são impostas pela sociedade e pelas instituições e a sua necessidade de autodeterminação”.

Lygia, no início do mês de fevereiro, foi indicada ao prêmio Nobel de Literatura 2016. A autora é a primeira mulher brasileira a receber a indicação. As poucas indicações femininas para o importante prêmio literário são reflexo do pouco espaço que a mulher pouco a pouco angaria para si nas ainda ditas profissões masculinas. Sobre isso, em entrevista, concedida à Revista Brasileira de Psicanálise, Lygia diz:

Na opinião do pensador Norberto Bobbio, a mais importante revolução do século XX foi a Revolução da Mulher que começou na Segunda Guerra Mundial, quando os homens válidos foram lutar e as mulheres foram ocupando os espaços nas fábricas, nos escritórios, nas universidades… Mostrando competência elas começaram a batalhar fora do lar e assim a verdadeira revolução foi se desenvolvendo com alguns exageros, é claro – os exageros fazem parte das revoluções. Pois a minha geração foi pioneira desse avanço, entrei para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco no ano de 1941, sim, Segunda Guerra Mundial. Éramos cinco ou seis mocinhas na turma de quase duzentos rapazes e que nos perguntavam com irônico espanto, “Mas o que vocês vieram fazer aqui? Casar?” No mesmo tom bem-humorado eu respondi: “Casar também, por que não?” Nessa época eu já escrevia os meus contos, outro ofício considerado masculino. Confesso que esse começo foi difícil, era um desafio. Estavam na moda as poetisas, aquelas declamadoras que brilhavam nos salões, mas escrever um livro com a liberdade de abordar todos os temas, ah! isso era outra coisa. Sim, foi um duro desafio porque o preconceito era antigo e profundo. Enfim, eu sabia que na opinião de Trotsky os que vão logo na primeira fila são os que levam no peito as primeiras rajadas. A solução era assumir a luta, sair da condição de mulher-goiabada…”

Para explicar a divertida expressão, ela arremata: É a mulher caseira, antiga “rainha do lar” que sabe fazer a melhor goiabada no tacho de cobre. A minha mãe, uma excelente pianista, não prosseguiu na carreira que começou na adolescência porque estava dentro da mentalidade preconceituosa de seu tempo e também minha avó, minhas tias lá longe… Mulheres sem condições de ousar a profissão, sem coragem de atender ao chamado, vocare em latim. A vocação, a paixão. Eu me lembro, era menina quando ia com a cesta para colher goiabas no quintal da nossa casa lá em Sertãozinho e onde meu pai era promotor. Minha mãe seria mais feliz se fosse pianista? E se ela continuasse estudando e compondo naquele antigo piano preto com os quatro castiçais, hein? Mas esta seria uma extravagância, uma ousadia e em vez de abrir o álbum de Chopin ela abria o caderno de receitas”.

Estudada pelos melhores críticos da literatura brasileira e traduzida para várias línguas, Lygia Fagundes Telles alterna romance e conto. O segundo, gênero em que atingiu notável refinamento, para ela é “uma forma arrebatadora de sedução”; nele, diz, é preciso “seduzir o leitor em tempo mínimo”.

Lygia foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985 e recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa, em 2005.

Seu sucesso literário intrenacional veio justamente com os contos de Antes do baile verde, de 1970, livro vencedor do Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, na França.

A Companhia das Letras disponibiliza um trecho para leitura.

 

Nota.

Nesta quarta-feira, dia 09/03, o espaço Tapera Taperá receberá o grupo de leiturasLeia mulheres”.

O encontro é parte do Circuito Mulheres Mobilizadas SP, e propõe-se a ler e discutir contos de Antes do baile verde. A roda acontecerá a partir das 19h30.

 

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“Para que serve uma adaga fora do peito?”

– de “Os objetos”, conto de Antes do baile verde.

 

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ANTES DO BAILE VERDE

Autor: Lygia Fagundes Telles
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 26,70 (208 págs.)
 

 

 

 

 

 

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