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Pela supressão dos partidos políticos

20 janeiro, 2017 | Por Isabela Gaglianone

“O fim primeiro (e, em última análise, único) de todo partido político é seu próprio crescimento, sem limite” – Simone Weil.

O célebre ensaio de Simone Weil, uma das pensadoras mais audazes e originais do século XX, Pela supressão dos partidos políticos, foi publicado no Brasil no ano passado pela editora Âyine – italiana recém radicada no Brasil – , com tradução de Lucas Neves.

“Um partido político é uma máquina de fabricar paixão coletiva. Um partido político é uma organização construída de modo a exercer uma pressão coletiva sobre cada um dos seres humanos que são membros dele”, diz Weil, para quem todos os partidos, sem exceção, devem ser suprimidos. Enquanto organizações hierárquicas e rígidas, são por definição autoritários e repressivos e mostram, em sua maioria, um desrespeito absoluto pela res publica, além de um talento indescritível para roubar dinheiro público.

Simone Weil nasceu em Paris em 1909, no seio de uma família de judeus não-praticantes, formou-se em filosofia na École Normale Supérieure. Em 1934, para falar com conhecimento de causa sobre a condição operária, trabalhou em fábricas metalúrgicas parisienses. Partiu, em 1936, para Espanha, onde participou ao lado dos republicanos na Guerra Civil. Weil foi colaboradora em jornais ligados à Resistência até 1942, ano em que deixou a França e partiu para Nova Iorque com seus pais, foragidos do extermínio nazista. Mudou-se, depois, para Londres, onde deu continuidade à sua intensa luta contra o nazismo. Foi ali que morreu, em 1943, com apenas 34 anos.

Trata-se de um questionamento pungente sobre a dinâmica do poder e da propaganda dos partidos, que aponta para a crescente substituição da verdade pela opinião. Os partidos políticos, em sua veemente força de produzir paixões coletivas sobre o pensamento individual, segundo Weil, visariam, senão, seu próprio crescimento.

Segundo analisa o historiador Miguel Ángel Suárez Escobio, em sua tese de mestrado, “A revolução como teodicéia. Simone Weil e a persistência da opressão“, defendida na UFF em 2012: “Naturalmente, sua iconoclastia inflamou a franca cólera de todos aqueles que se reservavam a si mesmos um lugar de privilegio no grande livro da história. De Gaulle disse que estava louca; o médico que certificou seu falecimento afirmou que em seu último suspiro Simone Weil se encontrava com as ‘faculdades mentais transtornadas’; Trotsky, aplicando-lhe rigorosamente o catálogo de ultrajes reservado aos que se tinham afastado demais da conta da verdade, sentenciou que seus escritos eram próprios de ‘anarquista barata’ saturada de mentalidade ‘pequeno-burguesa’”. Sobre o embate com Trotsky, conta o pesquisador que, em 1933, Weil é nomeada professora no Liceu de Roanne e, no mês seguinte, “publica na La Critique Social, revista fundada por comunistas dissidentes, um pequeno artigo, cálido e elogioso, sobre as cartas do cárcere de Rosa Luxemburg. Igualmente, publica outro texto muito menos amável sobre as fatuidades filosóficas de Lênin em ‘Materialismo e Empiriocriticismo’. Contudo, será a publicação de ‘Réflexions sur la guerre’ a que mais indignação levante nas fileiras comunistas, já que afirmava, entre outras coisas, não só a existência de um elo contínuo e evidente entre Lênin e Stalin, mas o caráter nitidamente totalitário das premissas teóricas do primeiro. Um mês mais tarde, Trotsky, hospedado no domicílio familiar dos Weil, tem um ruidosa briga com Simone: ‘À elle et à sés semblables il faudrait de nombreuses anées pour se libérer des préjugés petits-bourgeois lês plus réactionnaires’”.

De acordo com Escobio, já em agosto desse ano havia aparecido em La Révolution Prolétarienne seu estupendo “Perspectives. Allons-nous vers la révolution proletarienne?”, artigo em que denunciava, nas palavras do historiador: “a notável mistificação teórica desatada em torno da natureza do Estado soviético. Para Simone era evidente a inutilidade de tal debate já que era impossível identificar aquelas mirabolantes instituições ‘que deviam garantir o governo’ esperando o momento em que ‘cada cozinheira aprenderia a governar o Estado’, e em seu lugar tinha se instalado ‘uma burocracia permanente, irresponsável, recrutada por cooptação, e possuindo, pela concentração em suas mãos de todos os poderes econômicos e políticos, um poder até então desconhecido na história’. E acrescentava posteriormente:

‘A própria novidade de tal regime torna-o difícil de analisar. Trotsky insiste em dizer que se trata de uma ‘ditadura do proletariado’ de um ‘Estado operário’, embora com ‘deformações burocráticas’, e que, concernindo à necessidade, para tal regime, de estender-se ou perecer, Lênin e ele não se enganaram senão nos prazos. Mas quando um erro de quantidade atinge tais proporções, é possível acreditar que se trata de um erro referente à qualidade, ou, em outras palavras, à própria natureza do regime cujas condições de existência se quer definir. De outro lado, chamar um Estado de ‘Estado operário’ quando por isso se explica que cada operário nele está incluído, econômica e politicamente, completamente à mercê de uma casta burocrática, isso parece piada de mau gosto. Quanto às ‘deformações’, esse termo – singularmente mal escolhido concernindo a um Estado do qual todas as características são exatamente opostas daquelas que comporta teoricamente um Estado operário – parece implicar que o regime stalinista seria uma espécie de anomalia ou de doença da Revolução Russa” [citação de WEIL, Simone. “Perspectives. Allons-Nous vers la Révolution Prolétarienne”, in: Oeuvres. Paris: Gallimard, 1999, p. 254].

 

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[trecho]

 

“Os partidos mais inconsistentes e os mais estritamente organizados são iguais na vagueza da doutrina. Nenhum homem, por mais que tivesse feito um estudo profundo da política, seria capaz de fazer uma explanação clara e precisa sobre a doutrina de qualquer partido – incluindo, se fosse o caso, o seu”.

 

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PELA SUPRESSÃO DOS PARTIDOS POLÍTICOS

Autor: Simone Weil
Editora: Âyine
Preço: R$ 29,00 (107 págs.)

 

 

 

 

 

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