Literatura

“Deus é, era, gago”

11 agosto, 2014 | Por Isabela Gaglianone

pintura de Honoré Daumier

Glória, romance de Victor Heringer, mistura humor e ironia para narrar a saga da família Costa e Oliveira e as aventuras e desventuras dos irmãos Abel, Daniel e Benjamim, respectivamente um pastor, um burguês e um artista, que, após a morte do pai, guardam como sua herança nada mais que a prontidão a nunca perder uma piada. O livro, finalista do Prêmio Jabuti no ano passado, traça uma ponte entre os séculos XIX e XXI, criando uma (meta)ficção que vai de referências a Machado de Assis a questões inerentes à internet, passando pelo café Aleph e suas figuras virtuais. O autor é hábil no uso, com uma prosa fluente, de um amplo repertório de recursos estilísticos aliado a um leque de referências literárias.

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matraca

Palavras de carne e com asas

8 agosto, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Brueghel, “Paisagem com a queda de Ícaro”

Os poemas de Ana Luisa Amaral reunidos sob o título Vozes versam, também, sobre os silêncios. Em sua lírica, estes são opostos cuja recíproca implicação une-os na própria plenitude daquilo que de mais verdadeiramente paradoxal há nesta união: sua poesia alcança o que há de mais íntimo na natureza humana em sua existência como ser em um mundo concreto e real.

Fala com Ícaro, mas pressente o chão quando, na verdade, dialoga com Brueghel; seu poema teria pregas servindo como vestido ao corpo da prosódia; “escrevia / de beijos que não tinha / e cebolas em quase perfeição”; encontra o avesso das palavras.

Uma das maiores poetas contemporâneas de Portugal, Ana Luísa Amaral já recebeu alguns prêmios importantes, dentro e fora do seu país, como o Prêmio de Poesia António Gedeão, recebido em 2011 pelo livro VozesContinue lendo

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Literatura

Narrativa profunda, poética densa

7 agosto, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Sim, claro, se amanhã fizer bom tempo.”

Fotografia de Jean Guichard

Ao farol, de Virginia Woolf, é uma transcriação artística das experiências vividas pela escritora na casa de praia de sua família, na baía St. Ives, na Cornualha, Inglaterra, de onde ela podia avistar o farol da ilha de Godrevy. No romance, através das personagens Sr. e Sra. Ramsay, ela problematiza, desloca e formula sua relação com seu pai, Leslie Stephen, um “espartano, ascético, puritano”, e com sua amada e belíssima mãe, Julia Stephen que morreu quando Virginia Woolf tinha apenas treze anos – tragédia pessoal que desencadeou então o primeiro dos colapsos nervosos que atormentariam a escritora ao longo de toda sua vida. A própria Virginia ganha vida no livro como a pintora Lily Briscoe, que passa as férias de verão na Ilha de Skye, na Escócia, ao invés de St Ives. Sua memória, porém, é apenas a matéria bruta, que a autora esculpe para dar forma a este magnífico romance.

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matraca

Música epistolar

6 agosto, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Igor Stravinsky e Jocy de Oliveira

A pianista e compositora Jocy de Oliveira lança hoje em São Paulo seu livro Diálogos com cartas, composto por um conjunto de cento e doze cartas, recebidas por ela ao longo de quarenta anos. Uma correspondência preciosa, pois testemunho vivo da exposição de ideias, vivências e realizações de alguns dos maiores músicos eruditos do século XX. São cartas de Igor Stravinsky, Robert Craft, John Cage, Luciano Berio, Karlheinz Stockhausen, Iannis Xenakis, Eleazar de Carvalho, Claudio Santoro, Lukas Foss, Robert Craft e Olivier Messiaen, trocadas ao longo de décadas com a pianista. Além das cartas em fac-símile, o livro reproduz algumas primeiras versões de partituras manuscritas e não editadas. Esse raríssimo material é inteiramente originário do acervo pessoal de Jocy de Oliveira, que ao longo do livro contextualiza os fatos mencionados e explica circunstâncias, comenta as cartas, de modo a oferecer ao leitor um panorama interessante e completo de sua vivência artística e pessoal junto a esses compositores. Jocy, que foi solista em duas ocasiões sob a batuta de Stravinsky, recebeu, na qualidade de pianista e amiga, peças especialmente escritas para ela por compositores como Berio, Cage, Xenakis e Santoro. Como pianista, ela gravou para os selos Vox e Polygram dos EUA, grande parte da obra de Messiaen.

O lançamento em São Paulo ocorrerá hoje, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, às 19h30. Continue lendo

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Crítica Literária

Textos conversas

5 agosto, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O trabalho ensaístico de José Paulo Paes é tão preciso quanto sua poesia. Organizada pela escritora Vilma Arêas, a reunião de alguns dos ensaios de Paes, neste volume, intitulado Armazém literário, trouxe aos leitores a possibilidade de encontrar textos tocantes cujos livros de publicação original há muito estão esgotados no mercado brasileiro. Com prosa fluente e elegante, Paes lida com assuntos graves a partir de autores como Machado de Assis, William Blake ou Simone Weil, ou então, utilizando toda a liberdade da forma ensaística, reflete sobre o ofício de poeta e sobre sua própria “linhagem” na poesia brasileira; no ensaio “Para uma pedagogia da metáfora”, por exemplo, expõe sua concepção de poesia como metáfora do mundo, com “seu poder de revelar o universal no particular”. Há também ensaios sobre a arte da tradução de poesia, que Paes praticou até o fim da vida – verteu para o português autores de várias línguas, como o americano William Carlos Williams, os gregos Konstantínos Kaváfis e Giorgos Seféris, o francês Paul Éluard, o alemão Rainer Maria Rilke.

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matraca

Filosofia e arte

4 agosto, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Marcel Duchamp

O descredenciamento filosófico da arte, de Arthur C. Danto, desenvolve interessantes considerações estéticas, suscitadas pelas análises da filosofia e da arte, tanto modernas quanto contemporâneas, envolvendo sobretudo o problema do esmaecimento das distinções claras para a definição de uma obra enquanto artística.

Publicado no Brasil pela editora Autêntica, com tradução realizada pelo professor Rodrigo Duarte, o livro representa relevante contribuição para as discussões estéticas em torno da arte contemporânea.

A obra traz nove ensaios, que abrangem diferentes perspectivas, porém tendo como pano de fundo a filosofia da história da arte. Continue lendo

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Literatura

Erudito mítico sertanejo

1 agosto, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Ariano Suassuna nasceu em junho de 1927. No na seguinte, sua família mudou-se para a Fazenda Acauhan, no sertão da Paraíba, pois seu pai, João Suassuna, então recente ex-governador, temia ações de inimigos políticos. João foi morto em 1930, mesmo ano em que Ariano iniciou seus estudos. A família então mudou-se para Taperoá e, sete anos depois, para Recife, onde Ariano intensificou seu contato com a literatura. “Comecei a querer ser escritor aos 12 anos, quando fiz meu primeiro conto. Na época, era um assassino terrível. Quando não sabia o que fazer com um personagem, matava”, contou. Em 1945, teve publicado seu primeiro texto, o poema “Noturno”, no Jornal do Commercio. Ao longo de sua vida, seguiu escrevendo peças, romances, poemas, ensaios, teses. Enquanto membro fundador do Conselho Nacional de Cultura e Diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPE, articulou o Movimento Armorial, defendendo a criação de uma arte nordestina erudita, concebida a partir de suas raízes populares.

Ao completar 80 anos de idade, em 2007, Ariano Suassuna foi homenageado em todo o Brasil pela grandeza de seu trabalho. Pouco antes, dissera: “A literatura é uma forma de protestar contra a morte”.

O Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta é narrado como um romance autobiográfico de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quadrena, que proclamara a si mesmo “Rei do Quinto Império e do Quinto Naipe, Profeta da Igreja Católico-Serteneja e pretendente ao trono do Império do Brasil”. Continue lendo

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fotografia

Documentário imaginário

31 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Escafandro”, 2005, foto de Pedro David, presente no livro “Paisagem submersa”

Paisagem submersa, trabalho realizado coletivamente pelos fotógrafos mineiros João Castilho, Pedro David e Pedro Motta, publicado como livro em 2008 pela CosacNaify, retrata comunidades ribeirinhas, em sete municípios do nordeste de Minas Gerais, que tiveram suas terras inundadas para que se pudesse formar o lago da Usina Hidrelétrica de Irapé, no leito do rio Jequitinhonha – eis o porquê do título. O resultado, interessante e poético, registra a grandiosidade das paisagens em seu contraste com o abandono humano. O conjunto das imagens coloca-se como uma revisão contemporânea da linguagem do fotodocumentário.

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matraca

Fragmentação social

30 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

M. C. Escher

A filósofa Marilena Chaui, nos ensaios publicados neste mês pela editora Autêntica em coedição com a Fundação Perseu Abramo, reflete sobre o sentido d’A ideologia da competência. Ao longo do livro, a autora identifica uma nova classe trabalhadora, constituída no cenário brasileiro em meio ao avanço de políticas econômicas e sociais democráticas que, sob as condições impostas pela economia neoliberal, acabaram por difundir tanto a ideologia da competência quanto a racionalidade do mercado. Analisando o sentido desta ideologia, Chaui constitui uma gênese do conceito, desde a regulação fordista até o avanço do neoliberalismo, concentrando sua análise em duas instituições: a universidade e a indústria cultural. Sua indagação, amparada pelo uso erudito de boa parte do história da filosofia, perscruta o mais profundo sentido do que é o político e identifica uma modernização do autoritarismo no Brasil. Um livro de combate, que mostra a força e o perigo de ideologias que, colocadas como míticas verdades universais, são fruto de construções sociais ao mesmo tempo que ferramentas de sua manutenção.

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Literatura

Desdobramentos entre o real e a fantasia

29 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Quinten Massys

 “A partir de certo momento trocaram aclive por declive e se fixaram na construção da pior imagem possível do próprio ser que as produz”.

 

Mar Negro, novo romance de Dau Bastos, conta a história de Anderline, uma alagoana cujo principal atributo é a extrema feiura, qualidade contornada por uma inteligência sagaz. Ela foge para o Leste Europeu, passa pela Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária e Turquia: experiencia lados ruins como prisioneira da realidade, ao mesmo tempo em que busca sua identidade enquanto assumida personagem de uma ficção. Em cada parada de sua viagem, esparge uma afrodisíaca fragrância e acaba por conquistar alguns homens e, ao chegar a Istambul, consegue a proeza de transformar a sufocante burca em suporte para enfim tecer uma relação duradoura. A crítica à ditadura da beleza ressoa na prosa de Dau Bastos, encaminhando uma reflexão sobre o real e a fantasia. Um livro criativo e ousado, que desafia o estabelecimento de fronteiras da existência – “bom era o tempo em que a poesia e a prosa se uniam à religião na aposta na capacidade humana de ascender da inconstância terrena à estabilidade fundamental”.

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matraca

Espetáculo verbal

28 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O Que Você Está Olhando – Teatro (1913-1920) reúne dezoito peças da escritora norte-americana Gertrude Stein. Algumas das peças contidas no volume já haviam sido traduzidas para o português, mas é a primeira vez que o conjunto de produção deste período linguisticamente experimental de Stein é integralmente publicado no Brasil. O livro foi organizado por Dirce Waltrick do Amarante, doutora em Teoria Literária pela UFSC, em parceria com a pesquisadora Luci Collin.

O teatro de Gertrude Stein é novo em muitos sentidos. As dezoito peças aqui reunidas são consideradas pelos teóricos do teatro contemporâneo como modelos ainda não bem explorados pelos leitores e encenadores. São texto inovadores e interessantes, nascidos do cerne do imprevisível. Um teatro que desenvolve-se numa cadência de palavras a relacionarem-se com suas recombinações de sentidos, como um jogo.

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fotografia

Uma linguagem fotográfica engajada

25 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

foto de Claudia Andujar, da série “Marcados”

Em 2009 a fotógrafa Claudia Andujar publicou pela CosacNaify o livro Marcados, composto por 85 fotos dos índios Yanomami realizadas entre 1981 e 1983, durante uma viagem de levantamento das suas condições de saúde após o contato com o branco. Para a catalogação dos registros, como os Yanomami não respondem a nome próprio, foi adotado o método, consagrado desde o século XIX para a identificação dos povos nativos, que consiste em uma fotografia do indivíduo com um número preso ao corpo. O conjunto das fotos transformado em livro apresenta-se como um profundo questionamento sobre as relações que povos exercem sobre outros, marcando-os e determinando a extensão de sua sobrevivência.

Claudia Andujar (1931) nasceu na Suíça e vive no Brasil desde 1955. A fotógrafa participará da Flip deste ano, na mesa também intitulada “Marcados”, que dividirá com Davi Kopenawa, representante dos índios Yanomami.

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Literatura

Meu velho,

24 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

desenho de Rembrandt

O nome de Luisa Geisler é um dos mais promissores no atual cenário da literatura brasileira. Ela foi a mais jovem escritora a participar da edição especial Granta – Os melhores jovens escritores brasileiros, foi indicada ao Prêmio Jabuti de Literatura de 2013 e recebeu, em 2012, o Prêmio SESC, pelo livro romance de estréia, Quiçá, que também lhe rendeu indicação ao Prêmio Machado de Assis. Com seus contos, reunidos em Contos de mentira, venceu o Prêmio SESC de Literatura e finalista do Jabuti. Tudo isso aos “vinte e poucos anos”: Luisa nasceu em 1991, em Canoas, RS.

Seu novo romance, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, lançado pela Alfaguara, é dotado de um humor desconcertante, capaz de criar passagens verdadeiramente cativantes sobre as incertezas do amadurecimento. Continue lendo

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Literatura

Medeia

23 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Alphonse Mucha, cartaz para encenação de Medeia por Sarah Bernhardt

Medeia é uma personagem terrivelmente fascinante da mitologia. Bela feiticeira, estrangeira, errante, ferida na alma pelo amor. Apaixonada, sofrida, atordoada, matou, num delírio furioso, os próprios filhos. Poderosa e assustadora, nas palavras de Horácio: “seja Medeia feroz e invicta” (sit Medea ferox inuictaque). Não há apenas uma história de Medeia. Sua presença é múltipla, engloba de uma face benéfica a uma cruel. É por isso que Medeias latinas é um ótimo lançamento da Editora Autêntica: organizado e traduzido por Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, este rico volume traz a personagem pela perspectiva dos autores Ênio, Pacúvio, Lúcio Ácio, Varrão de Átax, Higino, Ovídio, Sêneca, Valério Flaco, Hosídio Geta, Ausônio e Dracôncio, em edição bilíngue português-latim espelhada.

Segundo o professor de Língua e Literatura Latina da UFPR Guilherme Gontijo Flores, “Márcio Gouvêa Júnior não é apenas um excelente compilador de mitos em sua versão romana – ele é um excelente tradutor, alguém capaz de devolver poesia àquilo que um dia foi poesia noutra língua, noutra cultura. E, convenhamos, isso importa, isso é o que importa; porque o leitor não vai se deparar com uma mera listagem enfadonha de variantes mitológicas. O que você tem em mãos, com estas Medeias latinas, é a chance de reexperimentar poeticamente as várias faces de Medeia dentro da cultura romana, de encarar o que há de variantes no seu conteúdo também pelas variantes da sua forma – o que só poderia ser feito por alguém que, além de erudito, é também um poeta”.

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Literatura

Estilo abarrocado

22 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”.

A morte João Ubaldo Ribeiro é uma perda sensível à literatura brasileira. Sobretudo aos leitores que o acompanhavam semanalmente nos textos publicados nos jornais O Estado de São Paulo e O Globo.

Viva o povo brasileiro, um de seus mais célebres livros,completa, em dezembro deste ano, 30 anos desde seu lançamento. O livro havia sido publicado novamente pela editora Alfaguara em 2008 e, para comemorar o aniversário do primeiro lançamento, em novembro será lançada uma nova edição, com ensaios de Geraldo Carneiro e Rodrigo Lacerda. Segundo Lacerda, como divulgou o jornal O Estado de São Paulo, João Ubaldo fez, de Viva o povo brasileiro, “o grande entroncamento literário de sua carreira, onde todos os outros livros se encontram […] é o grande manancial, mas é simultaneamente o escoadouro de tudo”.

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