Literatura

A cantiga silenciosa das inquietudes da mente

12 novembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Um dos romances finalistas do Prêmio Jabuti, O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, de Evandro Affonso Ferreira, narra a comovente história de um homem erudito, que é abandonado repentinamente por sua amada mulher e que perde, então, a razão de viver e torna-se morador de rua – “Dia anterior àquele em que ela deixou bilhete elíptico ACABOU-SE; ADEUS sobre o criado-mudo, disse-me, olhos nos olhos: Vou amá-lo vida toda. Silhueta da lâmina da despedida estava por trás daquele olhar umedecido”. O livro vem causando polêmica pelo estilo do autor, considerado demasiadamente hermético.

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Literatura

o voo do albatroz

11 novembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

O livro O albatroz e o chinês reúne cinco ensaios inéditos de Antonio Cândido. São escritos dispersos, divididos em três partes: as duas primeiras, compostas por ensaios mais longos, e a terceira, por escritos breves. Esta publicação, da editora Ouro sobre azul, é uma reedição aumentada do heterogêneo conjunto de textos, lançado originalmente em 2004.

O ensaio que dá título ao livro aborda a oposição entre poemas que representam a natureza e poemas mais intimistas, que a recriam a partir de um ponto de vista subjetivo. O ensaio analisa, a partir daí, tensões da criação, tecendo sua argumentação sobre a interpretação de um poema de Mal­larmé. Os ensaios seguintes Continue lendo

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Artes Plásticas

Goeldi, Lasar Segall e Iberê Camargo.

8 novembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

– Goeldi

Registro impresso da mostra homônima, o livro Cálculo da expressão aproxima as gravuras de Goeldi, Lasar Segall e Iberê Camargo a partir do reconhecimento da matriz expressionista em comum. Na exposição e consequentemente no livro, a pesquisadora e curadora Vera Beatriz Siqueira propôs um rico confronto entre os três artistas, mestres da xilogravura, através da contraposição de suas produções e também de suas diferentes visões do expressionismo. Segundo Vera, o intuito da exposição foi exibir “tanto as proximidades da expressividade na arte, quanto os caminhos individuais de cada um dos artistas. Os três trabalham com mesmo universo temático, o individuo no mundo, a solidão, a morte. Cada um lida com essas influências de maneira muito diferente”. Continue lendo

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matraca

Arqueologias poético-filosóficas

7 novembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

 

Ninguém melhor que um filósofo para explorar os jogos de sentido entremeados às palavras. Extravasando essa premissa singela, com a sua característica amplitude reflexiva, abstrata e crítica, a erudição interpretativa de Benedito Nunes traz uma nova luz aos assuntos que aborda em O dorso do tigre. O livro de ensaios reúne reflexões e comentários de filosofia e de crítica literária.

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matraca

A arte genuína de Julio Ramón Ribeyro

6 novembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Julio_Ramon_RibeyroSem ter sido um fumante precoce, a partir de certo momento minha história se confunde com a história de meus cigarros”.

Nas palavras de Julio Ramón Ribeyro, no fundo de suas histórias estão “a velhice, a deterioração, a frustração e o perecimento”. Considerado um dos maiores contistas de língua espanhola, sobretudo pelos conterrâneos Mario Vargas Llosa e Alfredo Bryce Echenique, Ribeyro dedicou-se também a escrita de ensaios, biografias e aforismos, mas foi principalmente nos contos que desenvolveu sua arte. No Brasil, a edição cuidadosa da Cosacnaify, Só para fumantes, traz uma breve mas significativa antologia composta por treze de seus contos, selecionados e traduzidos por Laura Janina Hosiasson. Selecionado como prólogo, o texto crítico escrito por Alfredo Bryce Echenique – “A arte genuína de Julio Ramón Ribeyro” – analisa: “Por uma espécie de duplo interno da fábula, em vários desses contos de fato ocorre uma segunda instância da significação. O indivíduo socialmente desamparado encontra um novo amparo no discurso que o substitui. Dir-se-ia então que o sujeito do drama do subdesenvolvimento ou da modernização desigual pode perder tudo, exceto essa capacidade piedosa de recuperar sua humanidade na imaginação. Isso torna mais aguda a crítica, evidentemente, mas também a fábula, que na verdade implícita da ficção sustém a frágil verdade do sujeito iludido”. Continue lendo

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matraca

Um sentido espiralado de existência

5 novembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

naufragiosEscrevo. Não faço outra coisa que descrever, este sucedâneo literário que encobre minha carência, minha incapacidade. Desespero”.

Naufrágios, da conhecida artista plástica e escritora Giselda Leirner, é um livro de fragmentos e destroços de história. Nesta coletânea de contos, fragmentos de vida escritos na primeira pessoa, autora, narradora e protagonistas muitas vezes se confundem, amalgamam-se ao mesmo tempo que são estranhas a si mesmas, sombras de sombras: simbolizam o esquecido e recalcado e encaminham ficção e realidade a mostrarem-se inextricáveis. A escritura e a vida duplicam-se mutuamente, e somos lembrados disso ao longo do livro, uma metaliteratura, a movimentar sentidos de existência. A escrita é uma roupa mortuária, que conserva a existência; de uma vida que naufraga, restam as palavras, concretudes de nostalgias. Continue lendo

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matraca

O povo tupi-guarani do norte da Amazônia

4 novembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

parakanasInimigos fiéis: história, guerra e xamanismo na Amazônia é fruto de mais de dez anos de pesquisa entre os parakanãs, o povo tupi-guarani do norte da Amazônia – suas terras localizam-se nas bacias do Xingu e do Tocantins, no Estado do Pará –, que preservou sua autonomia até o início dos anos de 1970. Inimigos fiéis reconstrói a história oral de um século de existência desse povo, acompanhando as transformações estruturais, políticas e econômicas nos padrões de subsistência e nas formas sociopolíticas, a partir de uma análise microssociológica e comparativa.

O livro é baseado na premiada tese de doutorado de Carlos Fausto, reconhecida como uma importante contribuição para a teoria antropológica, principalmente pelo que diz respeito à análise das relações entre história e ação social. Continue lendo

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matraca

Vário som – Editora Patuá

1 novembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Publicado no ano passado pela editora Patuá, Vário som, de Elisa Andrade Buzzo, foi um dos livros finalistas do prêmio Jabuti de 2013 na categoria de poesia. O livro foi elaborado pela poeta em uma temporada passada em Lisboa, em sua maior parte na Rua Nova do Almada, próxima ao Cais do Sodré. Eliza já havia publicado três outros livros: Noticias de ninguna parte (Limón Partido, em 2009), Kanto retráctil/ Canción retráctil (Yiyi Jambo/ La Cartonera, em 2010) e  Se lá no sol (pela editora 7 Letras, em 2005). Além disso, também já havia participado de diversas antologias. Segundo Andréa Catropa, em resenha à revista literária Cisma, há, ao longo do livro, o desenvolvimento de um recurso formal responsável pela própria arquitetura de sua construção, representativo de um amadurecimento na obra da poeta: “a princípio, assemelha-se a uma desconstrução do verso, que quase se dissolve na prosa. Mas quando o observamos mais detidamente, percebemos o quanto ele funciona como um recurso construtivo e coesivo, que impele à leitura certo ritmo, cada verso levando adiante como os trilhos que conduzem os elétricos da capital lusitana”. Continue lendo

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Drummond

31 outubro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Carlos Drummond de AndradeNo dia 31 de outubro de 1902 nasceu um dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade. O Instituto Moreira Salles desde 2011 comemora o aniversário do poeta, com o evento “Dia D”, cujo intuito é fazer com que a data passe a integrar o calendário cultural brasileiro. Neste ano, o evento criou um roteiro de leitura, “Vida e verso de Carlos Drummond de Andrade”, elaborado por Eucanaã Ferraz: o roteiro pode ser lido e interpretado em qualquer lugar e requer quatro leitores, a saber, um narrador e outros três, que representarão diferentes fases na vida do poeta. No IMS do Rio de Janeiro, a leitura do roteiro será realizada hoje à noite, por Antonio Cicero, Alberto Martins, Afonso Henriques Neto e Joca Reiners Terron. Aqui em São Paulo, a Livraria 30porcento apoia a homenagem, dedicando o texto da coluna matraca ao livro A vida passada a limpo, recentemente relançado pela Companhia das Letras. Continue lendo

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O vale do fim do mundo

30 outubro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Ao desembarcar no Brasil, como imigrante europeu após a Segunda Guerra, o médico, escritor, tradutor e pensador húngaro Sándor Lénárd fixou-se na cidade de Dona Emma, em Santa Catarina, e naquele vale viveu, de 1952 até 1972. O livro O vale do fim do mundo traz uma visão panorâmica da sociedade, dos costumes, da política e do cotidiano dessa pequena cidade durante os anos 1950 e 1960. São histórias locais, ouvidas pelo médico e por ele vividas. “O colono de Santa Catarina espera que seus feitos heroicos sejam transformados em épico, e provavelmente espera em vão”, escreveu Sándor Lénárd. É representativa sobretudo sua visão como estrangeiro, que lhe permite uma observação geral sobre o lugar desconhecido e seus diferentes hábitos. Além de anedotas, também crendices populares e costumes locais são descritos e analisados ao longo do livro, dando à narrativa um interesse sociológico e histórico, além do literário narrativo. Um livro de memórias coletivas, narrado em primeira pessoa. O vale do fim do mundo foi publicado por “Alexander”, como o conheciam, em 1967 e, somente agora, traduzido para o português por Paulo Schiller, também responsável pelo texto de orelha desta edição da Cosacnaify. Continue lendo

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Literaturas da floresta: textos amazônicos e cultura latino-americana

29 outubro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Capa do livro "Literaturas da floresta – textos amazônicos e cultura latino-americana"Uma análise literária inusual, porque debruçada sobre literatura desenvolvida sobre a palavra sonora e não a escrita, compõe o interessante livro Literaturas da floresta: textos amazônicos e cultura latino-americana, escrito por Lucia Sá e publicado recentemente pela editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A pesquisa abarca a produção cultural da Floresta Amazônica e das planícies da América do Sul, desenvolvendo conjecturas sobre a apropriação, por parte de muitos escritores do século XIX, de personagens e histórias da ficção da selva – cuja dimensão mágica era-lhes inextrincável, porém, cujo poder simbólico teve sobre eles forte influência, fonte literária da percepção abstrata do mundo. A literatura selvagem foi dispersada entre esses escritores pela transmissão de suas lendas, oralidade avessa a autores – ritos retumbados, modificados e finalmente reconstruídos, são hoje quase irreconhecíveis. Continue lendo

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A ação política ameríndia e seus personagens

28 outubro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Capa do livro de antropologia "O Profeta e o Principal", publicado pela EduspO excelente livro de Renato Sztutman, professor de antropologia da Universidade de São Paulo, O profeta e o principal: a ação política ameríndia e seus personagens, publicado pela Edusp, foi um dos três selecionados a finalista do prêmio Jabuti na categoria de obras não ficcionais da área de ciências humanas. No livro, Sztutman parte das ideias de Pierre e Hélène Clastres a respeito dos mecanismos indígenas de recusa e conjuração do poder coercitivo e de toda unificação ontológica. Baseado nos estudos etnológicos de ambos, o antropólogo brasileiro estuda a imbricação entre o que convencionamos chamar de “religioso” e “político”, analisando o reconhecimento ambíguo, entre os antigo Tupi, de seus pajés e chefes de guerra como “profetas” e “principais”. Continue lendo

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Rabo de Baleia

25 outubro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

capa do livro de poesias um enorme rabo de baleia

cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
era abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

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Um pintor de ideias

24 outubro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Duchamp esteve aquiTalvez os dois pintores que maior influência exerceram em nosso século sejam Pablo Picasso e Marcel Duchamp. O primeiro pelas suas obras, o segundo por uma obra que é a própria negação da moderna noção de obra”. Assim começa o primeiro ensaio do livro Duchamp ou O castelo da pureza, de Octavio Paz, publicado, no Brasil, pela editora Perspectiva. A comparação segue: “As figurações de Picasso atravessam velozmente o espaço imóvel da tela; nas obras de Duchamp o espaço caminha, se incorpora e, tornado máquina filosófica e hilariante, refuta o movimento com o retarde, o retarde com a ironia. Os quadros do primeiro são imagens; os do segundo, uma reflexão sobre a imagem”. O desenvolvimento da análise é interessante e poético: “Duchamp nos mostrou que todas as artes, sem excluir as dos olhos, nascem e terminam numa zona invisível. […] o invisível não é obscuro nem misterioso, é transparente”. Segundo o poeta mexicano, Marcel Duchamp define nossa época por suas negações e explorações. Para ele, Duchamp teria sido desde seus primeiros trabalhos sempre “um pintor de ideias”. Continue lendo

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Um catálogo do destino

23 outubro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

capa do livro Contos maravilhosos infantis e domésticos, publicado pela CosacnaifyE viveram felizes para sempre. Nem todo mundo sabe que o que conhecemos como “contos de fadas” são adaptações moralistas para não assustar crianças, de histórias que foram primeiramente criadas e transmitidas oralmente, como narrativas adultas mordazes, irônicas, cruéis e mesmo sórdidas.

Para homenagear o ano de bicentenário da primeira publicação dos famosos contos compilados pelos irmãos Grimm, a editora Cosacnaify publicou a tradução da versão original das 156 narrativas. A tradução foi feita pela especialista Christine Röhrig e a edição conta com uma apresentação do professor Marcus Mazzari. Outro aspecto muito interessante da edição brasileira são as ilustrações, feitas pelo xilogravurista pernambucano J. Borges. O deslocamento do traço de cordel criou um resultado feliz de encontros culturais de duas manifestações impressas de histórias populares pertencentes originalmente às tradições de oralidade. As gravuras ainda estabelecem um diálogo de naturalidade e humor com a excentricidade e o maravilhoso das narrativas alemãs. O livro Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos foi indicado como um dos dez finalistas de melhor projeto gráfico do prêmio Jabuti deste ano. Continue lendo

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