Crítica Literária

Musil, o homem de possibilidades .parte II.

12 abril, 2013 | Por Isabela Gaglianone

A ironia de Robert Musil chegaria a ser desconcertante, não fosse sua elegância, a sutileza com que simplesmente permeia as situações do romance. A ironia não é escancarada em palavras ou expressões, reside antes no simples espelhamento de diferentes relações entre diferentes personagens, à maneira de uma fuga musical. Essa ironia é o que faz satírico O homem sem qualidades. Filosoficamente satírico, inclusive, pois põe em questão a moral frente à impessoalidade do homem moderno, enquanto homem de pensamento, imerso numa complexa dinâmica de possibilidades e impossibilidades. Movimentos de paixão e razão, utopias de resguardo inescrutável. Continue lendo

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Crítica Literária

Musil, o homem de possibilidades .parte I.

6 abril, 2013 | Por Isabela Gaglianone

no princípio

Filosofia então teve início
na tentativa de liquidação
do universo (arranjo,
adereço, cosmético): promessa
de fluidez sem caroço
e coisa e Tales.

Meditações mediterrâneas. Hidráulica
arcaica. Absoluto
dissoluto.

A primeira
imprecisão é a que fica?

Rubens Rodrigues Torres Filho

 

MUSIL, O homem sem qualidades

(Nova Fronteira, tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth)

O homem sem qualidades é logo apresentado a seu leitor. Sua principal qualidade é não ter nenhuma, pois ele é desprovido do dito senso de realidade e possui, em seu lugar, um senso de possibilidade:

Assim, o senso de possibilidade pode ser definido como capacidade de pensar tudo aquilo que     também poderia ser, e não julgar que aquilo que é seja mais importante do que aquilo que não é. (…) não raro fazem parecer falso aquilo que as pessoas admiram, e parecer permitido o que proíbem, ou ainda fazem as duas coisas parecerem indiferentes. (…) podemos entrever como uma pessoa que não tenha senso de realidade nem em relação a ela própria pode sentir-se de repente um homem sem qualidades” (pp. 34-36).

Se concordarmos com Maurice Blanchot, veremos o tema do livro inscrito em seu título e o tal ‘senso de possibilidade’, assim exposto nas primeiras páginas do monumental romance, como sua chave fundamental de leitura.

A expressão ‘homem sem qualidades’, embora de um uso elegante, tem o inconveniente de não ter o sentido imediato, e de deixar perder-se a idéia de que o homem em questão não tem nada que lhe seja próprio: nem qualidades nem tampouco nenhuma substância. Sua particularidade essencial, diz Musil em suas notas, é que ele não tem nada de particular.”
(Blanchot, O livro por vir).

O homem em questão, portanto, seria não exatamente sem qualidades, mas sem peculiaridades. “Nada, precisamente nada!”, “eis a espécie que nossa época produziu”, é o que diz sobre ele o antigo amigo que lhe confere a alcunha. Tudo, para este homem sem peculiaridades, o que acontece e também o que não acontece, equivale-se como variações plausíveis, genuínas possibilidades. Por isso ele não consegue decidir-se, nem mesmo por um caráter. Por isso talvez também Musil não tenha conseguido jamais terminar seu romance. Pois o romance é inacabado, mas metaforicamente também o é seu protagonista, impreciso, em seu mundo restrito a infinitas e incontornáveis potencialidades.

Num incerto salto tigrino que corre o risco de nos levar tão somente a um anacronismo berrante, fazem coro palavras de nosso contemporâneo escritor espanhol Javier Marías no seu romance Coração tão branco:

(…) o que vemos e ouvimos acaba se assemelhando e até se igualando ao que não vimos nem ouvimos, é apenas uma questão de tempo, ou de que desapareçamos. (…) O que ocorre é idêntico ao que não ocorre, o que descartamos ou deixamos passar idêntico ao que pegamos e agarramos, o que experimentamos idêntico ao que não provamos, e no entanto vai-nos a vida em escolher, rejeitar e selecionar, em traçar uma linha que separe essas coisas que são idênticas e faça de nossa história uma história única que recordemos e possa ser contada.
(Marías, Coração tão branco).

Para ele, o que aconteceu e o que poderia ter acontecido entrelaçam-se, tem a mesma concretude, apesar serem definitivos e desembocarem na retumbante pergunta, “e agora?”. Para o homem sem qualidades, o que não existiu não deixa de existir como potência e resguarda-se em divagações ou investigações filosóficas, especialmente morais, que se desdobram em suas ações e opiniões. Também o que aconteceu poderia ter acontecido de outra maneira. Os fatos estão sempre prestes a inverterem-se de acordo com as relações estabelecidas, dentro dos maleáveis limites da pura possibilidade. Mesmo realidade e utopia mesclam-se indefinidamente. A verdade perde seu estatuto ontológico e desmorona-se em fragmentos possíveis.

O tema desenvolve-se no personagem e vice-versa. Os dois complexos temáticos que dividem o livro e sobre os quais modula sua tonalidade acabam sem peculiaridades que os explique ou resolva. Tanto quanto o homem sem qualidades, são pura plausibilidade. É por isso que Blanchot pode referir-se ao protagonista como uma representação do homem moderno: impessoal, abstrato, imerso na “neutralidade das grandes existências coletivas”, a quem as sequências de possibilidades são ilimitadas e que, “por vocação e por tormento, [tem] de viver a teoria de si mesmo, o homem abstrato que não é e não se realiza de maneira sensível”. Ulrich – nosso protagonista ganha um nome após ter sido apresentado como um “homem sem qualidades”, mas jamais um sobrenome – é uma abstração. Uma abstração intelectual, cuja humanidade é dramática, pois desenrolada principalmente no incesto nunca concretizado; mesmo sua relação consigo mesmo tem que ser projetada num outro, quase gêmeo, a única possibilidade de amar a si mesmo é através de um espelho.

A condicionalidade é perpétua e irresoluta. Ao contrário do que ocorre no conto “Na galeria”, que Kafka inicia com uma partícula condicional “se”, numa frase que é todo um parágrafo. Ela guarda uma possibilidade que é somente sonhada, o que diz o segundo parágrafo, espelhado: a realidade, que faz chorar. A possibilidade, alí, é quimérica, ao passo que a realidade, concreta, imutável e frustrante. O conto é marcado por quatro tempos: “se”, “– talvez”, no primeiro parágrafo, e, no segundo, “mas [uma vez que não é assim]” e “– uma vez que é assim, o espectador da galeria apoia o rosto sobre o parapeito e, afundado na marcha final como num sonho pesado, ele chora sem o saber”. Em Musil não há desilusão, pois ele está imerso na imprecisão de sua própria impossibilidade.

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Crítica Literária

Musil e Dostoiévski – Modulações

1 abril, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Não que se diga de um homem sem qualidades que seja de todo um idiota. Mas em uma sociedade imperial ou czarista, muito se diz a respeito das personalidades mais excêntricas. Pois as altas rodas dessas sociedades costumam maldizer personagens que as observam com perspicácia, ainda que tais personagens mantenham certo alheamento social. Vivendo nessas sociedades, o idiota é ridicularizado por sua ingenuidade; o homem sem qualidades por seu sarcasmo pessimista. Ambos são personagens permeados por um diagnóstico crítico, de época e de mundo. Assumem discretamente um tom satírico e sua simples existência meio descabida nessas sociedades em que se inserem é espelhada nas personagens ao redor, o que acaba por tipificá-las – tipos quer sociais, quer psicológicos, nas vestes de uma generala ou de uma Diotima. E, se ridicularizados, nessa sociedade que os espelha como numa sonata, quer dizer, retomando e reexpondo seus temas em outros registros, eles, com a irrefutável capacidade de rir-se de si mesmos dão vazão à risibilidade latente das discussões sérias feitas em sociedades que levam a si, e a seus modelos, demasiado a sério – nota: um elegante conde séculos antes já sugerira, a verdade deve passar no teste do ridículo. A crítica refletida é sutil e precisa.

A impressão é a de uma música, sob a qual as personagens se organizam. Os tipos dançam, ao som dos acordes em voga, à maneira de cenas que se sucedem com entradas e saídas do palco, dançarinos com figurinos em meio a cenários requintados e significativos, através dos quais, porém, um idiota ou um homem sem qualidades, cada um a seu jeito, parecem caminhar calmamente, incomodando as coreografias; caminham pela cena, alheios, de calças compridas e olhar reflexivo mesmo que em plena encenação de um pas-des-deux. Figuras quiméricas em meio a retratos do homem moderno.

o homem sem qualidades e o idiota

 

 

 

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Literatura

Justa homenagem a Hilda Hilst

4 fevereiro, 2013 | Por admin

uma homenagem a escritora brasileira Hilda Hilst

Uma justa homenagem a uma grande escritora brasileira chamada Hilda Hilst. Morreu há exatos 9 anos, e os textos que guardo mais vivos na memória são os de sua “tetralogia pornográfica”: Caderno Rosa de Lori Lamby, Contos d’escárnio. Textos Grotescos, Cartas de um sedutor e Bufólicas. Foi um ato consciente quando Hilda Hilst resolveu “escrever este livro porque ao longo da minha vida tenho lido tanto lixo que resolvi escrever o meu”. Aos 60 anos de idade, como o narrador Crasso dos Contos d’escárnio, o lirismo da poesia de Hilda cede lugar a zombaria.

A escatologia enoja os puritanos, os moralistas de araque. Não é possível que não se deliciem com tal construção: “Todo mundo quando me via dizia: lá vai o Crasso, filho daquela da crassa putaria. Eu ficava com os olhos úmidos mas logo em seguida, apesar da minha timidez, mostrava o pau”; é o início de uma incrível rapsódia travestida de obscenidade. Na minha opinião, é na prosa satírica onde a lucidez crítica atinge seu mais alto grau de perfeição. A dimensão política é inegável: aos olhos do leitor atento, cúmplices do despudor, da poesia e do riso, o livro transforma-se numa “síntese amplificada, vale dizer, obscena e cruel, de todas as obscenidades dissimuladas, institucionalizadas, normalizadas e naturalizadas na paisagem brasileira e humana”, nas palavras de Alcir Pécora.

Foi em 2001 que a Editora Globo comprou os direitos da obra de Hilda Hilst e passou a reeditar a Obra Completa da escritora. Quase todos os volumes já estão disponíveis em ebook, para deleite do jovem leitor. Mas que as palavras de Jocasta sirvão-lhes de sobreaviso: “Já dizia um rei: um livro nas mãos é uma foda de menos”.

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Últimas

50 anos da célebre New York Review of Books

2 fevereiro, 2013 | Por admin

Não tem nada de atual o problema da crítica literária em forma de resenhas: The Decline of Book Reviewing foi um artigo publicado no remoto ano de 1959. Foi ele que serviu de inspiração para a criação, quatro anos depois, da New York Review of Books. Se a célebre NYRB faz 50 anos mostrando um certo cansaço, ao pensar na crítica literária publicada nos jornais impressos brasileiros, percebe-se logo que chegamos ao fundo do poço. Outras iniciativas mais promissoras como a Dicta&Contradicta geram polêmica que se restringiram a um pequeno grupo de leitores; o Jornal Rascunho não desperta a atenção necessária com suas resenhas; a revista Serrote não dialoga com a realidade cultural e política brasileira, apesar da agradável leitura de seus ensaios traduzidos; o Jornal de Resenhas morreu. Continue lendo

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Artes Plásticas

Pelas ruas, bares e prostíbulos – A poética expressionista de Hansen Bahia

1 fevereiro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Um autoretrato em xilogravura de Hansen Bahia

“Como é simplista o trabalho dos escrivinhadores de
arte, e mais simples ainda, quando conseguem situar alguém
dentro da linha, desde há muito totalmente encalhada, da
arte-de-moda-universalmente-aceita contemporânea”
(HANSEN, Jornal da Bahia, 1970).

Na alegria pacata da ida Bahia do início da segunda metade do século XX, reduto de tranquila espontaneidade, dos saveiros e dos coqueirais, o artista alemão Karl Heinz Hansen encontrou os motivos de maior inspiração para suas xilogravuras. Marinheiro traumatizado após ter lutado na segunda guerra mundial, veio ao Brasil e aqui descobriu ancoragem propícia ao desenvolvimento de sua poética expressionista. Continue lendo

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Últimas

Fábula de um leitor moderno

30 janeiro, 2013 | Por admin

O livro impresso:

Lembro-me do dia em que estaquei diante da vitrine de uma livraria [in memoriam]. Aquela edição era um tanto feia mas exalava monumentalidade. A densidade de seus 9 volumes se acumulava ao redor do título estampado na capa: História da Literatura Ocidental. Nunca soube seu preço: seria uma obscenidade exigir do livreiro que quantificasse o valor daquela obra. Fugi desesperançoso.

Primeira Edição da História da Literautra Universal, de Otto Maria Carpeaux

O ebook:

Sem muito ânimo navego pela sessão de ebooks [causa mortis] da Livraria Cultura quando surge em minha tela uma sugestão: a História da Literatura Ocidental por Otto Maria Carpeaux, de R$119,99 por R$113,99 ou em até 3x de R$38,00. Uma série de sobressaltos: comprar, fechar pedido, identifique-se, forma de pagamento, código de segurança, fazer o download. Enfim descubro a dedicatória a Aurélio Buarque de Holanda.

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Últimas

Matinais Literárias – 30 janeiro 2013

30 janeiro, 2013 | Por admin

Leitores: alguns links literários ou editoriais de artigos, resenhas ou entrevistas acompanhar seu café da manhã.

  • Vargas Llosa faz crítica pesada ao mercado cultural (folha de são paulo)
  • Governo brasileiro investirá 35 milhões de dólares em 8 anos na promoção da literatura brasileira no exterior (melville house)
  • Ricardo Costa, ex-diretor do PublishNews, será o advisor brasileiro na edição deste ano da Frankfurt Buchmesse (the bookseller)
  • Governo de Antígua e Bermuda quer lançar site de pirataria em retaliação aos EUA com autorização da Organização Mundial do Comércio (IDGnow)
  • Ensaio aponta livro O filho do pescador (1843), de Teixeira e Sousa como primeiro romance brasileiro (prosa & verso)
  • A poeta e a pedra, por Eucanaã Ferraz e poemas de Wislawa Szymborska (revista piauí)
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Literatura

Orgulho e Preconceito segundo Walter Scott e Mark Twain

29 janeiro, 2013 | Por admin

Jane Austen é nome reconhecido por todos. O fato é que o livro Orgulho e Preconceito de Jane Austen foi publicado há exatos 200 anos. Serei breve neste artigo comemorativo e apenas transcreverei duas opiniões divergentes sobre a autora: uma delas, positiva, por Walter Scott, e outra negativa, do bufão Mark Twain. Continue lendo

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Café da Manhã Literário

Matinais Literárias – 28 janeiro 2013

28 janeiro, 2013 | Por admin

Leitores: alguns links literários ou editoriais de artigos, resenhas ou entrevistas acompanhar seu café da manhã.

  • Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, fez aniversário ontem: são 200 anos desde sua publicação (El Pais)
  • Leonardo Pastor entrevista a tradutora Denise Bottmann para o iBahia (blog de literatura)
  • Glossário do plágio e da transtextualidade ilícita, com verbetes como Copyfight, Cryptomnesia, Kenosis e Plagium crassissimum (El plagio literario)
  • Resenha de Camila Kehl para o livro “O ruído das coisas ao cair” do escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez (livros abertos)
  • Carlo Carrenho estima que ebooks responderão por 2,63 por cento do mercado [brasileiro] em 2013 (tipos digitais)
  • Polêmica do prêmio anual de poesia da Biblioteca nacional: após anulação, prêmio vai para Ana Martins Marques (Prosa & Verso)
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Últimas

50 tons de cinza na contramão da lógica editorial

14 janeiro, 2013 | Por admin

O livro 50 tons de cinza tornou-se um marco na indústria cultural pelo modo como surgiu e percorreu seu caminho no mercado editorial. De sua origem como fanfiction na internet, tornou-se um ebook para só então vir a ser publicado em brochura e tornar-se um best-seller com desempenho épico de vendas no mundo todo.  Continue lendo

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Últimas

Kobo vs. Kindle – Um panorama brasileiro

4 janeiro, 2013 | Por admin

O escopo da comparação fica reduzida aos eReaders Kindle e Kobo pois são os únicos atualmente disponíveis à venda no mercado nacional e com preços muito mais competitivos que as versões tupiniquins Positivo Alfa e Cool-er.

O Kindle da Amazon ainda não está a venda no portal da própria empresa. O motivo parece ser o fato de que a logística de entregas físicas da Amazon aqui no Brasil ainda não está montada. Por isso a loja só foi inaugurada com eBooks, por enquanto. Como comprar o Kindle? O único portal que vende o eReader é o PontoFrio, pelo preço sugerido de R$ 299,00. Outra forma de comprar o Kindle é recorrendo a uma loja física da Livraria da Vila, em São Paulo.  Continue lendo

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Crítica Literária

Witold Gombrowicz: Trá-lá-lá

11 dezembro, 2012 | Por Isabela Gaglianone

Witold Gombrowicz escolheu para si o signo da imaturidade.

“Pois os Maduros sentem profunda aversão pela imaturidade, e nada lhes parece mais odioso do que um ser imaturo. (…) Então, como tudo isso vai terminar? Aonde chegarei seguindo por este caminho? Como se formou em mim (pensava eu) este fascínio pela imaturidade? Seria por eu viver num país repleto de indivíduos rudes, medíocres e efêmeros, que não se sentem bem num colarinho engomado, e onde, em vez da Melancolia e do Destino, são a Inabilidade e a Bisonhice que gemem pelos campos? Ou talvez eu vivesse numa época instável, que a cada instante inventava um novo lema e um novo mote, contorcendo o rosto da melhor forma possível – numa época transitória? …” (Ferdydurke, p. 30).  Continue lendo

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Crítica Literária

CAMPOS DE QUEIRÓS, Vermelho Amargo

11 novembro, 2012 | Por Isabela Gaglianone

(CosacNaify, 2011)

“Amparado pela janela, debruçado no meio do escuro, contemplei a rua e sofri imprecisa saudade do mundo, confirmada pela crueldade do tempo” (p. 7).

Há um vazio pungente, preenchido só com as vagas e evanescentes imagens da memória e da imaginação, na solidão em que se enclausuram os que vivem a dor da separação abrupta, forçada, que acompanha a morte de uma criatura querida. O paradoxo inconformado deste sofrimento é que o próprio vazio é cheio, pleno; esse vazio preenche cada uma das horas dos longos dias do “impiedoso tempo”, materializa-se, assim. Continue lendo

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Resenhas

CLASTRES, A sociedade contra o Estado

13 agosto, 2012 | Por Isabela Gaglianone

(CosacNaify, tradução de Theo Santiago)

 1) O que é o poder político? Isto é: o que é a sociedade?

2) Como e por que se passa do poder político não-coercitivo ao poder político coercitivo? Isto é: o que é a história? 

 Os fundamentos filosóficos presentes na antropologia política de Pierre Clastres desvelam-se desde o título do primeiro artigo do livro A sociedade contra o estado: “Copérnico e os selvagens“. Clastres articula filosofia e antropologia políticas, calcado em pesquisas etnográficas realizadas em sociedades amazônicas, de modo a desenvolver um projeto crítico à contaminação etnocêntrica latente na antropologia europeia, sugerindo-lhe uma nova orientação, que pudesse estabelecê-la legitimamente como ciência. Continue lendo

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