Literatura

Lampejos literários

22 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

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Ler os cadernos de juventude de um escritor que veio a ser um dos grandes pilares da literatura do século XX é de um interesse que ultrapassa a mera curiosidade intelectualmente arqueológica ou literariamente genética. É singular a liberdade do manuscrito enquanto cena de escritura – utilizando a expressão de Paul Valéry –, enquanto forma do pensamento bruto exteriorizado como sensibilidade verbal.

Albert Camus ao longo de sua vida inteira cultivou o hábito de escrever em pequenos cadernos algumas reflexões, experimentos literários, anotações dispersas e mesmo trechos que foram depois utilizados integralmente em seus primeiros livros.

A editora Hedra no ano passado publicou no Brasil a primeira tradução da reunião dos cadernos em três volumes. O primeiro deles, que cobre o período de 1935 a 37, intitulado Esperança do mundo, apresenta os apontamentos do jovem escritor em contato consigo mesmo, com suas próprias ideias e posições em relação ao mundo.  Continue lendo

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lançamentos

Racionalidade instrumentalizada

21 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Técnica e ciência como “ideologia”, de Jürgen Habermas, é uma coletânea de cinco ensaios, publicada originalmente em 1968. O ensaio cujo título dá nome ao volume originou o livro que seria publicado treze anos mais tarde, Teoria da ação comunicativa, considerado o ponto nevrálgico de toda a produção filosófica de Habermas.

Em suas considerações iniciais à obra, o filósofo aponta os ensaios “Técnica e ciência como ideologia” e “Conhecimento e interesse” – transcrição de uma aula inaugural, por ele proferida na Universidade de Frankfurt – como diferentes dos demais da coletânea, por não serem meros “trabalhos de ocasião”.

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matraca

Poemas circunstanciais

20 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone
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Magritte, “Ceci n’est pas une pomme” (1964)

Pouco se menciona sobre a produção poética de James Joyce. Uma reunião de seus poemas encontra-se no volume cuja tradução no Brasil é Pomas, um tostão cada [sendo, seu título original, Pomes, penyeach], título que mantem a aliteração ressonante do trocadilho entre “poems” – poemas – e “pomes” – pomos, normalmente utilizado em inglês para designar peras e maçãs. Traduzidos para o português por Alípio Correia de França Neto – que também é responsável pelas notas e pela introdução à edição brasileira –, os poemas foram reunidos e publicados pela primeira vez em 1927.

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história

A distância e a retórica

19 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Odilon Redon

O historiador Carlo Ginzburg, em Olhos de Madeira – Nove Reflexões Sobre a Distância, parte da premissa aceita pelo senso comum de que as fronteiras do nosso mundo parecem estar diminuindo, dadas as proporções da globalização. O convívio com diferentes culturas é uma dificuldade latente a este processo, apesar de que, historicamente, gera estranhamentos intelectualmente profícuos: há uma longa tradição, que encontra no olhar do estranho – do selvagem, do cego, do animal –, a capacidade de mostrar incoerências da sociedade. Nessas “Reflexões sobre a distância”, Carlo Ginzburg reflete sobre essa tradição e aponta a impossibilidade da narrativa da história europeia que desconsidera os seus contatos com outras civilizações.

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lançamentos

Rapsódias do andarilho

16 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Robert Walser

Robert Walser nasceu em Biel, na Suíça, em 1878; foi encontrado morto, em 1956, na neve, em Herisau, pouco longe do instituto psiquiátrico que habitava havia vinte e três anos. Ao longo de sua vida, não obteve reconhecimento e, quando após sua morte, enfim passou a ser lido e admirado, o foi por autores como Kafka, Musil, Hesse, Canetti, Benjamin.

Walser, que escreveu poemas e quatro romances, conseguiu, também em suas prosas curtas, manifestar seu gênio. Este volume, Absolutamente nada e outros contos, reúne mais de quarenta minicontos, além de esquetes, solilóquios e improvisos escritos entre 1907 e 1929. Traduzidos por Sérgio Telleroli, estes textos apresentam um vasto panorama da prosa walseriana.

Versam sobre temas variados, como uma caminhada pelo campo, uma viagem de balão, um quarto alugado, calças compridas, um macaco num café, flores, Kleist ou Cézanne. Mesmo “absolutamente nada” pode lhes ser matéria-prima.

Walser é conhecido por uma prosa delicada e precisa. Segundo Walter Benjamin, “as figuras humanas de Robert Walser partilham sua nobreza infantil com as personagens dos contos de fadas”. Continue lendo

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lançamentos

Vita da l’aspro tormento

15 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Simone Martini Siena, cerca de 1284 – Avignon, 1344), detalhe de “Annunciazione” – Galleria degli Uffizi, Firenze

Em co-edição, a Ateliê Editorial e a Editora da Unicamp acabam de lançar Cancioneiro, de Petrarca, poema que, concluído por volta de 1370, foi, desde então, o principal modelo no Ocidente para o desenvolvimento de toda a arte poética lírica vindoura. Ainda que a tradição laureie os poemas esculturais dantescos, em Petrarca a solenidade torna-se metafísica e suas marcas calam fundo na poesia até os dias de hoje.

Com tradução de José Clemente Pozenato, o volume traz os 366 poemas, sendo 317 sonetos, 29 canções, 9 sextinas, 7 baladas e 4 madrigais. O tema em torno do qual desenvolvem-se os poemas é o amor, em vida e depois da morte de Laura. Entremeados a estes, há poemas que contextualizam ao leitor o cotidiano do poeta, com marcações como o rodar de um tear, por uma mulher velha, de manhã bem cedo.

O resgate da Antiguidade empreendido por Petrarca foi de importância fundamental para o início do Renascimento italiano. Continue lendo

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lançamentos

A prosa precisa de Bábel

14 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Kandisnky, “Der Blaue Reiter”

A Editora 34 acaba de lançar No campo da honra e outros contos, do russo Isaac Bábel, com tradução de Nivaldo dos Santos e prefácio de Boris Schnaiderman.

O volume reúne 32 contos, a maior parte em sua primeira tradução direta para o português. São textos produzidos ao longo de toda a carreira literária de Bábel, provas de seu estilo sintético, essencial, inigualável. Aqui o leitor pode ter acesso tanto ao seu primeiro conto, publicado em 1913, quanto ao último, “O julgamento”, publicado em 1938. A seleção contempla todos os temas caros à produção literária de Bábel, os relatos da infância vivida na Moldavanka, o bairro judeu de Odessa, as histórias de sua juventude aventureira, os contos surpreendentes sobre a guerra.

O chamado ciclo “No campo de honra” foi inciado por Bábel no início de 1920, quando publicou, na revista político-literária Lava, um conjunto de quatro contos, inspirados na obra de Gaston Vidal sobre a 1ª Guerra Mundial.

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matraca

O tempo vazio 

13 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

fotografia de Nuno Ramos

Em O tempo e o cão – a atualidade das depressões, a psicanalista Maria Rita Kehl investiga uma hipótese: a de que a depressão seja um sintoma social contemporâneo. O livro, que ganhou o Prêmio Jabuti de 2010, ao longo de seus três ensaios analisa a relação subjetiva da depressão com o tempo e com a temporalidade, dialogando com conceitos filosóficos de Henry Bergson e Walter Benjamin.

O texto de Kehl é acessível, profundo e pertinente. Segundo a autora, “Freud privatizou o conceito de melancolia; seu antigo lugar de sintoma social retornou sob o nome de depressão”. Para ela, o atual aumento das depressões demonstra-se sintoma social, uma vez que, em desacordo com a normatividade social, denuncia as contradições de uma época.

Para analisar os depressivos em relação ao discurso social, Maria Rita Kehl pormenoriza alguns desdobramentos práticos de aspectos das condições de manutenção desse discurso, como a relação de urgência e produtividade com o tempo, a fragmentação da experiência narrativa, a efemeridade das vivências, o consumismo, o enaltecimento da fantasia de autoengendramento e desvinculação com as gerações antepassadas.  Continue lendo

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Literatura

Alegorias satíricas

12 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“– O mundo é medíocre – Jed terminou por dizer. – E quem cometeu esse assassinato aumentou a mediocridade do mundo”.
M. Houellebecq, O mapa e o território.

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A revista satírica Charlie Hebdo, cujas ilustrações caricatas e charges críticas provocaram a ira fanática supostamente vingativa de um grupo islâmico radical na semana passada, trazia na capa de sua última edição o polêmico escritor francês Michel Houellebecq, desenhado como espécie de mago, a dizer uma frase que resume com ironia o cenário de seu último livro, Soumission, lançado agora na França: “Em 2015, eu perco meus dentes. Em 2022, eu cumpro o Radamã”. A narrativa supõe um mundo tiranizado por um governo islâmico radical. O autor, conhecido por suas posições polêmicas, muitas vezes mal-educadas, já havia sido processado por afirmações na mídia francesa como “o islamismo é a religião mais estúpida” e, prudente, interrompeu por ora o lançamento do livro. No Brasil, a editora Alfaguara declarou a intenção de sua publicação neste primeiro semestre.

Houellebecq em 2010 venceu o importante Prêmio Goncourt de melhor romance do ano, com O mapa e o território, também polêmico, porém em outro assunto: a arte contemporânea e a questão da representação, sob o viés da apropriação de informações e da cópia. No romance, o autor tece observações mordazes, contemporâneas, concernentes aos valores que regem a produção artística, a crítica e o mercado de arte. O protagonista, deste romance que é considerado de um “realismo depressivo” conforme aponta em artigo Alexandre Pilati, professor de literatura brasileira na UNB, desenvolve a teoria da existência de uma super-consciência do mundo, que renegaria ilusões, apesar de fabricá-las, construindo, com ironia e desesperança, um mundo de relações de espetáculo.

O romance perpassa a vida do artista plástico Jed Martin, como uma perturbadora fábula sobre arte, dinheiro, valores. O autor, para descrever produtos, lugares e personalidades, lançou mão da reprodução literal de notas publicadas originalmente em sites como Wikipédia, bem como em panfletos e reportagens, fato que colocou o livro como alvo e propulsão de uma intensa discussão sobre os limites entre citação e plágio.

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Crítica Literária

A linguagem labiríntica de Khlébnikov

19 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

(Editora Perspectiva, 1977, tradução de Aurora Bernardini)

Eu tinha Ka; nos dias da Branca China, Eva, descendo da neve do balão de André, ou vindo a voz “vai!”, deixados nas neves esquimós os rastros dos pés nus, – esperança – estranharia, ao ouvir essa palavra.

Amenofis IV

Em Ka, o sábio do ano 2222 põe o magro crânio reluzente sobre o dedo ensombreado. A movimentação da cena estática é estonteante. O texto é um acontecimento literário e filosófico profundo. E, “naquela época”, em que se passa a narrativa, pretérito imperfeito amalgamado ao futuro do presente – concretizado pela enigmática inscrição numa pedra, “se a morte tivesse os teus cachos e os teus olhos, eu quisera morrer” –, os homens “ainda acreditavam no espaço e pouco pensavam no tempo”: a criação de cenas intelectuais e fantásticas – ideias personificadas ou coisificadas – na prosa de Khlébnikov sobrepõe-se de maneira vertiginosa. Ka parece querer ser encenado como um filme surrealista – um filme-teatro, que não se decidisse enquanto palco ou coxias, cenário absoluto de si mesmo.

O seu primeiro parágrafo é uma apresentação magnífica, da poesia de sua prosa, da personagem título e da questão, central no conto, do tempo – “Ka vai de sonho em sonho, atravessa o tempo e alcança os bronzes (os bronzes dos tempos)”. Há, ali, tanto o tempo como os tempos. E a localização temporal do narrador, conquanto “tinha Ka”, é: “nos dias da Branca China”, expressão que refere-se, como esclarece a nota da tradutora, à Europa, ao entrar na época da aeronáutica; seu tempo é um espaço, marcado pelo tempo (época) de domínio do espaço aéreo. Tautologia onírica, que resume a ambigüidade de Ka, companheiro da morte – vida na morte –, é fusão do tempo e do espaço.

Uma novela rapsódica, um poema épico em prosa, conto-canto ou viagem transespacial e transtemporal. Khlébnikov criou, através da prosa deste seu Ka, uma charada – fenomenológica e poética, histórica e linguística.  Continue lendo

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história

História filosófica

18 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Se nem todo filósofo deve ser historiador, seria ao menos desejável que todo historiador se tornasse filósofo” – Edward Gibbon.

Afresco de Pompeia

Ensaios de história, de Edward Gibbon, acaba de ser publicado pela editora Iluminuras, sob a tradução cuidadosa de Pedro Paulo Pimenta. O livro reúne textos da juventude do historiador, conhecido sobretudo pelo estudo clássico Declínio e queda do Império Romano. Alguns dos ensaios reunidos no volume são “Ensaio sobre o futuro da história”, “Dos triunfos romanos”, “Situação da Germânia antes da invasão pelos bárbaros” e “Maneiras das nações pastoris”. Gibbon é exemplar representante de uma concepção e um método da história filosófica, como praticada por seus predecessores, Tácito, Montesquieu, Hume.

Pedro Pimenta, também responsável pelo texto de apresentação, pontua a relevância dos textos como complementos à edição condensada brasileira de Declínio e queda (cuja tradução, segundo ele, é “um clássico de José Paulo Paes”, mas exclui duas dissertações de interesse para essa tese geral, uma delas sobre os germânicos, a outra sobre os citas, ou hunos, ambas incluídas neste volume). Pimenta pontua: “O volume que o leitor tem em mãos traz pela primeira vez em língua portuguesa esse escrito de juventude, cujo caráter polêmico e estilo vigoroso caem bem a um jovem autor cheio de ambição e confiança”.

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Literatura

Ficção filosófica

17 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Gabriel Tarde (1843-1904)

Imbricada entre a Viagem ao centro da Terra de Júlio Verne e a Máquina do tempo de H. G. Wells, a ficção filosófica científica Fragmento de história futura, de Gabriel Tarde, propõe, a seu turno, uma visão dos séculos vindouros. A obra, publicada originalmente em 1896, é considerada uma fábula sociológica. Seu narrador vive num futuro distante, por volta do século XXXI, e conta a história de um mundo que não precisa de luz, nem de felicidade: mundo em que, extinto o sol por uma catástrofe, a humanidade decide habitar as entranhas da terra, distante de qualquer vestígio de natureza. Nossos supostos descendentes ‘trogloditas’ – não no sentido de neoprimitivos, mas como representantes de uma artificialização emancipatória da humanidade, responsável pelo florescimento de uma civilização refinada – deram início a uma utopia subterrânea, o nascimento de uma humanidade que pode tirar tudo de si mesma, para a qual a natureza ganha “o encanto profundo e íntimo de uma velha lenda, mas de uma lenda na qual acreditamos”.

O cenário atordoante que a imagem cria, serve para Tarde como desenvolvimento de um experimento ficcional para suas teorias sociológicas. Trata-se de um experimento intelectual para pensar a essência da sociedade humana, através da descrição de uma “humanidade inteiramente humana” resultante da “eliminação completa da Natureza viva, seja animal, seja vegetal, excetuado apenas o homem. Daí, por assim dizer, uma purificação da sociedade”.

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matraca

O encontro entre eternidade e história

16 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Ticiano

Acaba de ser lançado no Brasil o interessante ensaio Pilatos e Jesus, de Giorgio Agamben. Trata-se de uma profunda reflexão sobre o enigma do julgamento de Jesus Cristo à luz da análise da figura de Pilatos, que, segundo Agamben, é a responsável por assegurar o caráter histórico da paixão de Cristo, por ser talvez a única personagem genuinamente humana, de carne e osso, dos Evangelhos. Um homem de quem conhece-se hesitações, o medo, o ressentimento, a hipocrisia, o sarcasmo. Agamben extrai do breve encontro entre Pilatos e Jesus, para além do drama da paixão e da redenção, o encontro único entre o “mundo dos fatos” e o “mundo da verdade”, o embate entre a eternidade e a história.

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Ensaios

Signos em rotação ou: por que artista?  

15 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Marcel Duchamp

A IMAGEM DO MUNDO E A POESIA

A arte responde ao mundo, fala a própria história. Se o “nosso tempo é o do fim da história como futuro imaginável e previsível”, a própria sociedade, como palavra viva e palavra vivida, hoje deve descobrir a figura do mundo na dispersão de seus fragmentos. Paz anuncia daí sua mirada, o “ponto de inserção da poesia que é também um ponto de interseção, centro fixo e vibrante onde se anulam e renascem sem trégua as contradições. Coração-manancial”[i].

Seu poético questionamento debruça-se sobre as “possibilidades de encarnação da poesia”; sua pergunta, não é “sobre o poema e sim sobre a história: será uma quimera pensar em uma sociedade que reconcilie o poema e o ato, que seja palavra viva e palavra vivida, criação da comunidade e comunidade criadora?”. Paz identifica a questão primordial, que une ao presente o passado: a origem poética da língua ao balbuciamento do signo puro do “contínuo transcender-se, desse permanente imaginar-se” que é o poema enquanto tradução do homem, da sua essência ontológica enquanto constante busca de si, sendo o mundo sem cessar de ser ele mesmo.

“[…] o poeta escuta. No passado foi o homem da visão. Hoje aguça o ouvido e percebe que o próprio silêncio é voz, murmúrio que busca a palavra de sua encarnação. O poeta escuta o que diz o tempo, ainda que ele lhe diga: nada”. 

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Crítica Literária

O tempo fabular dos diálogos de Pavese

12 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Cesare Pavese, Diálogos com Leucó. (Cosac Naify, 2011, tradução de Nilson Moulin)

 

“O homem mortal, Leucó, só tem isso de imortal. A lembrança que carrega e a lembrança que deixa. Nomes e palavras são isso. Diante da lembrança sorriem também eles, console-se”. 

 

 

Diálogos com Leucó é um livro de ressoares, de ressonâncias. Um conjunto reflexivo, em tom enigmático que, com erudição e um humor cáustico, brinca com as histórias mitológicas, humanizando-as, desmistificando-as, dando-lhes vida através da espontaneidade que carrega naturalmente consigo o que se diz em forma de conversa.

Lucidez e uma frustração resignada penetrante, juntas, permeiam os comentários, que tecem uma visão peculiar da natureza humana, pois, feitos sobretudo por seres mitológicos, delineiam-lhe um panorama, perspectivado psicológica e antropologicamente, pessimista e irônico: “O que são os mortais senão sombras precoces?”

Travados sobretudo por ninfas, sátiros, deuses, heróis, os diálogos tem um tempo próprio, tempo poético da humanização, por um lado, da condensação vocabular de pensamentos e significados, por outro: um ponto de encontro que embasa uma profunda reflexão sobre a morte e a poesia; sobre o homem, a vida, o destino, o amor. Desenvolvidos neste entroncamento, os Diálogos com Leucó são o diálogo do tempo consigo mesmo. Apresentam um tempo mitológico, ele próprio fabular, metáfora em forma de imortalidade.

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