Arquivo da tag: contos

Literatura

O grotesco como revelação

2 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

A literatura de Flannery O’Connor (1925 – 1964), ao longo de seus Contos completos, publicados pela Cosac Naify em 2008, são marcados por uma arguta inteligência, por um estilo direto e por caracterizações, de personagens, situações e ambientes, imageticamente complexas, de uma realidade profunda, significativamente ampla. Seus temas giram em torno, sobretudo, do fundamentalismo protestante do sul dos Estados Unidos e da esterilidade espiritual que marca o mundo moderno. Suas narrativas colocam em questão as noções de bem e mal, através de personagens grotescas, muitas vezes colocadas em situações violentas, em que falta-lhes piedade, ou mesmo diálogo. São contos perpessados pelo ódio racial, pela violência, por vezes velada, outras brutalidade sem subterfúgios, pela religiosidade decadente e dogmática. Seu nome é associado na literatura norte-americana ao gótico sulista de William Faulkner, Carson McCullers e Tennessee Williams.

Flannery  O’Connor é considerada uma das maiores escritoras norte-americanas do século XX. Continue lendo

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lançamentos

A prosa precisa de Bábel

14 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Kandisnky, “Der Blaue Reiter”

A Editora 34 acaba de lançar No campo da honra e outros contos, do russo Isaac Bábel, com tradução de Nivaldo dos Santos e prefácio de Boris Schnaiderman.

O volume reúne 32 contos, a maior parte em sua primeira tradução direta para o português. São textos produzidos ao longo de toda a carreira literária de Bábel, provas de seu estilo sintético, essencial, inigualável. Aqui o leitor pode ter acesso tanto ao seu primeiro conto, publicado em 1913, quanto ao último, “O julgamento”, publicado em 1938. A seleção contempla todos os temas caros à produção literária de Bábel, os relatos da infância vivida na Moldavanka, o bairro judeu de Odessa, as histórias de sua juventude aventureira, os contos surpreendentes sobre a guerra.

O chamado ciclo “No campo de honra” foi inciado por Bábel no início de 1920, quando publicou, na revista político-literária Lava, um conjunto de quatro contos, inspirados na obra de Gaston Vidal sobre a 1ª Guerra Mundial.

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Guia de Leitura

Artistas plásticos brasileiros contemporâneos que escrevem romances, prosa em contos, versos em prosa.

11 outubro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

A literatura dialoga naturalmente com as artes plásticas, ao passo que ambas criam imagens e narrativas que desenham diferentes sentidos, desvendam e suscitam inusitadas relações. As imagens, entre economia verbal e objetividade, criam correspondências ricas entres o que as palavras dizem e o que os olhos vêem. Um artista plástico que escreve literatura tem à mão a possibilidade de intercalar ambos os trabalhos.  

 

Nuno Ramos, “Ó”

Nuno Ramos, principal referência contemporânea brasileira quando se pensa em artista plástico escritor, cria uma fantasia rapsódica com seu Ó. Vertiginosamente, seus capítulos compõem um labirinto em torno desta letra palavra tão ambivalente, por vezes quase material, num dedo que aponta, ou substantivada, para expressar desdém, ou como prelúdio a uma resposta inesperada e não convencional. Ó: uma palavra quase corpórea, quase sempre indicial. Encabeçado por ela – que mesmo só é palavra na medida em que compreendida num contexto cultural popular –, o livro de Nuno Ramos é sensorial.

 

Alberto Martins, “Lívia e o cemitério africano”

No livro Lívia e o cemitério africano, o artista Alberto Martins criou uma composição de capítulos curtos que tanto se completam quanto se contrapõem bruscamente, criando, na passagem e no confronto entre eles, novas possibilidades de leitura e, entre eles, inseriu dezesseis páginas de xilogravuras, em momentos cruciais da narrativa, que desempenham a mesma função ambivalente.  A movimentação das histórias reverberam nos passeios das personagens, uma metalinguagem da própria dificuldade de estabelecer verdades internas. Em seus trabalhos, Alberto Martins consegue que as expressões literária e plástica preservem suas autonomias, apesar de se impregnarem mutuamente. Nos poemas, nas gravuras e nos romances – e principalmente nos seus encontros – Alberto Martins trabalha quase no limite da sugestão.

 

Giselda Leirner, “Naufrágios”

Giselda Leirner, em Naufrágios, constrói um livro de fragmentos e destroços de história. Nesta coletânea de contos, fragmentos de vida escritos na primeira pessoa, autora, narradora e protagonistas muitas vezes se confundem, amalgamam-se ao mesmo tempo que são estranhas a si mesmas, sombras de sombras: simbolizam o esquecido e recalcado e encaminham ficção e realidade a mostrarem-se inextricáveis. A escritura e a vida duplicam-se mutuamente, e somos lembrados disso ao longo do livro, uma metaliteratura, a movimentar sentidos de existência. A escrita é uma roupa mortuária, que conserva a existência; de uma vida que naufraga, restam as palavras, concretudes de nostalgias.

 

Fernando Vilela, “Lampião e Lancelote”

 

O pintor e xilogravurista Fernando Vilela é também autor de contos infantis, como o belíssimo Lampião e Lancelote, publicado pela CosacNaify, vencedor do prestigioso prêmio Bologna Ragazzi, menção honrosa conferida na Feira do Livro de Bolonha. Esta obra extremamente original mescla linguagens diversas: verso, na sextilha do cordel sertanejo; prosa, no tom das narrativas épicas da cultura medieval; carimbo e xilogravura.

 

 

Livros polimórficos, que desdobram o caráter mágico da linguagem e resguardam em si o reino dos simulacros e dos reflexos – enquanto simulacro, a linguagem é o próprio símbolo da materialização da ideia, plasticidade que interioriza as condições de realidade vivida, ou como diria Deleuze, “é a instância que compreende uma diferença em si”.

 

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Literatura

Literatura com a curva e com a pedra

25 setembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

2014 marca 40 anos do falecimento do uruguaio Juan Carlos Onetti, um dos maiores autores do século XX. O livro 47 Contos abarca toda a produção de prosa curta deste escritor que, chamado em seu país de “padrinho oculto e inquietante da literatura latino-americana do século XX”, magistralmente une tragédia e humor. Traduzido por Josely Vianna Baptista, foi lançado pela Companhia das Letras em 2006.

Onetti escreveu seus contos entre 1933 e 1993 e os publicou esparsamente em periódicos. São textos marcados por uma visão de mundo tão lúcida quanto corrosiva. O escritor dizia encontrar seus temas em “sonhos diurnos”, por um “impulso onírico”. Sua literatura muito original, acompanha, com o uso poético da linguagem, a decadência contínua do homem, através de caminhos sinuosos e amargos.

Suas personagens são complexas e, regidas pelo inconformismo e pelo desencanto, transitam pelo espaço mítico da fictícia cidade de Santa María. Esse não-lugar, um pedaço de sonho de uma personagem, é cenário de diversos contos do escritor uruguaio, abriga seus desesperançados anti-heróis, representantes de uma classe média que vaga – geográfica, histórica e existencialmente –, à deriva.  Continue lendo

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Literatura

Entre a urbanização e a floresta

14 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Manaus, foto de Pedro Martinelli

A cidade ilhada, de Milton Hatoum, foi o primeiro livro de contos do autor manauense. As histórias são compostas por relances de sua experiência vivida, através de tramas brevíssimas, marcadas por uma dicção enxuta que lhes permite ter completa nitidez e poder de iluminação. As histórias nascem dos temas mais diversos: a primeira visita a um bordel em “Varandas da Eva”; uma passagem de Euclides da Cunha em “Uma carta de Bancroft”; a vida de exilados em “Bárbara no inverno” e em “Encontros na península”; o amor platônico por uma inglesa em “Uma estrangeira da nossa rua”. Hatoum trabalha esses fragmentos da memória até que adquiram outro caráter e então, adventos ao mesmo tempo do acaso e da biografia pessoal, eles afinal possam apresentar-se como imagens exemplares do curso geral dos desejos e fracassos. Sob esse curso, a fatalidade do centro imóvel do autor: “para onde vou, Manaus me persegue”.  Continue lendo

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Literatura

De delgadas raízes

28 abril, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Era preciso fechar a janela: a chuva estava batendo no peitoril e espirrando no soalho e nas poltronas. Com um som fresco, escorregadio, enormes espectros de prata corriam pelo jardim, através da folhagem, pela areia alaranjada. A calha tremia e engasgava. Você estava tocando Bach. A tampa laqueada do piano erguida, debaixo dela uma lira, e os martelinhos batiam nas cordas. A toalha de brocado, amassada em dobras ásperas, tinha escorregado um pouco da cauda, derrubando uma partitura aberta no chão. De quando em quando, em meio ao frenesi da fuga, seu anel batia na tecla enquanto, incessante, magnífica, a chuva de junho atacava as vidraças.  E você, sem parar de tocar, a cabeça ligeiramente inclinada, exclamava, no ritmo da música: ‘A chuva, a chuva… Eu vou afogar a chuva…’ […]”.

 

São 68 Contos reunidos, que Vladimir Nabokov escreveu entre os anos 1920 e 1950, a maioria deles traduzidos pela primeira vez para o português, por José Rubens Siqueira. Reunidos cronologicamente, esses contos revelam a engenhosidade do estilo de Nabokov, veia por onde correram sua criatividade inventiva e uma ironia sagaz, destiladas pelo passar dos anos.  Continue lendo

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Literatura

Como o brilho da chuva

14 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Essa coisa brilhante que é a chuva, livro de contos de Cíntia Moscovich, foi o vencedor do Prêmio Portugal Telecom na categoria contos/crônicas – na categoria poesia, o vencedor foi Eucanaã Ferraz e na categoria romance, José Luiz Passos. Essa coisa brilhante que é chuva também foi um dos vencedores do Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional em 2013 – prêmio em que, na categoria de romance, o vencedor foi Opisanie Swiata, de Veronica Stigger. Esse foi o sétimo livro de Cíntia Moscovich publicado. As narrativas giram em torno sobretudo de laços familiares instáveis, um tema recorrente em sua obra, e de personagens confrontados com as limitações de  seus próprios corpos, todos os contos permeados de maneira interessante por temas corriqueiros.

O livro é composto de uma maneira que lembra um longo poema Continue lendo

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Literatura

Leitura alegórica da linguagem transparente

31 janeiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

 

 

“A descoberta não me espantou e

tampouco me surpreendi ao retirar

do bolso o dono do restaurante”.

 

 

Murilo Rubião foi um autor que preferiu reescrever exaustivamente seus textos, a produzir uma obra extensa. Publicou 33 contos, que a Companhia das Letras reuniu nesta antologia. Sua literatura é conhecida pelo caráter absurdo que imiscui-se ao cotidiano – seus personagens lidam com o fantástico com a mais pura naturalidade. Nas palavras de Jorge Schwartz, na literatura de Rubião “acontecimentos referencialmente antagônicos e inconciliáveis conciliam-se tranqüilamente pela organização da linguagem. Dragões, coelhos e cangurus falam, mas não há mais o clássico “enigma” a ser desvendado no final”. Para Schwartz, “o fenômeno fantástico de sua escrita é justificado na medida em que há a percepção dos níveis simbólicos e alegóricos de significação”, e as simbologias despertadas em seus contos, segundo o crítico fazem com que o elemento extraordinário não seja “a presença dos dragões no meio humano, mas a condição do meio e das relações nele criadas. Aqui um paralelismo possível com as obras de Kafka. Na Metamorfose o fantástico deixa de ser Gregório, convertido em monstruosa barata e fantásticas são as reações da família diante do fato. Em Murilo e Kafka, o código social possibilita a leitura ideológica e não se trata de simples recriação na leitura do fantástico”.

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Literatura

Nas beiradas da existência

16 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

alice munro_felicidade demais_II

Vencedora do Prêmio Nobel de literatura neste ano, a canadense Alice Munro é considerada “mestra do conto contemporâneo”. Segundo a Academia Sueca, as histórias de Alice “se desenvolvem geralmente em cidades pequenas, onde a luta por uma existência decente gera muitas vezes relações tensas e conflitos morais, ancorados nas diferenças geracionais ou de projetos de vida contraditórios”.

É interessante a premiação ter sido concedida a uma autora dedicada aos contos, que, comumente, são considerados mera etapa literária na carreira de um escritor, a ser superada na posterior escrita de um romance, um reles estágio experimental. A própria escritora, em entrevista à revista New Yorker, afirmou: “Por anos e anos imaginei que contos eram apenas um treino até eu ter tempo de escrever um romance”.  Continue lendo

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