Literatura

Realidade ou ficção?

21 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Margaridas”, Odilon Redon

Lançamento da Companhia das Letras, Flores artificias, de Luiz Ruffato, conta uma história que se passa com o próprio escritor, que  recebe em sua casa a correspondência de um desconhecido. Trata-se de um manuscrito, que reúne memórias de um engenheiro, funcionário graduado do Banco Mundial, Dório Finetto, escritas ao longo das suas inúmeras viagens a trabalho, como consultor de projetos na área de infraestrutura. Suas narrativas, contudo, apesar de despretensiosas literariamente, mostram um observador arguto e sensível e uma personagem capaz de se misturar com naturalidade num grupo de desconhecidos. A partir dessas observações, Finetto compôs o livro que manda à casa do escritor Ruffato Viagens à terra alheia, com histórias narradas que não foram vividas pelo próprio Finetto, e sim por pessoas que ele teria conhecido em viagens ao redor do mundo. Este livro dentro do livro Ruffato transforma no romance Flores artificiais. Partindo de um esqueleto ficcional, Ruffato, enquanto autor, não enquanto personagem do próprio livro, brinca com as fronteiras entre ficção e realidade. O livro é marcado pela força literária que é particularidade de sua obra.

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Literatura

Insignificante essência da vida

18 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

A Companhia das Letras lança hoje A festa da insignificância, o mais novo livro do tcheco Milan Kundera. No romance, o autor coloca em cena quatro amigos parisienses que vivem numa deriva inócua, característica de uma existência contemporânea esvaziada de sentido. Os amigos constatam que as novas gerações já se esqueceram de quem era Stálin, perguntam-se o que está por trás de uma sociedade que, em vez dos seios ou das pernas, coloca o umbigo no centro do erotismo. Profundo, ironicamente conformista, na forma, que lhe é cara, de uma fuga com variações sobre um mesmo tema, Kundera transita com naturalidade entre a cidade de Paris de hoje e sua vida esvaziada e a União Soviética de outrora, traçando um paralelo entre essas ambas as épocas e parodiando o stalinismo. Seu romance problematiza o pior da civilização e ilumina problemas da humanidade e do mundo, porém o faz com delicioso humor e mordacidade, mostrando com crueza lírica a insignificância da existência humana.

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cinema

Aos cinéfilos

17 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O livro A arte do cinema é um estudo de grandioso fôlego intelectual. Marcado pela erudição da análise dos autores, David Bordwell e Kristin Thompson, é considerado já um dos estudos canônicos de cinema, desde sua primeira publicação, em 1979. As, até hoje, ininterruptas reedições fazem com que o livro perdure inalteravelmente relevante.

Trata-se de uma profunda e respeitável introdução e análise da sétima arte, abordando uma vasta gama de exemplos, de vários períodos e países. O livro propõe-se a oferecer as ferramentas para que estudantes de cinema e jovens críticos possam desenvolver o repertório e as habilidades para compreenderem quaisquer filmes, de quaisquer gêneros. A obra é impressionante pela extensão da formação cinéfila de Bordwell e Thompson. Seu tratamento da arte do cinema apresenta-o como todo orgânico e abrange-o como embasamento a uma introdução à própria ciência do olhar.

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matraca

Um grão de sal aberto na boca do bom leitor

16 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Retrato de Herberto Helder, por Frederico Penteado

O poeta português Herberto Hélder (nascido em Funchal, em 23 de Novembro de 1930) é considerado um dos mais inventivos autores da poesia contemporânea. Figura em volta da qual paira uma atmosfera mística, concedeu sua última entrevista em 1968 e desde então vive em auto-reclusão em Lisboa, com a mulher, Olga. Em 1994, recebeu o Prêmio Pessoa, que recusou, como recusa todos os prêmios que recebe – “Seria vil aceitar, por causa do dinheiro”, disse. Neste ano, seu nome foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura.

Neste mês de junho, ele lançou, pela Editora Porto, de Portugal, seu mais recente livro, A morte sem mestre. É notável a longeva produtividade do autor, cujo livro anterior, Servidões, havia sido lançado apenas um ano antes. Sua poesia, tal qual sua personalidade, é enigmática. Uma constante transgressão regula a pontuação e submete os padrões à desorganização e a um fluxo verbal que encanta e abala e cria uma linguagem única. Ao abrir A morte sem mestre, o leitor encontra a advertência do poeta: “Tudo quanto neste livro possa parecer acidental é de facto intencional”; ao que acrescenta: “Peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido/seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro”.

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matraca

A perspectiva em perspectiva

15 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

ícone conhecido como Theotokos de Vladimir, 1131.

O russo Pável Floriênski (1882-1937) foi matemático, inventor, geólogo, filósofo, teólogo e padre da Igreja Ortodoxa. Foi morto num campo de concentração soviético aos 55 anos. Seu ensaio A perspectiva inversa, originalmente publicado em 1919, é considerado um de seus mais importantes legados intelectuais.

Desenvolvido no entroncamento de seus múltiplos saberes, trata-se de uma reflexão sobre a representação do espaço na perspectiva inversa e na perspectiva linear, bem como as visões de mundo que ambas as formas podem acarretar.

O livro foi publicado no Brasil em 2012 pela Editora 34, com tradução de Neide Jallageas e Anastassia Bytsenko e apresentação de Neide Jallageas. Nele, Floriênski antecipa questões fundamentais da história da arte no Ocidente, analisando criticamente o domínio da representação objetiva da realidade, bem como a tendência das obras a buscarem, no observador, um ponto de vista estático e abstrato. Continue lendo

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Literatura

Entre a urbanização e a floresta

14 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Manaus, foto de Pedro Martinelli

A cidade ilhada, de Milton Hatoum, foi o primeiro livro de contos do autor manauense. As histórias são compostas por relances de sua experiência vivida, através de tramas brevíssimas, marcadas por uma dicção enxuta que lhes permite ter completa nitidez e poder de iluminação. As histórias nascem dos temas mais diversos: a primeira visita a um bordel em “Varandas da Eva”; uma passagem de Euclides da Cunha em “Uma carta de Bancroft”; a vida de exilados em “Bárbara no inverno” e em “Encontros na península”; o amor platônico por uma inglesa em “Uma estrangeira da nossa rua”. Hatoum trabalha esses fragmentos da memória até que adquiram outro caráter e então, adventos ao mesmo tempo do acaso e da biografia pessoal, eles afinal possam apresentar-se como imagens exemplares do curso geral dos desejos e fracassos. Sob esse curso, a fatalidade do centro imóvel do autor: “para onde vou, Manaus me persegue”.  Continue lendo

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Crítica Literária

Algo sério para ser cômico

11 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Ótimo lançamento da CosacNaify, a coletânea O valor do riso e outros ensaios, de Virginia Woolf, chega às livrarias, cuidadosamente traduzido pelo crítico e poeta Leonardo Fróes, também responsável pela organização e pelas notas do livro. O volume reúne 28 ensaios, a maioria com tradução inédita no Brasil.

Os ensaios foram escritos entre 1905 e 1940 e originalmente publicados como artigos para jornais e revistas com os quais Virginia colaborava. É possível notar nestes textos a escrita precisa, mesmo talento da ficcionista que, aplicado ao gênero ensaístico, mostra um olhar mais mundano, de um observador atento, ou que, investido nas resenhas, revela uma crítica perspicaz e militante.  Continue lendo

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Literatura

Sob o nome tonitruante de Stálin

10 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O russo Óssip E. Mandelstam (1891-1938) é um dos maiores escritores do período soviético e do século XX. No Brasil, de sua autoria, há apenas o volume que reúne O rumor do tempo e Viagem à Armênia (respectivamente, de 1925 e 1932-33), publicado pela Editora 34 e traduzido por Paulo Bezerra. Ambas narrativas, de caráter memorialístico e reflexivo, representam com amplitude intelectual o cruzamento de culturas, vozes e estilos que povoam o universo deste tão singular autor.

Óssip E. Mandelstam faleceu tragicamente em uma prisão na Sibéria durante a era de terror stalinista. Após escrever um poema anti-stalinista, “Epigrama de Stalin” – em que o ditador aparece com enormes bigodões de barata –, foi preso, em 1934. Morreu por inanição.  Continue lendo

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Crítica Literária

Morte da tragédia, crise da cultura

8 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Frederic Leighton, “Electra”

“O que eu identifico como ‘tragédia’ em sentido radical é a representação dramática ou, mais precisamente, a prova dramática de uma visão da realidade na qual o homem é levado a ser um visitante indesejável no mundo”.

Composto de início como tese de doutoramento a ser defendida na Universidade de Oxford, A Morte da Tragédia, de George Steiner, trabalho foi a princípio, tragicomicamente, condenado, pois sua redação não atendia às exigências de uma boa dissertação acadêmica. Mais tarde, não só o ensaísta tornou-se professor na referida universidade, como este escrito transformou-se em obra de referência na crítica e nos estudos sobre o destino da tragédia

Steiner, notório por seu humor e ironia, apura neste ensaio os sentidos para ler e escutar inclusive os detalhes lexicais e tonais e identificá-los como sintomas do declínio que busca descrever. Assim, na esfera da linguagem, ele interpreta o fenômeno trágico como expressão determinada não pela vida, mas sim por uma ideia que resume uma visão de mundo. A tragédia é, nos termos do próprio autor, uma “metafísica do desespero”.  Continue lendo

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Literatura

O raio que caiu duas vezes no mesmo lugar

7 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Damien Hirst, “The black sheep with golden horns (Divided)”, 2009

A CosacNaify lança hoje o livro A ovelha negra e outras fábulas, do escritor Augusto Monterroso, traduzido por Millôr Fernandes. A mesma tradução havia sido publicada pela editora Record em 1983, mas aquela edição, que contava também com ilustrações de Jaguar, estava há muito esgotada no Brasil. Esta nova edição, muito bem vinda ao mercado brasileiro, reelaborou completamente o projeto gráfico, obtendo um bonito resultado.

Augusto Monterroso nasceu em Honduras, foi criado na Guatemala e escolheu o México para viver. É conhecido por suas coleções de relatos breves e hiperbreves, marcados por uma singular inventividade. Em 2000, ganhou o prestigioso Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras pelo conjunto de sua obra. “O dinossauro”, uma de suas obras mais célebres, é considerado o menor conto da literatura mundial: Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. 

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cinema

Obra testamento

4 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

[…] A fome latina, por isto, não é somente um sintoma alarmante: é o nervo de sua própria sociedade. Aí reside a trágica originalidade do Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida”. – Glauber Rocha, “Eztetyka da fome”.

cena do filme “Terra em transe”

Da coleção Glauberiana, preparada pela CosacNaify há exata década, só resta disponível este fascinante Revolução do cinema novo. A proposta da coleção foi reeditar toda a obra crítica e literária de Glauber Rocha (1939-1981). Com coordenação editorial de Augusto Massi e Ismail Xavier, foram publicados três volumes: Revisão crítica do cinema brasileiro, Revolução do cinema novo, O século do cinema.

Revolução do cinema novo, escrito pelo diretor após a finalização de A idade da Terra, seu último longa-metragem, em 1980, é considerado uma obra testamento. O livro é dividido em duas partes distintas. A primeira reúne artigos publicados ao longo dos anos anteriores e retoma debates e entrevistas. Nela, estão incluídos textos fundamentais como o célebre artigo “Eztetyka da fome”, síntese sobre o cinema novo aos europeus, apresentado na Retrospectiva do Cinema Latino-Americano, em Gênova, em 1965 e “Eztetyka do Sonho”, de 1971.  Continue lendo

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Literatura

Simplesmente, sua vida tinha um fundo trágico.

3 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

– Vá embora – disse Sandra, mas deixou a porta aberta.

Arrecife, de Juan Villoro, conta a história de Tony Góngora, que, tendo perdido boa parte da memória em consequência do abuso de todo tipo de drogas na juventude, aceita o convite de seu melhor amigo, Mario Müller, para trabalhar num resort no Caribe mexicano. Lá, tornou-se conhecido por oferecer aos clientes uma experiência extrema: o perigo controlado. Os turistas passam a ir ao luxuoso hotel dispostos a encarar situações-limite e violência em pequenas doses, numa programação recreativa que inclui sequestros-relâmpago e encontros com guerrilheiros. Até que um mergulhador do hotel aparece morto com um arpão atravessado nas costas. Uma história de crime, de amizade, amor e redenção.

A narrativa acontece em dois planos: um, o México dos anos 60, 70, da contracultura; outro, nos dias de hoje, no país em que o turismo rompe limites. O livro é político e questiona o turismo narcótico que, em última instância, Villoro entende como uma busca por perigo.

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matraca

В озере моих слов – Nas águas das minhas palavras

2 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Velimir Khlébnikov por Burliuk

O poeta russo Velimir Khlébnikov (1885-1922), foi, segundo Roman Jakobson, um dos mais inventivos autores do século XX. Khlébnikov foi mentor da vanguarda cubo-futurista e criou a linguagem zaúm, ou transmental, que é formada por sons abstratos. Seu trabalho exerceu forte influência na obra de Vladimir Maiákovski e em todo o movimento vanguardista da poesia russa.

A editora Bem-te-vi acaba de lançou recentemente a coletânea Eu e a Rússia, com textos escritos entre 1908 e 1922, selecionados e traduzidos por Marco Lucchesi, poeta, romancista, tradutor e professor de Literatura da UFRJ. A publicação é uma versão revista e ampliada de um pequeno livro independente lançado nos anos 1980.

O volume traz poemas que abordam os principais temas do autor: a curiosidade pelo espaço geográfico, o encanto com a cultura do Oriente, a paixão pela língua – expressa na exploração das raízes das palavras e de sua etimologia e na criação de neologismos. Continue lendo

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matraca

Um estudo da tradução é um estudo da linguagem

1 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Deveria uma boa tradução amoldar sua língua em direção daquela do original, criando assim uma aura deliberada de estranhamento, de opacidade periférica? Ou deveria naturalizar o caráter da importação linguística de modo a torná-la familiar na língua do tradutor e de seus leitores?”

“A torre de Babel”, Pieter Brueghel, 1563.

Publicado pela primeira vez em 1975, Depois de Babel mantém sua relevância intacta. Uma das mais importantes obras de George Steiner, marcada pelo manejo preciso da erudição que marca sua produção, discute, a partir dos problemas levantados por questões da tradução, a linguagem humana e o fenômeno literário de maneira geral. Um livro cuja contribuição atinge não apenas estudiosos da tradução, mas todos os que se interessam por literatura, linguística e filosofia, do qual pode-se dizer que é uma das grandes obras de nosso tempo.

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Literatura

Honestidade implacável

30 junho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

desenho de Saul Steinberg

A Companhia das Letras lançou em março Um outro amor, segundo volume de Minha luta, o monumental projeto autobiográfico do escritor norueguês Karl Ove Knausgård – projeto que, ao todo, é composto por seis romances divididos em mais de seis mil páginas que revelam os detalhes mais íntimos da vida do autor e de seus familiares. No ano passado, a editora publicou A morte do pai, em que o leitor acompanha a infância do autor e o processo destrutivo que levou seu pai a beber até a morte. Neste segundo volume, Knausgård narra o início turbulento de seu segundo casamento e a descoberta da paternidade, conflituosa com suas ambições literárias. No livro, ele conta como, depois de se separar da primeira mulher, deixou Oslo e mudou-se para Estocolmo, onde começou uma nova vida, experimentando a perspectiva de estrangeiro.

Uma conversa com amigos durante o jantar pode se estender por cem páginas; saltos no tempo e lembranças revividas demonstram o pleno domínio do autor, cuja prosa concilia narrativas de episódios pontuais a longas digressões ao tempo interno das personagens. Na construção narrativa de Knausgård, as fronteiras entre memória e invenção são diluídas a tal ponto que a sua vida é recriada e ressignificada. Continue lendo

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