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Descrição do mundo

1 outubro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Autora do recém-lançado Opisanie świata, Verônica Stigger tem gostos especiais: estudiosa de arte contemporânea, defendeu uma tese a respeito da relação entre arte, mito e modernidade, pensando sobretudo as obras de Marcel Duchamp, Kurt Schwitters, Piet Mondrian e do russo K. Malevitch; em seu pós-doutorado, debruçou-se sobre os trabalhos dos artistas brasileiros Flávio de Carvalho e Maria Martins, entre outros. Talvez a proximidade com a arte contemporânea, seu estranhamento e suas inversões metalinguísticas, tenham analogia com a desenvoltura dos textos de Verônica enquanto capazes de suscitar um esvaziamento das questões estéticas, provocado pelos entroncamentos de absurdismos cotidianizados, cujos sentidos são políticos e morais dentro da esfera artística em que estão inseridos enquanto obras.

Há algo de uma indigesta sinceridade em sua prosa que ultrapassa o absurdo dos seus enredos – e justamente por ultrapassá-lo, confere-lhe um (absurdo) caráter de necessário. Algo do cotidiano vaguear do lúdico no real, estranhamento mágico da fuga ideológica e um pouco apática à naturalização tragicômica da violência.

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Interconexões entre história e filosofia

30 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

No livro Ontologia histórica o filósofo canadense Ian Hacking, partindo da arqueologia do saber de Foucault, desenvolve um raciocínio contundente a uma compreensão do mundo contemporâneo que une, na mesma raiz, fenômenos distintos como abuso infantil e posterior desenvolvimento emocional, traumas de doenças mentais transitórias, o papel da linguagem, da verdade e da razão na apreensão da realidade. Através do conceito de ontologia história, o autor sugere novos modos para que a filosofia possa utilizar a história e, em especial, como ele próprio faz uso da obra arqueológica inicial de Foucault, que, segundo diz, “é uma fonte quase infinita de inspiração”.

Traduzido do inglês por Leila Mendes e publicado no Brasil pela editora da universidade Unisinos, o livro é uma reunião de palestras, artigos e ensaios escritos entre 1973 e 1999. O texto do primeiro capítulo, cujo título dá nome ao livro, foi escrito por ocasião de uma palestra que Ian Hacking foi convidado a proferir, no Departamento de História da Ciência na Universidade de Harvard, a respeito de interconexões entre história e filosofia. Continue lendo

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A libertação de Creta

27 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Interessante lançamento deste segundo semestre, outra tradução direta do grego do escritor Nikos Kazantzákis, O capitão Mihális (liberdade ou morte), pela editora Grua, em tradução de Silvia Ricardino. A editora já havia publicado Vida e proezas de Aléxis Zorbás, primeira tradução diretamente do grego do autor no Brasil, feita por Marisa Ribeiro Donatiello e Silvia Ricardino; a história deste livro tornou-se mundialmente conhecida após sua adaptação para o cinema, no filme “Zorba, o grego”, de 1946. Nikos Kazantzákis é considerado um dos maiores escritores do século XX. Apesar de não ter ganho o Prêmio Nobel – foi indicado por Thomas Mann e Albert Schweitzer e perdeu-o, por um voto, para Albert Camus – ganhou, porém, o Prêmio Internacional da Paz, em 1956.

Nikos Kazantzákis nasceu em 1883 na ilha de Creta, ainda sob domínio turco, e morreu na Alemanha em outubro de 1957. Escreveu sua obra tanto em francês como no dialeto grego demótico, linguagem coloquial da classe trabalhadora de Creta. Continue lendo

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Poetas do Repente

26 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Uma viola e a predisposição à rima, preferencialmente simpática, quase sempre jocosa, às vezes absurda, ou humanamente dramática, têm, na cultura popular brasileira, um dos pontos culminantes nos espontâneos poemas musicados conhecidos como repentes. O improviso, incrivelmente rápido, cabe ao cantador, poeta e repentista – a cantoria, no ritmo da viola, é harmonizada de acordo com a cadência do verso. O nome vem do repentino, do de repente.

Há pouco material literário sobre os repentes, porém uma publicação ótima: Poetas do repente, publicado pela editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco (órgão do Ministério da Educação); um livro acompanhado por quatro documentários em DVD e trilha sonora em CD, em edição bilíngue – português e inglês.

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A poética contemporânea de Antonio Cicero

25 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Político, poético, o trabalho de Antonio Cicero, infinito jogo de espelhos, vem se construindo de maneira ambivalente e coerente. Seu mais recente livro, Porventura, publicado pela editora Record e indicado como finalista ao prêmio Jabuti deste ano, é uma coletânea de poemas escritos desde 2002 e traz muito deste seu caráter intelectual multifacetado.

Antonio Cicero é conhecido também como filósofo, em 1995 publicou o livro de ensaios O Mundo desde o Fim, um questionamento sobre o moderno e a modernidade, que propõe uma concepção de cogito ultracartesiano. Em 2012, a editora Civilização Brasileira publicou seu mais recente livro de ensaios, Poesia e filosofia. Outra de suas facetas, porém, é a parceria com músicos populares brasileiros como João Bosco, Marina Lima (sua irmã) e Lulu Santos. Também foi longa sua parceria com o poeta e letrista Waly Salomão. Pode-se dizer de maneira geral que no trabalho deste poeta filosófico o limite entre o popular e o erudito é constantemente transposto.

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Vertiginosas perspectivas

24 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone
Capa do livro Sobre São Paulo, de Claudia Jaguaribe

Capa do livro “Sobre São Paulo”, de Claudia Jaguaribe

A cidade de São Paulo é a protagonista do quase centenário desvairismo: a alcunha dada por Mário de Andrade nunca deixou de ser-lhe marcante e a cidade vem tornando-se cada vez mais desvairada, mais massacrante – ainda assim, ou justamente por isso, assunto e metáfora para uma poesia única. Num livro de uma página só, Sobre São Paulo, a fotógrafa Claudia Jaguaribe consegue captar a dimensão monstruosa e dicotômica da cidade caótica, a poesia paulistana: suas fotos carregam a indiferença do centro urbano – uma das traduções do cosmopolitismo contemporâneo –, mas suas montagens resguardam-lhe um aspecto lúdico profundo. Especialmente nas fotografias noturnas, um impulso lírico quase faz-se soar levemente das luzes e dos arabescos refletidos.

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Nove contos de Beatriz Bracher

23 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

imagem da capa do livro Garimpo, autora Beatriz BracherBeatriz Bracher é uma escritora cinematográfica. Talvez a analogia óbvia com seu ofício de roteirista pareça, a princípio, infame; é possível que seja. Mas é baseada na observação de que a construção das personagens e cenas em seus livros é feita de maneira que elas são quase visíveis, tão bem a prosa de Beatriz lida com os silêncios e intervalos, discretos e despretensiosos, da fala natural cotidiana.

Ao longo dos nove contos que compõem o seu novo livro, Garimpo, lançado pela Editora 34, percebe-se também sua versátil coerência. Os contos não tem padrão de tamanho, de linguagem, de estilo – há irreverentes diálogos de internet, ou anotações antropológicas do diário de viagem de uma escritora, por exemplo.

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Joseph Roth: escritor andarilho

19 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Há um interesse peculiar pelos andarilhos, pelos errantes. Dizia-se que Robert Walser o era; Michel Foucault destrincha os significados sociais dos hospícios como prisões, bem como do reforço da criação de um imaginário popular que relaciona a caminhada desinteressada à loucura; o cineasta brasileiro Cao Guimarães, no longa “Andarilho”, depara-se não somente com um, mas consegue o encontro de dois andarilhos.

Joseph Roth, nascido em 1894 em Brody – confins do Império Austro­ Húngaro, atual Ucrânia –, foi um escritor andarilho e nômade convicto, tinha inclusive fama entre os conhecidos de ter seus bens resumidos a três malas. No romance A lenda do santo beberrão, recém lançado no Brasil pela Estação Liberdade, seu protagonista – espécie de seu alter ego – é um andarilho. Um dos aspectos de interesse do andarilho, do nômade, é que são espécies de anti-heróis na sociedade de consumo. Ironicamente interessante no livro de Roth, pois seu protagonista depara-se com a improvável fortuna de ganhar uma alta soma de dinheiro de um desconhecido. Idôneo, garante que devolverá o dinheiro como promessa a uma santa, porém, acaba por gastá-lo inteiramente, em grandes doses etílicas. Seu lar passa a resumir-se ao sempre protelado fundo do copo. Joseph Roth, definido já como poeta do cotidiano, chamou a este livro de seu testamento.

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Impressões de Carybé nas suas visitas ao Benin – 1969 e 1987

18 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Notas e desenhos de viagem do artista Carybé em visita ao seu grande amigo Pierre Verger às antigas terras do Reino de Dahomé, hoje chamado Benin

O livro, uma reprodução do caderno de viagem de Carybé, publicado pela Imprensa Oficial de São Paulo em parceria com o Museu Afrobrasileiro, é a representação inclusive emocional do contato com a ancestralidade do universo mítico das religiões africanas tradicionais de cultos aos Orixás. As figuras de seus desenhos dançam, vivem.

Os desenhos de Carybé são ágeis, poucos traços resolvem-se em complexas expressões corporais. Sugerem mesmo a narrativa das vidas que representam, pois cada desenho mantém em si uma infinita sucessão de sons e silêncios que sugerem movimentos seguintes, mesmo nas figuras mais serenas. São desenhos de uma beleza singela e sincera, fortes. Precisos, os gestos traduzem-se no traço inteligente e sintético.

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Ensaios em miniatura

17 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

A difícil tarefa de traduzir um poema e manter suas sonoridades, silêncios, imagens, humores, ambiguidades e ambivalências, torna-se, no Brasil, uma já criada tradição, enraizada no trabalho dos irmãos Campos e, hoje, em plena ramificação. Uma feliz proficuidade editorial de boas traduções, diretas para o português, possibilitam a familiaridade do leitor brasileiro, por exemplo, com expressivos poetas poloneses, como Czesław Miłosz e Wisława Szymborska.

Prêmio Nobel de Literatura em 1996, Wisława Szymborska foi publicada no Brasil pela Companhia das letras, no livro intitulado Poemas, traduzido por Regina Przybycien. Além de traduções portuguesas, especialmente publicadas pela editora Relógio D’água, aos não leitores de polonês ainda não era possível conhecer sua interessante poesia a não ser por algumas indicações ou traduções isoladas feitas por poetas brasileiros, como Ana Cristina Cesar, Nelson Ascher, Eucanaã Ferraz e Antônio Cícero. Eucanaã, por exemplo, em seu último livro, Sentimental, rende homenagem à conversa com a pedra de Szymborska e a seu insólito realismo sutil, exemplar, “Sou eu, me deixa entrar”, “Não tenho porta – diz a pedra”.

A vida quase inteira vivida na Cracóvia rendeu à poetisa um olhar agudo, irônico e curioso. No discurso que proferiu na Academia Sueca, “O poeta e o mundo”, defendeu que “todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade. É por isso que dou tanto valor à pequena frase “não sei”. É pequena, mas voa com asas poderosas”. Para o crítico polonês Ryszard Matuszewski, a poesia de Szymborska assume “a forma condensada de uma história ou de ensaio em miniatura”, “por um lado obriga a pensar, e por outro, comove”.

POEMAS
Autor: Wisława Szymborska
Editora: Companhia das Letras
(168 págs.)
Leia um pequeno trecho do livro.

 

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A filosofia do como se

16 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Utilizando argumentos como a literatura fantástica, a matemática, a antropologia literária de Iser, elementos da crítica kantiana, do idealismo alemão e da filosofia da ciência de Quine, A filosofia do como se é um interessante tratado sobre a teoria da ficção. Escrito nos primeiros anos do século XX, propõe a teorização da ficção como importante artifício intelectual para a realização de tarefas primordiais do conhecimento, inclusive do conhecimento científico e matemático.

Da desconfortável caverna aos argumentos de sonho e aos contratos sociais, por exemplo, a ficção serve como intermédio filosófico à realidade e alargamento das possibilidades hipotéticas. A filosofia do como se sugere, contudo, uma aproximação mais profunda, segunda a qual as próprias ideais seriam ficções – um positivismo idealista, como o subtítulo define. A ficção, portanto, como condição cognitiva intencional e necessária, a partir do que o tratado pode propor uma fenomenologia da consciência idealizante; o mito, o sonho, o lúdico, o imaginário, na obra de Hans Vaihinger, tem implicações filosóficas importantes, sustentam noções de metafísica, psicologia, epistemologia e, pelo viés da filosofia da linguagem, ideias para uma teoria literária.

Pouco após a época de sua primeira publicação, 1911, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e a consequente necessidade desesperada de se encontrar uma explicação possível ao que estava acontecendo com o mundo, com as pessoas, com a realidade e com os sonhos, A filosofia do como se foi uma leitura de trincheiras, extremamente difundida. A ficção a compartilhar com a razão uma solução a uma realidade problemática.

 

A FILOSOFIA DO COMO SE
Autor: Hans Vaihinger
Editora: Argos
(723 págs.)

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Cartas de Murilo Mendes a Roberto Assumpção

14 setembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Cartas de Murilo Mendes a Roberto Assumpção apresenta ao público as cartas de apenas um dos dois interlocutores, somente o lado do poeta, do diálogo travado em correspondências com o amigo e diplomata Roberto Assumpção, responsável pela organização da edição francesa de Janelas do caos, publicada em 1949 em Paris e ilustrada com litografias do gravurista Francis Picabia.

As cartas foram organizadas por Júlio Castañon Guimarães, no volume publicado pela Editora da Casa de Rui Barbosa em 2007.  Nelas, o poeta versa sobre questões relativas a publicação de alguns de seus livros, mas sobretudo sobre a edição francesa idealizada por Assumpção. “Sou terrivelmente do mundo”, declarara numa frase verso; sua poesia também o é, equilibrando-se entre o lúdico e o real, dotada de vocação cosmopolita e de erudição; suas cartas também o são, mostras de seu agradecimento afetuoso ao amigo pela publicação na França, sua colocação num contexto poético mais amplo. Sinal da poesia a alastrar-se pela maneira de ser do poeta, mesmo pela prosa natural como a dispendida numa carta: “a palavra nasce-me”.

A admiração intelectual nutrida por Murilo em relação ao amigo, aliada ao seu discreto apontamento do “mistério das coisas visíveis”, faz da reunião dessas cartas um documento simpático ao ininterrupto refluxo do refúgio do cidadão do mundo.

 

CARTAS DE MURILO MENDES A ROBERTO ASSUMPÇÃO
Organização: Júlio Castañon Guimarães
Editora: Casa de Rui Barbosa
(116 págs.)

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Crítica Literária

Rubens Rodrigues Torres Filho .parte I.

17 maio, 2013 | Por Isabela Gaglianone

poema semipronto*

Dante fez o que quis.
–  –  –  Beatriz.

__________
*) Adicionar água e levar a fogo brando.

A arqueologia da palavra é tarefa compartilhada pelo filósofo e pelo poeta. “As palavras são símbolos que postulam uma memória compartilhada”, segundo Borges. Trabalho minucioso, do espírito e da letra. E se acontece-lhe ser feito na poesia escrita por um filósofo, como o é Rubens Rodrigues Torres Filho, ganha um polimento ambivalente porém exato, um humor fino que permite-se chegar a vocábulos eruditos ou expressões coloquiais com a mesma facilidade – e com a mesma ironia.

Poeta solitário, alheio a escolas, grupos ou modismos, mesmo porque a poesia foi-lhe tarefa secundária – quase um capricho, segundo o poeta Cacaso (Antônio Carlos de Brito) – em relação à filosofia, seu objeto de estudo e interesse primeiro. Rubens foi professor de filosofia moderna na Universidade de São Paulo, especialista na filosofia de Fichte – a respeito da qual escreveu uma notória tese, O espírito e a letra: a crítica da imaginação pura em Fichte –, comentador da filosofia alemã, sobretudo dos períodos conhecidos como o Idealismo e o Romantismo, profícuo tradutor de obras de autores como Nietzsche, Novalis, Benjamin, Adorno, Schelling, Kant e Fichte. Nos trabalhos filosóficos vemos sua poesia – a sua articulação de uma brincadeira com a hermenêutica das palavras – em germe. Suas traduções já possuem o cuidado preciso com as palavras, equilibradas como numa escultura; seus comentários de filosofia, o humor irônico que lhe é peculiar.
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Literatura

Como um solo de violas

2 maio, 2013 | Por Isabela Gaglianone

como um solo de viola, grande sertão veredas - ilustração de Isabela Gaglianone

Digo-lhe, que se perguntarem, me diga um livro muito bonito para ler, minha memória cairá nas vertentes do viver de Grande sertão: veredas. Explanações pareceriam reles, o livro jorra beleza desde sua primeira palavra, Nonada. Derrama-se, goteja-se, verte-se. Caudaloso. A prosa demora-se em sua própria poesia, são veredas no texto as suas construções poéticas: líricas, inesperadas, vivas como um curso de água: os abundantes travessões dão a imagem, na página impressa – veredas –, vertentes em meio à prosa, comentários em meio à narrativa. Inúmeras variações sobre o próprio título. Os dois pontos fluem o texto em sucessivos riachos de poesia, que, por suas frases, umas nas outras, deságuam-se. Águas fortes, plácidas ou dramáticas, pela chuva ou pelos rios, a narrativa vai e volta levada pelas sensações das águas na lembrança de Rio baldo; o próprio narrador é como um rio de curso longo e tortuoso.

“ – “… Pois a minha não conheci…” – Diadorim prosseguiu no dizer. E disse com certeza simples, igual quisesse falar: barra – beiras – cabeceiras… Fosse cego de nascença”.

A beleza e o estranhamento dos entroncamentos de águas, enraizadas na língua viva da poesia. A língua poética não serve a um propósito – ainda que siga servindo –, não é um meio, mas um fim em si mesma. Remexidas como as pequenas pedras soltas pela correnteza do fundo de um rio, as palavras ganham vida ambivalente: deslocadas, agrupam em si novas maneiras de significância e de relação com as que lhes margeiam: poesia em prosa. “Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”. Esse sertão, por onde rolam, fugidas, as braças águas, tem a beleza e a tristeza de um solo de violas. Timbre deslocado da harmonia para a melodia, corredeira doce, voz a um tempo aguda e grave, chora e canta, em largas águas, derramando-se em serena vereda. O sertão que há dentro de um texto, entrecortado pela poesia das palavras, pelo movimento vivo da própria linguagem, a melodia tocada por um breve solo de viola amanhece.

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Talvez a melhor tradução musical a essa ideia seja a Suíte Nordestina, de Guerra Peixe. Outros bons exemplos são também as peças de Radamés Gnattali, como o Concerto para viola e orquestra e a Sonata para viola e piano.

A edição 59 do programa Clave de Solencabeçado por Irineu Franco Perpétuo, apresentou gravações destas peças realizadas pelo violista Perez Dworeckio húngaro-brasileiro que foi um dos maiores instrumentistas do Brasil, um dos mais sensíveis intérpretes à viola, em grata homenagem após sua morte.

 

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Literatura

MARÍAS, Coração tão branco

16 abril, 2013 | Por Isabela Gaglianone

livro Coracao tão branco, de Javier Marias

“Era simplesmente instalar-se na convicção ou
na superstição de que não existe o que se diz.”

O título Coração tão branco do livro do espanhol Javier Marías é uma alusão a um verso de Shakespeare, um diálogo em Macbeth:

My hands are of your colour, but I shame to wear a heart so white
[Minhas mãos são de tua cor; mas me envergonha trazer um coração tão branco].

A alusão desenvolve-se em breve comentário num dos decorreres do fluxo de consciência do protagonista narrador, um tradutor. Ele percorre mentalmente este e alguns versos circundantes, reconstruindo a cena e a história, interpretando-os, revirando os sentidos por trás de suas palavras, à maneira de um cacoete profissional, por impulso de pensar suas possíveis traduções. Continue lendo

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