lançamentos

O pensamento yanomami

3 setembro, 2015 | Por Isabela Gaglianone
fotografia de Cláudia Andujar, publicada no livro "Yanomami"

fotografia de Cláudia Andujar, publicada no livro “Yanomami”

A queda do céu finalmente ganha tradução para o português. Publicado originalmente em francês em 2010, na prestigiosa coleção Terre Humaine, o volume traz o relato profundamente político e espiritual do grande xamã e porta-voz dos Yanomami, Davi Kopenawa, registrado pelo etnólogo-escritor Bruce Albert após trinta anos de convivência. O livro chega ao Brasil pela Companhia das Letras, traduzido por Beatriz Perrone-Moisés e conta com prefácio de Eduardo Viveiros de Castro. É uma obra de impacto na história da etnografia, um diálogo rico e único entre dois universos culturais.

Albert registrou as meditações do xamã a respeito do contato predador com o homem branco, ameaça constante para seu povo desde os anos 1960. Trata-se de um relato extraordinário, confluência de testemunho autobiográfico, manifesto xamânico e libelo contra a destruição da floresta Amazônica. O discurso de Kopenawa introduz os sistemas cosmopolíticos e intelectuais dos yanomami para os brancos.  Continue lendo

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matraca

O pouco de realidade das coisas

31 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone
Gravura de Norman Ackroyd

Gravura de Norman Ackroyd

A reunião de ensaios As ilhas, de Jean Grenier (1898 – 1971), foi originalmente publicada em 1933. O volume, para Albert Camus, amigo e aluno de Grenier na Argélia antes da guerra, foi a leitura arrebatadora que lhe despertou o ímpeto de tornar-se escritor.

Cabe, para apresentar este livro e sua filosofia literária, a análise que dele fez o escritor Gilles Lapouge, em resenha publicada no jornal O Estado de São Paulo, na qual discorre sobre a relação entre o autor e o pupilo: “Claro que Jean Grenier e Albert Camus são filósofos, mas a sua grandeza é que o filósofo, nos dois casos, foi engolido, como se digerido, pelo escritor. O que não significa que a carga filosófica de As ilhas ou O estrangeiro seja ínfima. Não. Mas ela é comunicada por imagens, alegrias intensas ou soluços, o movimento branco de uma nuvem, a pele das mulheres”.

No prefácio que Camus escreveu para a reedição de 1959 de As ilhas, pontua que o livro representou para sua geração uma iniciação ao desencanto do mundo.  Continue lendo

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Guia de Leitura

Romances brasileiros do século XX que tratam do garimpo

28 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Um dos temas desenvolvidos nos romances brasileiros assim chamados regionalistas, escritos, sobretudo, a partir da segunda fase do modernismo, foi o garimpo. Prática socialmente deplorável, mas rica enquanto base para o pensamento literário, que a extrapola e a toma em seu contexto geral, iluminando ângulos pelos quais mostra como ela colocou as pessoas a seu redor em situações-limite.

Entre a riqueza em estado bruto, estabeleceu-se a miséria assegurada pela exploração e seus capangas. Desenvolvido em regiões de natureza árdua, habitadas por pessoas e relações que refletiam a dureza exterior, o garimpo gerou metáforas encarnadas: naturezas humanas ávidas.

 

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Herberto Sales, “Cascalho”

Cascalho, de Herberto Sales, foi publicado pela primeira vez há setenta anos, em 1944. Foi o primeiro romance – escrito aos seus 27 anos de idade – do escritor que, em 1977, seria eleito para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Centrado do tema da mineração diamantífera na região da Chapada Diamantina, mostra a vida nos garimpos e suas regras próprias: o coronelismo, a capangagem, a árdua exploração. Herberto Sales explora as implicações sociais, econômicas e morais, bem como as particularidades geográficas da então situação garimpeira baiana.

Um romance sociológico e político. Expõe as relações de poder e a exploração e submissão do homem do garimpo pelo coronelismo, apresentando personagens arquetípicos daquele contexto, como os capangas ou as “mulheres-damas”. Também ilustra o papel do Rio Paraguaçu, a contingência da vida à mercê da força de suas águas, construindo uma identidade do homem do garimpo.

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fotografia

Maldicidade

27 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone
fotografia de "Maldicidade"

fotografia de “Maldicidade”

Conhecido por um olhar lírico e crítico, o fotógrafo e múltiplo artista Miguel Rio Branco, em Maldicidade, reúne fotografias realizadas entre 1970 e 2010, que retratam cenas urbanas de metrópoles ao redor do mundo, no Japão, nos EUA, no Brasil, em Cuba, no Peru.

Não há textos ou ensaios incluídos no livro. As imagens formam seu próprio discurso, poderoso, expressivo, sensorial.

São retratos sobre a vida urbana, mas, também, enquadramentos de uma sub-história das cidades, suas entranhas. Miguel Rio Branco aponta sua câmera para baixo, não para os grandes monumentos históricos ou arquitetônicos das cidades, mas para os marginais oprimidos, para a vida arenosa onde encontram-se as rotas de busca de comida de cachorros de rua e os ônibus urbanos superlotados, onde mendigos dormem e vendedores ambulantes oferecem doces caseiros. Seu foco são os marginalizados, prostitutas, vira-latas e pessoas de baixa classe social. Através de fotos com cores vibrantes, e com montagens e recortes paralelos, o resultado evidencia o paradoxo urbano, o mal de toda cidade.  Continue lendo

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Artes Plásticas

Antropologia das imagens

24 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone
Sandro Botticelli

Sandro Botticelli

Os ensaios reunidos no livro A eloqüência dos símbolos – Estudos sobre arte humanista, foram escritos por Edgard Wind entre 1930 e 1970 e, portanto, abrangem panoramicamente sua produção intelectual. Wind, que foi o fundador da cadeira de História da Arte na Universidade de Oxford, foi aluno de Panofsky e Cassirer, dedicou-se a estudar, desde o início de sua carreira, os objetos artísticos à luz de seus contextos sociais. Sua especialização tornou-se a análise da herança da cultura clássica renascentista.

Nos textos dessa coletânea, Wind estuda temas como a filosofia da arte de Platão, o platonismo no “Quattrocento”, o universo religioso em Matisse e Rouault e a contribuição teórica de Aby Warburg.  Continue lendo

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Guia de Leitura

Utopia

21 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Utopia política: será, esta expressão, pleonástica?

O alicerce ideológico fundamental da utopia é bem representado pela figura mitológica de Prometeu – a ideia humanista da formação de si e, consequentemente, formação de seu entorno, de sua polis, sua sociedade, sua política.

As ficções e os comentários filosóficos aqui reunidos tem em comum partirem de críticas ao sistema econômico mercantil e suas decorrências sociais, morais, estéticas, propondo-lhe um espelhamento negativo.

“[…] assim, pouco a pouco, para onde quer que olhemos, tudo no mundo torna-se uma versão de certa figura primordial, uma manifestação daquele movimento em direção ao futuro e à identidade derradeira com um mundo transfigurado que é a Utopia, cuja presença vital, por trás de qualquer distorção, sob qualquer nível de repressão, pode ser sempre detectada, não importa quão fragilmente, pelos instrumentos e dispositivos da esperança” – Fredric Jameson, Marxismo e Forma Teorias dialéticas da literatura no séc XX [Hucitec, 1985].

 

 

Tommaso Campanella, "A cidade do sol"

Tommaso Campanella, “A cidade do sol” [disponível apenas em sebos]

Tommaso Campanella escreveu A cidade do sol em 1602, enquanto encontrava-se preso, em Nápoles. É sua mais conhecida obra política, na qual ele desenvolve a ideia de uma república ideal, baseada numa interpretação da filosofia da natureza de Bernardino Telésio, teocrática e ao mesmo tempo aristocraticamente comunista. Em 1607 um exemplar manuscrito da obra foi entregue a Caspar Schoppe, que a divulgou, realizando várias cópias, na Itália e na Alemanha.

O texto completo, “Appendice della politica detta La Città del Sole di fra’ Tommaso Campanella – Dialogo poetico”, ainda é inédito em português – a tradução está sendo desenvolvida por Carlos Eduardo Ornelas Berriel, professor de Teoria Literária da Unicamp. Em tempo: também é de Berriel a organização da “coleção Mundus Alter”, publicada pela editora da Unicamp, dedicada a traduções de utopias literárias que, diz o professor, são “essenciais para a compreensão do imaginário político moderno. […] Longe de servirem para o escapismo político, as utopias são, comumente, retratos irônicos, cáusticos e satíricos da época de seus autores”. A tradução publicada na coleção Os pensadores tem como texto de base a séria transcrição de Norberto Bobbio, feita em 1941, texto confiável e bem representativo, fundamentado na leitura de dez dos onze manuscritos então conhecidos.

A cidade do sol teria seu Estado regido por um príncipe sacerdote, o “Sol” – um “Vigário do Sol” ou Metafísico. A cidade é uma criação racional, hiper-ordenada, em que cada coisa tem seu lugar. Para manter sua ordem, o príncipe teria à sua disposição a ajuda de três sacerdotes e sábios, a Potência, a Sapiência e o Amor: o poder é a potência, o saber é a sabedoria, o querer é o amor que passou pela sabedoria – três virtudes fundamentais. A ordem e a hierarquia sociais, rígidas e eclesiais, tem toda sua organização inspirada na astrologia e devem servir à harmonia e êxito na produção coletiva.

Baseado na ideia de ordem e desígnio naturais, possivelmente de inspiração humanista e representada sobretudo pelas ideias filosóficas de Giordano Bruno – mas também de filósofos renascentistas como Marsílio Ficino, Pico de la Mirandola, Telesio e Patrizzi –, responsável pela existência coesa dos objetos – que não se deixam vencer pelo nada e a dispersão –, Campanella concebe sua Cidade de modo que nela todos aspirem ao “sol”, ou seja, ao centro do sistema.  A utopia camapanelliana é ordenada portanto por uma ideia de “religião”, no sentido de uma corrente intelectual que une todas as coisas, porém, como uma “Igreja da Natureza”, regida pelo “Sol”. De acordo com o comentário de Ernst Bloch: o pathos da ordem é o que constitui a unidade da utopia de Campanella.  Continue lendo

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lançamentos

“Pesquiso a forma no caos”

20 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“Nossa medida de humanos

-Medida desmesurada-

Em Selinunte se exprime:

Para a catástrofe, em busca

Da sobrevivência, nascemos”

– Murilo Mendes, “As Ruínas de Selinunte”.

escadaSiciliana e Tempo espanhol foram publicados separadamente por Murilo Mendes em 1959. A editora Cosac Naify acaba de reeditá-los num volume único, com posfácio de Eduardo Sterzi. A publicação acompanha a tendência editorial a apostar em autores consagrados.

Os dois livros foram escritos pelo poeta ao longo das quase duas décadas em que viveu na Europa. Em ambos, sua poesia faz alusão a obras, monumentos e cidades do velho mundo. Por sua forma, tem em comum a concisão e um tom mais seco, distanciando-se do surrealismo que vinha inspirando sua poesia.  Continue lendo

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história

Aqui todos viramos bárbaros

17 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone
fotografia de Araquém Alcântara

fotografia de Araquém Alcântara

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[…] Fizemos renascer o projeto de 1870, quando o otimismo brasileiro parecia exigir o impossível. E procuramos desempenhar a nossa tarefa com o afinco de uma guerra contra o crime que lesava as possibilidades do lucro cada vez maior. Derrubamos árvores seculares, enfrentamos e civilizamos selvagens que mourejavam na idade da pedra, aqui estamos trabalhando com a disposição de dar até a nossa própria vida porque é assim o gênio americano“.

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O escritor amazonense Márcio Souza é autor de mais de 20 livros. Mad Maria, um dos mais notórios dentre eles, escrito em 1980, é de atualidade metafórica desconcertante.

No final da primeira década do século XX, o governo brasileiro decide construir uma ferrovia na selva amazônica, obra mirabolante com o intuito de criar um caminho que contornasse as dezenove corredeiras mortais do rio Madeira, região de relevante passagem para os produtos importados e exportados pelos bolivianos – a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), que integraria uma região rica em látex na Bolívia com a Amazônia. Antes de terminadas as obras, 3,6 mil homens estavam mortos, 30 mil hospitalizados e uma fortuna em dólares desperdiçada na selva.

“[…] a ferrovia estava sendo construída num silêncio de certo modo planejado, ele já tinha sofrido muitos ataques através da imprensa devido à falta de lisura na concorrência pública, um deslize grosseiro de seu testa de ferro, o engenheiro Joaquim Catambri, homem um tanto autoritário e corrompido que realizara as transações sem esconder os detalhes escusos”. Na realidade, a região era tão inóspita que a construção ligaria nada a parte alguma. O romance narra um dos tantos absurdos lucrativos patrocinados pela história brasileira, contrapondo a construção da estrada em plena selva às negociatas envolvendo a relação político-econômica entre o construtor e concessionário, Percival Farquhar, com o novo governo do presidente Hermes da Fonseca e seu ministro da Viação e Obras Públicas, J. J. Seabra.  Continue lendo

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Guia de Leitura

Correspondências

14 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Correspondência trocada [ao menos remetida] por escritores da primeira fase do modernismo brasileiro:

A possibilidade de acompanhar a leitura da troca de cartas entre dois escritores é de uma riqueza que ultrapassa a mera curiosidade, o fetichismo sobre suas personalidades, o voyeurismo intelectual – ainda que também as contemple. As cartas pulsam, testemunhas históricas – eternamente – vivas.

Mais do que formas de comunicação à distância, o tempo epistolar abriu possibilidades únicas de desenvolvimento de discussões, interpretações, compartilhamento de ideias literárias, culturais, intelectuais. Compuseram, entremeado à realidade, um universo de ideias, atualizado pela concretização não apenas em palavras, mas em sua sobreposição enquanto respostas a respostas.

 

Renato Caldas, “Fulô do mato”

Câmara Cascudo foi historiador, antropólogo e jornalista, conhecido pelo trabalho que desenvolveu como pesquisador do folclore. Correspondeu-se com Drummond e com Lêdo Ivo e essas cartas são um caso curioso na historiografia de publicação epistolar, pois foram publicadas como prefácios ao livro Fulô do Mato, do poeta matuto Renato Caldas. Este, potiguar muito estimado por Câmara Cascudo, pode publicar, na segunda edição de seu livro, cartas escritas pelo folclorista a Lêdo Ivo e Drummond. As cartas foram transcritas para as edições seguintes da obra e, então, tomadas definitivamente como prefácios.

Através de sua correspondência, Câmara Cascudo pode ser o articulador do movimento modernista no Rio Grande do Norte. Através de suas cartas a memória cultural e literária presentifica-se. Entusiasta da poesia matuta, ele dizia nas cartas sobre o que se produzia em seu estado aos amigos escritores. Ao dissertar sobre o amigo Caldas, ele diz: “Renato é miolo de arueira, não esquecendo ponta de prego que o riscou nem cheiro de flor roçando nas folhas”.

O folclorista foi muito estimado por Mário de Andrade e com ele também se correspondeu durante longo período, cartas que estão reunidas no volume Câmara Cascudo e Mário de Andrade: Cartas, 1924-1944 Continue lendo

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lançamentos

Biocapitalismo

13 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone
gravura de Iberê Camargo

gravura de Iberê Camargo

O filósofo italiano Antonio Negri, em Biocapitalismo, analisa a crescente onda de ocupações do espaço público, fruto do que chama, com Espinosa, manifestações da “multidão” – tida como fonte de articulação de desejos represados e díspares, unidos na ocupação e construção de um espaço de resistência e de emancipação, balizando os termos da biopolítica.

O livro, com tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro, acaba de ser lançada no Brasil pela editora Iluminuras.

Segundo o professor Márcio Seligmann-Silva, o pensamento de Negri dialoga com a história política da América Latina e, portanto, faz-se imprescindível para pensarmos nosso presente:“Antonio Negri tem tentado reinventar a política, sobretudo a prática das esquerdas, introduzindo e repaginando uma série de conceitos. Não por acaso, este livro, editado por Adrián Cangi e Ariel Pennisi, vem de uma obra compilada na Argentina: a escuta que Negri encontra na América Latina é particularmente grande. Temos muito a dialogar com sua obra”.

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Literatura

Lias, Rosinhas, Giselles, Cecílias, Odette

10 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone

lapa

Luis Martins foi um grande cronista da vida boêmia do Rio de Janeiro. O bairro carioca da Lapa, com seus arcos e prostitutas, povoado por escritores e bebedores, tornou-se, sob sua letra, um universo literário vivo.

O romance de estréia de Martins, Lapa, publicado originalmente em 1936, mostra o bairro e a cidade de maneira crítica, escancara os meandros de sua miséria. Noturno da Lapa, lançado quase três décadas depois e vencedor do Prêmio Jabuti em 1965, contemporiza e retrata o cenário sob uma perspectiva mais amena.

Ambos títulos foram reeditados pela editora José Olympio e voltam às livrarias, integrando os títulos escolhidos como parte do projeto Biblioteca Rio 450, criado pela Prefeitura do Rio de Janeiro neste ano de data redonda para relançar títulos importantes para a história da cidade. As duas obras, indissociáveis, são vendidas em conjunto.   Continue lendo

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Guia de Leitura

Reflexões filosóficas sobre o riso, o humor, o cômico ou o ridículo

7 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Após o lançamento de Graça Infinita, de David Foster Wallace, e as discussões a respeito da ironia de seu título, bem como da dificuldade de sua tradução para o português – Infinite Jest –, reunimos alguns textos interessantes sobre a galhofa, a bufonaria, a risada, a piada, a ironia.

 

Shaftesbury, “Characteristics os men, manners, opinions and times”

Shaftesbury – Anthony Ashley Cooper, III Conde de Shaftesbury – é um daqueles filósofos cujas ideias tornaram-se freáticas; pouco comentado atualmente, desenvolveu reflexões que foram base para o desenvolvimento da filosofia moderna. O seu muito irônico Sensus communis, or na Essay on the freedom of wit and humor ainda não tem tradução para o português, porém, é fundamental para pensar as dimensões políticas, morais e estéticas do riso, do ridículo, da zombaria, do humor fino e engenhoso.

O texto é escrito em forma de carta, a um suposto amigo que ficara atônito e perturbado com a defesa, expressa por parte do autor, da zombaria. Shaftesbury explica que a zombaria pode ser justa, pois apenas pode ser considerado verdadeiro aquilo que suporta todas as luzes da verdade, inclusive o crivo do ridículo. Seguindo a tradução de Márcio Suzuki, no artigo “Quem ri por último, ri melhor”: “de acordo com a noção que tenho de razão, nem os tratados escritos do erudito, nem os discursos do orador são capazes, por si sós, de ensinar o uso dela. Somente o hábito de raciocinar pode fazer o arrazoador. E não se pode convidar melhor os homens a esse hábito do que quando têm prazer nele. Uma liberdade de zombaria, uma liberdade de questionar tudo em linguagem conveniente e uma permissão de desembaraçar e refutar cada argumento sem ofender o argüidor, são os únicos termos que de algum modo podem tornar agradáveis as conversas especulativas”. Somente uma conversa desimpedida pode proporcionar o uso pleno da razão. E o “wit”, palavra e difícil tradução para o português que significa algo como um dito espirituoso, um chiste, junto com o humor, permite uma conversa agradável e polida, na qual, Shaftesbury diz: “Em matéria de razão, mais se dá em um minuto ou dois, por meio de questão e resposta, do que por um discurso corrido de horas inteiras”. Inclusive, para o filósofo, “sem wit e humour, a razão dificilmente pode pôr-se à prova [take its proof] ou ser distinguida”Continue lendo

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lançamentos

Prosa precisa

6 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Odilon Redon

O vento que arrasa, da argentina Selva Almada, vem sendo aclamado como a última grande revelação literária da América Latina.

O romance é ambientado no Chaco argentino e transcorre-se ao longo de somente um dia e meio na vida de Leni, uma moça de dezesseis anos, e de seu pai, um pastor que vive a percorrer o país em busca de sinais de Deus. Com problemas no carro, eles fazem uma parada na oficina mecânica do Gringo, onde conhecem o jovem Tapioca, rapaz que o pastor vê como uma alma iluminada e a quem, por isso, quer levar consigo na peregrinação.

Com tradução de Samuel Titan Jr., o livro acaba de ser lançado no Brasil pela CosacNaify. O volume conta com quarta capa de Beatriz Sarlo, para quem Selva Almada destaca-se no mapa da ficção por ser, não literatura urbana, nem sobre jovens, nem sobre marginais, mas uma literatura de província, regional frente às culturas globais, mas não uma literatura de costumes – ao contrário da literatura urbana que, diz Sarlo, tantas vezes é literatura de costumes sem ser regional.  Continue lendo

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matraca

Mundus Alter

3 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Leonilson

La Città Felice, ou A Cidade Feliz, é uma das primeiras utopias italianas, escrita em 1551 por Francesco Patrizi da Cherso (1529-1597), um dos protagonistas da fase de opúsculo do Renascimento italiano. A operetta foi escrita em Pádua, em 1551, e publicada em Veneza dois anos depois, reunida com outros escritos da fase de primeiros estudos do autor.

O autor foi incontestavelmente um dos maiores intelectuais do século XVI. Nascido em Cres, na atual Croácia, escreveu diversas obras, das quais se destacam o Trattato della Poetica, publicado em 1582, e o Della Retorica, em 1562.

Em sua cidade ideal, a cidade feliz, o amor reina e a reciprocidade, propaga-se. Diz o autor: […] a nossa cidade não deve ser infinitamente plena de pessoas, mas numa soma tal que, entre elas possam todas se conhecer, e feito melhor ainda, serão de várias sanguinidades e casais distintos. E de modo que o amor radical cresça e atinja uma perfeição tal, que faça fruto perfeito, quero que os convencidos públicos se nutram; os quais do público e no público se celebrem a cada mês pelo menos uma como era costume antigo do rei da Itália Italo, que antes de todos colocou este hábito em uso”Continue lendo

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Resenhas

Reflexões sobre o abuso estético

1 agosto, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Jean Galard, Beleza Exorbitante

[Editora Fap-Unifesp, 2012. Tradução de Iraci D. Poleti]

fotografia de Sebastião Salgado, de "Êxodos"

fotografia de Sebastião Salgado, de “Êxodos”

A partir da crítica que a exposição Êxodos, do renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, suscitou na França, o filósofo Jean Galard perpassa a história da arte para encontrar o cerne estético dos desdobramentos morais da obra de arte em geral, do ensaio-documentário fotográfico, em particular.

Trata-se de uma breve pontuação crítica ao juízo de gosto contemporâneo, que ainda encontra no belo seu fundamento. Que se insere na problemática da “estetização” da vida, do mundo – noção discutida no cenário filosófico francês contemporâneo por autores como Gilles Lipovetsky, Jean Serroy[1], Yves Michaud, Baudrillard.

O texto parte de um levantamento empírico – “Diante da realidade brutal” – e então retoma exemplos da história e da teoria da arte para introduzir a questão propriamente estética, e primeira, sobre a própria representação. Ao pensar sobre a estetização da dor, Galard põe em questão o papel da arte e de sua relação com a sociedade e seus valores. A reflexão que seu texto tece extrapola a questão fotográfica e a utiliza como base para abordar de maneira crítica a relação estética entre realidade e representação, mas tomada enquanto princípio de uma dinâmica sociológica da arte. A apreensão “sensacionalista” de uma “estética da fome”[2] caminha junto com a espetacularização da sociedade.

A própria intencionalidade do olhar é analisada de maneira crítica. O estatuto da imagem no mundo contemporâneo, negativo de um questionamento sobre o belo, embate-se necessariamente com uma discussão moral e ética.  Continue lendo

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