matraca

A produção é destrutiva

25 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

cartaz

O filósofo húngaro István Mészáros, interpreta, em O desafio e o fardo do tempo hitórico, o significado histórico da crise estrutural do capital, que, como “ordem estabelecida”, produz destruição – do tempo livre, da educação, das pessoas, da cultura, da natureza, da vida. Articulando argumentos de filosofia, economia política e teoria social, Mészáros mostra que capital atua somente na destruição e reafirma a necessidade do socialismo no século XXI.

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Arquitetura

Arte tectônica

24 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone
Frank Gehry, Museu Guggenheim Bilbao

Frank Gehry, Museu Guggenheim Bilbao

O crítico de arte Hal Foster identifica no conceito de “complexo” e na condição de inerência da arte e da arquitetura elementos que definem a cultura contemporânea. Em O complexo arte-arquitetura, lançamento no Brasil pela Cosac Naify, ele aponta que a arquitetura e a arte estão intrinsecamente unidas, desde o final do século passado, até o início deste século XXI. A arte, com suas instalações e obras em larguíssima escala, remete à arquitetura; obras de arquitetos, vendidas como de artistas a colecionadores, lembram que parte fundamental da arte é o chamado projeto.

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Literatura

Sons de água

23 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“São eles próprios mundo, realidade, destinados a segregar, em cada um de seus atos, mais mundo, mais realidade, são, mais ainda, o próprio presente, que à medida que se desloca vai criando mais presente, e ao mesmo tempo, sem perceber, afundando-nos no passado”.

Evandro Carlos Jardim

Evandro Carlos Jardim

Quando faleceu, em junho de 2005, vítima de um câncer de pulmão, o argentino Juan José Saer terminava de escrever os últimos capítulos de sua novela mais extensa, O grande. Nem por isso o romance é considerado inacabado. Composta por sete capítulos, cada qual correspondente a um dia da semana, a narrativa começa numa terça-feira e acaba na segunda-feira posterior à esperada grande reunião de domingo. O último capítulo, interrompido pela morte do autor, é um arremate para os encadeamentos de indagações de longo fôlego do encontro de seu dia anterior: a frase que o inicia e o conclui, retumba significados de um tema recorrente neste grande escritor – a poesia do tempo que passa, que dá o ritmo próprio à sua literatura: “Com a chuva chegou o outono e, com o outono, o tempo do vinho”.

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Últimas

Cinema como expressão sociológica

20 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone
cena de "Viramundo". filme de Geraldo Sarno

cena de “Viramundo”. filme de Geraldo Sarno

O documentário, como qualquer forma de cinema, adapta-se por um lado à concepção do diretor e, por outro, à captação da realidade, posicionando-se como articulação entre ambas as forças. A subjetividade intrínseca à forma documental é uma das questões levantadas por Jean-Claude Bernardet no interessante Cineastas e imagens do povo.

O livro foi publicado originalmente em 1985 e, em 2003, reeditado em forma ampliada pela Companhia das Letras. Sua análise abrange a interpretação de mais de trinta documentários de curta-metragem brasileiros produzidos das décadas de 1960 a 1980. Seu foco são as questões ideológicas e estéticas enfrentadas pelos cineastas citados ao abordarem o tema popular, a imagem do povo.

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Guia de Leitura

Livros que usam passagens ou personagens da Odisseia como argumento  

19 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada [i].

 

adorno e horkheimer

Adorno e Horkheimer, “Dialética do esclarecimento”

Na Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer tomam a Odisseia como paradigma das buscas e errâncias humanas, uma vez que, grosso modo, a  figura de Ulisses é compreendida como prototípica do movimento mito-esclarecimento-mito, cuja problematização articula a crítica desenvolvida pelos dois filósofos ao longo do livro: eles descobrem, na história de Ulisses e de seu retorno a Ítaca, a primeira alegoria da constituição do sujeito. Assim, a Odisseia é interpretada, por um lado, como história da razão desencantada dos artifícios míticos; por outro lado, mostra como a emancipação do mito que leva à idade da razão é resultado de uma gênese violenta. Continue lendo

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Artes Plásticas

Um livro que dança

18 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“[…] A vontade domina. Seu traço nunca está suficientemente perto do que ele quer. Não alcança nem a eloquência, nem a poesia da pintura; busca apenas a verdade no estilo e o estilo na verdade. Sua arte se compara à dos moralistas: uma prosa das mais límpidas que encerra ou articula com intensidade uma observação nova e verdadeira” – Paul Valéry, sobre Degas.

Degas dança desenho. Paul Valéry não enumerou com vírgulas as três palavras que dão título ao pequeno livro que dedicou ao caro amigo e pintor, Edgar Degas. Não o fez, para não distinguí-las em hierarquias categoriais sequenciadas em termos de relevância: o desenho dança em Degas, a dança desenha-se na maneira como ele vê as formas e as capta, ligeiramente fora de proporção, Degas dança o desenho; e no desenho Valéry encontra um conceito amplo, que abarca uma visão de época, uma visão de mundo e uma mediação entre o artista e essas duas visões. Mediação feita à maneira de uma tradução, de matriz hermenêutica: o desenho, livre enquanto dança, estruturador enquanto arte, é a própria arquitetura da imagem enquanto retórica da imaginação em relação à razão: através dele, a noção torna-se substância.

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história

Bastidores da guerra

17 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone
Marie Vassiltchikov

Marie Vassiltchikov

A princesa russa Marie Vassiltchikov (1917 – 1978) cresceu e viveu no exílio com sua família: seus pais, o príncipe Illarion e a princesa Lydia Vassiltchikov, deixaram a Rússia na primavera de 1919, e refugiaram-se, vivendo entre a Alemanha, a França e a Lituânia. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, Marie estava na Alemanha com uma de suas irmãs, passando o verão na casa de campo de uma amiga. Em janeiro de 1940, as duas irmãs mudaram-se para a capital alemã, à procura de trabalho, e, assim, começam os Diários de Berlim (1940 – 1945), que narram os bastidores da Operação Valquíria e que a editora Boitempo acaba de lançar no Brasil, para marcar as comemorações de cinquenta anos do fim da guerra.

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matraca

Esmagado por seus atos inúteis

16 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone
Walter Sickert

Walter Sickert

Ivánov, peça de Tchékhov, foi encenada pela primeira vez em 1887. Trata, em quatro atos, do tédio sufocante que instaurou-se sobre os últimos anos da Rússia czarista. É praticamente a peça de estreia de Tchékhov como dramaturgo e já apresenta elementos que seriam característicos de todo seu teatro vindouro, como a presença latente de jogos psicológicos nos diálogos, as pausas e vazios súbitos, ricas significações nas entrelinhas.

Publicado pela Edusp, o texto foi traduzido para o português por Eduardo Tolentino de Araújo, que já foi diretor de montagem da peça quando encenda em 1998, e Arlete Cavaliere, professora da USP especialista em teatro russo.

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fotografia

Eu vim da Bahia

13 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone
fotografia de Christian Cravo

fotografia de Christian Cravo

Christian Cravo, livro recentemente lançado pela Cosac Naify, reúne o trabalho de juventude do fotógrafo bahiano. Filho do lendário fotógrafo Mário Cravo Neto e neto do renomado artista Mário Cravo Jr., Christian reúne aqui belas fotografias de uma Bahia antiga, com suas tradições, religiosidades, espontaneidades. São fotos em branco e preto, que mostram um olhar a explorar a simbologia dos espaços e dos corpos. Algumas das fotografias são sensoriais, outras, reflexivas, porque históricas, inusitadas, ou simplesmente porque bonitas.

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história

Brasil “para além de si mesmo”

12 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“O tráfico atlântico passa a ser afro-americano por definição, não porque signifique uma migração forçada de africanos para a América, mas sim e principalmente porque desempenha funções estruturais nos dois continentes” – Manolo Florentino.

Hansen Bahia, gravura da série "Navio Negreiro"

Hansen Bahia, gravura da série “Navio Negreiro”

O estudo Em costas negras – Uma história do tráfico negreiro de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX), de Manolo Florentino finalmente volta às livrarias brasileiras. Vencedor do Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa em 1993, foi editado a primeira vez pela Companhia das Letras e esteve durante um tempo esgotado; agora, a Editora Unesp lança sua nova edição.

A obra apresenta uma significativa revisão da história do tráfico negreiro escravista, analisando as estruturas política, social e econômica tanto no Brasil quanto na África, que o deslocamento de cerca de 10 milhões de africanos entre os séculos XVI e XIX. Continue lendo

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Ensaios

Incerta memória

11 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“Bioy Casares lembrou então que um dos heresiarcas de Uqbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis porque multiplicam o número dos homens” – Borges.

Odilon Redon

Odilon Redon

Se questionássemos a história da literatura entendida como linha temporal dialógica de confrontos dos movimentos literários com movimentos antecedentes, veríamos que talvez o que esteja por trás desta concepção seja uma ideia de história linear. A ela poderíamos então sobrepor outra possibilidade, a ideia de história circular. Para precisar, um circular espiralado, com eixo móvel, em que a repetição[1] torna-se um conceito ontológico maior: a concepção de uma ontologia da própria literatura[2], considerando-a sujeito de si, encarnada no artista literário, no escritor. O artista percebe a mobilidade do eixo histórico, vive o paradoxo da repetição. Nas palavras de Deleuze, “não se pode falar em repetição a não ser pela diferença ou mudança que ela introduz no espírito que contempla”, ou seja, “a não ser por uma diferença que o espírito extrai da repetição” (Deleuze, Diferença e repetição, p. 111): o eixo histórico é móvel, pois o presente constantemente imiscui-se ao passado e dele retorna, um espelho que reflete a diferença; o artista faz esse movimento, cria a si mesmo através da criação da forma a partir da contemplação daquilo que o precede, enquanto sujeito total ou parcial, de si ou da história: “Extrair da repetição algo novo, extrair-lhe a diferença, este é o papel da imaginação ou do espírito que contempla em seus estados múltiplos ou fragmentados” (idem, p. 118). Para o artista o presente é simbólico, qualquer perturbação ocasionada ao real, carrega-a consigo. Provocando a forma literária, ele preenche a si mesmo, materializando a contemplação dos liames da representação da realidade em pontos complexos, confrontando e efetuando a originalidade de um presente a outro, do real ao mais profundo do próprio ser literário. Sempre em primeiro plano[3].

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Literatura

Retrato da moral burguesa

11 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone
Flávio de Carvalho

Flávio de Carvalho

A comédia humana, de Balzac, é monumental: composta por 89 volumes de romances, contos e novelas. Otto Maria Carpeaux já o dizia: dentre uma produção tão volumosa, parte foi feita “às pressas para ganhar dinheiro”. É o caso, segundo o crítico austro-brasileiro, de um dos romances balzaquianos mais famosos, A mulher de trinta anos. A crítica não é unânime, e o livro de Balzac, tão comentado, vale a pena ser lido, como comédia de costumes da burguesia francesa, como representante do realismo então recente na literatura.

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matraca

Sinto-me incapaz de pensar sem escrever

10 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone
René Magritte. La clef des songes

René Magritte. La clef des songes

Para o olhar atento do sociólogo, antes de desdobrarem-se em eventos sociais, os acontecimentos cotidianos já revelam sinais do tempo. Zygmunt Bauman, em Isto não é um diário, parte de reflexões suscitadas por leituras de notícias de jornais, de lembranças, de análises tecidas ao longo do acompanhamento vivido do desenvolvimento da situação política e econômica mundial, observando acontecimentos rotineiros para pensar sobre os significados neles contidos e pontuar questões sobre o mundo contemporâneo: o significado da palavra democracia nos movimentos que levaram à Primavera Árabe, a impiedosa perseguição aos ciganos na França, a bolha imobiliária americana, o papel dos países emergentes na estratégia mundial de globalização, ou mesmo sua paixão então recém-descoberta pelo escritor José Saramago.

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Literatura

O que cabe no breve espaço de um conto

9 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

gravura de Ulysses Boscolo

Segundo Antonio Tabucchi, Nove estórias de J. D. Salinger é “o livro de contos mais belo do século XX”. De fato, os contos, escritos originalmente para as revistas The New Yorker e Harper´s, mostram a versatilidade, irreverência e magistral cadência da prosa do autor de O apanhador no campo de centeio.

“Ele era um mestre dos contos de ficção, um excelente contador de histórias. […] Seu trabalho é atemporal. Geração após geração encontra novos significados em seus livros”, resume Will Hochman, professor doutor da Universidade Estadual do Sul de Connecticut.

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matraca

Diário de um luto

6 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

boris fausto

O luto do historiador Boris Fausto transformou-se em um belo livro: a princípio voltado a reflexões dolorosas sobre o falecimento de sua esposa, com quem foi casado por 49 anos, paulatinamente abre-se para questões despertadas pela observação cotidiana da vida marcada pela ausência.

O título O brilho do bronze remete às letras das lápides. Boris Fausto, um dos intelectuais mais respeitados do Brasil cujos últimos livros escritos foram de memórias – Negócios e Ócios [Companhia das Letras,1997] e Memórias de um Historiador de Domingo [Companhia das Letras, 2010] –, porém mantendo a objetividade do historiador, aqui tece reflexões subjetivas e sinceramente humanas através de um diário, pautado pelas visitas à lápide de Cynira Stocco Fausto: “Não consigo e nem quero pensar que há ali apenas um memorial. Prefiro pensar que, de algum modo, nos comunicamos com muito amor”, escreve. O diário iniciou-se um mês após o falecimento da educadora Cynira e foi mantido pelos quatro anos seguintes. Questões como o tempo verbal com o qual deve referir-se às evocações de memórias da mulher – “era” –, o uso do termo morte ou falecimento – “A morte é definitiva, o nunca mais, o never more. Falecimento lembra desfalecimento, saída de cena temporária”, diz –, a gravidade da finitude, o sentimento de amputação que fica ao que permanece vivo, são tematizadas ao longo dos textos.

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