lançamentos

Etnografia da música

12 maio, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Rondó Suyá, fotografia de Anthony Seeger, 1982

Interessante lançamento no Brasil, o livro Por que cantam os Kisêdjê, do antropólogo Anthony Seeger, apresenta um profundo estudo da música e de seu papel enquanto elemento relevante ao processo social da comunidade Kisêdjê. O estudo é resultado de mais de quinze anos de pesquisa de Seeger, que, nascido no seio de uma família de músicos respeitados, sempre interessou-se por música e performances rituais, e chegou ao Brasil, especificamente à comunidade dos Kisêdjê, como um dos pesquisadores do Harvard Central Brazil Project, coordenado por Maybury-Lewis. Seeger conviveu com os Kisêdjê por extensos períodos, ao longo dos quais pode produzir descrições etnográficas detalhadas e originais sobre eles. Os apontamentos de Seeger inovaram o estudo da música e do ritual nas sociedades ameríndias.

Seu pensamento e pesquisa são profundamente influenciados e inspirados pelas análises desenvolvidas por Lévi-Strauss nas Mitológicas. Continue lendo

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lançamentos

A penúria da questão

11 maio, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Van Gogh

Dando prosseguimento à sua coleção Marx e Engels, cujo objetivo é publicar no Brasil a obra dos dois filósofos, em traduções feitas diretamente do alemão, a Boitempo acaba de lançar Sobre a questão da moradia, texto da juventude de Friedrich Engels.

Nele, Engels reflete sobre o problema da habitação, suas razões e suas possíveis soluções. Sua análise sobre a questão da moradia na Europa do século XIX é extremamente atual no Brasil.

O livro reúne três artigos, publicados por Engels no jornal Der Volksstaat. Neles, explica as implicações dos problemas da teoria de Pierre-Joseph Proudhon, bem como das questões levantadas pela burguesia da época, sobre a habitação dos trabalhadores alemães.  Continue lendo

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cinema

Olhar imaginário

8 maio, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“ […] exprimir a significação a um só tempo concreta e essencial do mundo” – Bazin, “Ontologia da Imagem Fotográfica”.

Cena de "Da janela do meu quarto", de Cao Guimarães.

Cena de “Da janela do meu quarto”, de Cao Guimarães.

Cao é o primeiro livro a reunir em que o artista e cineasta Cao Guimarães trata do conjunto da sua obra. Neste volume, ele repassa de maneira intensa seu arquivo fotográfico, para construir uma nova leitura do seu próprio trabalho. O resultado é muito interessante, sobretudo porque sem som ou movimento, sua fotografia, acostumada aos filmes, ganha um novo valor; a sequência das páginas confere um ritmo inusitado às obras, interligando-as dentro uma nova narrativa.

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lançamentos

Capitalismo artista

7 maio, 2015 | Por Isabela Gaglianone

warhol_II

Cada dia mais, o estilo, o design e a beleza se impõem como imperativos estratégicos das marcas. O apelo ao imaginário e a habilidade em despertar a emoção dos consumidores impulsionam a criação massiva de mecanismos de sedução, no design, na moda, no cinema, nos produtos. Arte e mercado nunca antes se misturaram tanto, exagerando, na experiência contemporânea, o alcance do desdobramento das dimensões do valor estético. Gilles Lipovetsky e o crítico de arte Jean Serroy, investigam essas relações, A estetização do mundo e o aparentemente paradoxal conceito do capitalismo artista.

Desvendando a superficialidade de um mundo em “tudo segue a lógica da moda: é efêmero e sedutor”, os autores investigam as transformações do capitalismo e do consumo, bem como seus alcances na individualidade dos sujeitos.

Sua análise mostra que a cultura e sua expressão artística se converteram em simples negócio de mercado. Assim, a arte hoje impregna o mundo comum.  Continue lendo

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Guia de Leitura

Textos cujo argumento crítico baseia-se no estranhamento

6 maio, 2015 | Por Isabela Gaglianone

O estranhamento é ferramenta imediata para análise: sobretudo sobre si próprio, individual ou socialmente. É, pois, instrumento retórico por excelência.

O olhar de estranhamento rebate-se num jogo de espelhos invertidos, desdobrando a noção do outro como analogia possível – tal o conceito de outridade de Octavio Paz, descrito no ensaio Signos em rotação; base de construção histórica, como vista por Carlo Ginzburg:  “Grandes olhos de madeira, por que olhais para mim?”.

 

Liev Tolstói, "O diabo e outras histórias"

Liev Tolstói, “O diabo e outras histórias”

Tolstói, com seu conto Kholstomer, aborda, suscitado-os a partir de um estranhamento irônico, aspectos fundamentais de sua crítica à sociedade de sua época, às contradições do capitalismo e das noções de propriedade privada e a posse.

Kholstomer é um cavalo puro-sangue, porém malhado, razão que faz com que seu dono o mande castrar, para não prejudicar a raça. Por ser malhado, o cavalo também é alvo de ridicularização e de desprezo pelos outros cavalos, conta Tolstói que “o motivo da crueldade dos cavalos devia-se também a um sentimento aristocrático”, pois o malhado tinha origem desconhecida. O conto constrói uma metáfora que caracteriza as relações sociais da época.

Ao próprio cavalo, o estranhamento – espelho de efeito crítico ácido – é ser posse humana: “[…] mas, naquele momento, não houve jeito de entender o que significava me chamarem de propriedade de um homem”; para Kholstomer, a expressão “meu cavalo”, referindo-se a ele, reflete-lhe tão estranhamente quanto “minha terra” e “minha propriedade”.

Ao passo que ele reflete sobre o significado dessas “palavras confusas”, percebe a vastidão de sua aplicação conceitual: “mais tarde, depois que ampliei o círculo das minhas observações, convenci-me de que, não só em relação a nós, cavalos, o conceito de “meu” não tem nenhum outro fundamento senão o do instinto vil e animalesco dos homens, que eles chamam de sentimento ou direito de propriedade”. Sua interessante conclusão, é que a orientação humana não é dada pelas ações, senão pelas palavras.  Continue lendo

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história

Escatológico e histórico

5 maio, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Gustave Doré

Novo lançamento de Giorgio Agamben no Brasil, O mistério do mal reflete sobre a renúncia do papa Bento XVI, interpretando-a através de uma articulação teológica e política, ao mesmo tempo que escatológica e histórica. O filósofo italiano encontra, sob sua análise, a problematização da crise da sociedade e das instituições contemporâneas, na qual é ponto crucial uma confusão entre legalidade e legitimidade. Sua reflexão também recai sobre o atual papel da Igreja.  Continue lendo

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cinema

Contemporâneo

4 maio, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“Os primeiros historiadores do cinema escreviam com a emoção de contemporâneos do nascimento de uma nova arte. Não somos propriamente testemunhas de sua morte, mas assistimos ao fim da conjuntura que acondicionou. Estamos na situação privilegiada de espectadores e personagens de um encerramento. Houve nascimento, desenvolvimento e morte de um cinema e seu público”.

chaplin 

O cinema no século, de Paulo Emílio Sales Gomes, traz uma coletânea de artigos sobre clássicos do cinema. Muitos dos textos aqui reunidos foram escritos para uma possível programação da então  inciante Cinemateca Brasileira, cuja implantação foi fruto da concepção e do trabalho de Paulo Emílio.

O último capítulo traz reflexões gerais sobre o encantamento que o cinema exerceu no século XX e sobre sua tão inevitável quanto libertadora decadência. Ao longo dos outros ensaios, alguns dos cineastas que tem nesses seus trabalhos analisados são Sergei Eisenstein, Charles Chaplin, D. W. Griffith, Orson Welles, Federico Fellini e Jean Renoir. Os textos de Paulo Emílio são dotados de interpretações lúcidas e não só interessantes, como verdadeiramente esclarecedoras.  Continue lendo

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Literatura

De paixões mesquinhas

29 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Vida e destino, do russo Vassili Grossman (1905-1964), é considerado um épico moderno e uma análise profunda do mosaico, social e histórico, formado durante a Segunda Guerra Mundial. O autor, que esteve no campo de batalha e acompanhou os soldados russos em Stalingrado, descreve os campos de prisioneiros militares e os campos de concentração, os altos-comandos, com Hitler de um lado e Stálin de outro, a disputa insensata dos soldados por uma única casa na cidade em ruínas, e os dramas familiares daqueles que ficaram, e que tem que enfrentar o medo político e incerteza de toda sorte. Grossman retrata a sociedade soviética como um todo a partir da batalha.

O romance foi finalizado em 1960 e, então, confiscado pela KGB. Continuou, pois, inédito até a metade de década de 1980. Quando enfim conhecido pelo grande público, tornou-se celebrado como um dos romances mais importantes do século XX. Uma narrativa magistral sobre a Segunda Guerra, uma prosa de força dramática e histórica impactante.

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Literatura

Prosa alegórica

28 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone
desenho de Degas.

esboços de Degas.

Nos pampas, em meio ao calor sufocante de fevereiro, sob a latente pressão do regime militar, um acontecimento inusitado desperta a narrativa: vários cavalos são assassinados, sem motivos aparentes ou explicações plausíveis, os corpos dos animais são encontrados, vítimas impotentes de tiros à queima-roupa.

Em Ninguém nada nunca, o argentino Juan José Saer narra de maneira oblíqua, reconhecível, mas não realista. Traça uma reflexão literária contundente sobre o mal-estar do homem no mundo, que perpassa a tensão e o mistério dos enigmáticos, e sobretudo alegóricos, abates dos cavalos.

Numa tradução inventiva do real, avessa à pura representatividade, a prosa de Saer aumenta a perceptividade simbólica do mundo e conserva no vazio as incompreensões milenares, irradiando-as, porém, ao infinito.  Continue lendo

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lançamentos

Eu, estranho, alheio

27 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“Eu devia pouco a pouco mostrar-me o contrário daquilo que era ou supunha ser para esse ou aquele meu conhecido, depois de ter me esforçado para entender a realidade que me havia dado: necessariamente mesquinha, instável, volúvel e quase inconsistente”.

Giorgio De Chirico, "Gli sposi" (1926)

Giorgio De Chirico, “Gli sposi” (1926)

A Cosac Naify está repaginando parte de sua ótima coleção “Prosa do mundo”, sob o nome “Nova prosa do mundo”. Um dos livros reeditados é o primoroso Um, nenhum, cem mil, do italiano Luigi Pirandello (1867-1936), que esteve esgotado durante algum tempo após sua quarta reimpressão, feita em 2010.

O romance foi a última obra publicada por Pirandello, notabilizado como grande dramaturgo, romancista e contista. É considerado o romance mais complexo do autor, uma especulação metafísica, que une, à sua prosa, poesia e humor. Seu protagonista, Vitangelo Moscarda, questiona sua identidade por um comentário de sua mulher, sobre seu nariz pender um pouco para a direita, coisa da qual Moscarda nunca havia se dado conta e que o leva a refletir de maneira alucinada:  Continue lendo

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lançamentos

Mundo escrito e mundo não escrito

24 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“Escrevemos para que o mundo não escrito possa exprimir-se por meio de nós” – Italo Calvino.

Odilon Redon

Odilon Redon

A coletânea de artigos, enrevistas e conferências Mundo escrito e mundo não escrito, de Italo Calvino, acaba de ser lançada no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Maurício Santana Dias. Seus temas giram em torno de questões levantadas pelas relações entre vanguarda e tradição, de reflexões sobre a leitura, a escrita e a tradução, de comentários sobre a forma do romance: em suma, investigações sobre os significados da experiência literária. A delimitação movediça entre o mundo escrito e o não escrito marca um limite, tênue, entre o real e o que é possível através da linguagem.

Para Calvino, o mundo escrito, o texto, é em si um universo próprio. Relaciona-se com o mundo não-escrito, mas não de maneira espelhada.  Continue lendo

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Literatura

Solilóquios eternos da lembrança

23 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone
gravura do húngaro István Püspöky Munkácsy

gravura do húngaro István Püspöky Munkácsy

O legado de Eszter, do húngaro Sándor Márai, revive o denso espaço de um dia, o mais importante da vida de Eszter, uma senhora que espera já muito pouco da vida. Ela e a criada, Nunu, ao receberem um telegrama de Lajos, anunciando que retornará à pacata aldeia depois de uma ausência de vinte anos, alarmam-se, com a forte presença da iminência de perigo. Sedutor, Lajos fizera promessas de amor que Eszter verdadeiramente correspondera, porém ele desposou sua irmã mais nova; falsificador de promissórias, fugitivo, capaz de mentir com lágrimas de verdade, ludibriara também aos pais e irmãos de Eszter, que entregaram-lhe quase tudo o que tinham.

Traduzido diretamente do húngaro por Paulo Schiller, o livro foi publicado em 2001 pela Companhia das Letras.

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lançamentos

Crítica, história e literatura

22 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone
gravura de Evandro Carlos Jardim

gravura de Evandro Carlos Jardim

Em Dois letrados e o Brasil nação – A obra crítica de Oliveira Lima e Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Arnoni Prado desenvolve uma interessante contraposição entre as trajetórias dos críticos e historiadores Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) e Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982).

O livro, cuja publicação havia sido anunciada alguns anos atrás, acaba de ser lançado pela Editora 34. Nele, Arnoni Prado, para analisar os momentos e processos fundamentais na formação e consolidação da crítica literária brasileira, examina as vertentes lógicas mais atuantes na dinâmica cultural do Brasil: de um lado, arranjos retóricos conservadores, de outro, os movimentos críticos libertários.

Para a composição da reflexão que encaminha o livro, o autor imergiu na vida e na obra dos dois autores, acompanhando seus percursos intelectuais. Continue lendo

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Literatura

Insólito desconcertante

20 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone

O cubano Virgilio Piñera (1912-1979) é considerado um dos mais autênticos escritores do continente americano. Sua prosa é marcada por um humor sarcástico, porém melancólico. Contos frios, publicado originalmente em 1956, reúne os temas que orientam sua obra literária, o absurdo, a angústia existencial, o humor negro.

Publicado no Brasil em 1989, o livro acaba de ser reeditado pela Editora Iluminuras, mantendo a tradução feita pela crítica e especialista na obra do cubano, Teresa Cristófani Barreto, professora do Departamento de Letras Modernas da USP.  Continue lendo

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Guia de Leitura

Livros que tratam da história do riso e da história das reflexões sobre os seus desdobramentos intelectuais, morais e sociais

17 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Ao longo dos séculos o homem tem teorizado de maneiras diferentes a função e as motivações do riso. Escárnio, zombaria, caricaturas, bufonaria tem sentidos críticos ácidos e profundos: o homem reflete enquanto ri, portanto a história do riso é também uma história das ideias.

 

Georges Minois, “História do riso e do escárnio”

O historiador Georges Minois em História do riso e do escárnio perpassa as diferentes utilizações, ao longo dos séculos, do riso e do humor pela humanidade. O autor pesquisa, assim, a relação entre o desenvolvimento humano social e psicológico e as formas de humor. Para ele, a exaltação ou condenação de formas de humor por determinadas épocas são indicativos de suas respectivas visões de mundo. Continue lendo

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