matraca

Onomatotêmico

5 junho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O poema Totem, de André Vallias, é considerado por muitos o “(contra-)hino” de nossos tempos: foi escrito a partir de 222 nomes de povos indígenas. Compostas numa tipologia criada pelo autor, as 26 estrofes do poema tem como imagem de fundo o Mapa Etno-Histórico de Curt Nimuendajú.

O poema foi concebido por André Vallias para ser reproduzido em 13 metros de comprimento, no chão do centro cultural Oi Futuro Ipanema, no Rio de Janeiro. O poeta criou uma tipologia especial para apresentá-lo, além de um totem multimídia e uma vitrine com informações sobre todas as etnias citadas.

Agora, acaba de ser publicado em forma de livro-álbum, com as folhas soltas, pela editora Cultura e Barbárie. O álbum contém o poema em 40 impressões coloridas (cera térmica), com caixa feita em serigrafia. Contém ainda uma interessante introdução trilíngue (português, inglês e guarani-kaiowá) de Eduardo Viveiros de Castro, além de mapa e gráficos com dados dos povos indígenas no Brasil. O conjunto é um grito de guerra.

Outro trabalho de Vallias na mesma direção temática, o poema “Mas que país obtuso”

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matraca

Do complexo fenômeno trágico na modernidade

4 junho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Cena da peça “La beauté del diable” com o ator Koffi Kôkô, apresentada no Brasil em 2012.

O livro Tragédia moderna, do crítico Raymond Williams, pensa a permanência do trágico após o fim da tragédia clássica. Williams, que foi um dos mais influentes pensadores e críticos da “Nova Esquerda” inglesa, pontua com os universos romanescos de Tolstói e D. H. Lawrence sua análise das obras de alguns dos grandes dramaturgos modernos e contemporâneos: Tchekhov, Pirandello, Ionesco, O’Neill, Beckett, Camus, Sartre e Brecht.

O autor amplia o conceito de tragédia, que, segundo diz, “chega a nós a partir da longa tradição da civilização européia”. Ele analisa: “Tendo separado sistemas trágicos anteriores das suas sociedades reais, levamos a cabo uma similar separação na nossa própria época, tomando como lógico que a tragédia moderna possa ser discutida sem referência à profunda crise social de guerra e revolução, no meio da qual todos nós temos vivido. Continue lendo

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Literatura

Um olhar agudo

3 junho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

A anglo-indiana Jhumpa Lahiri foi o grande nome anunciado como participante da Flip deste ano, que acontecerá entre os dias 30 de julho e 3 de agosto. A escritora foi a ganhadora do Prêmio Pulitzer de 2000 com seu livro de estreia, a coletânea de contos Intérprete de males – publicado pela Companhia das Letras e traduzido por Paulo Henriques Britto, o livro infelizmente está esgotado, disponível apenas em sebos. Seu mais recente livro, Aguapés, será lançado em pela Festa Literária, pela editora Globo.

Intérprete de Males é composto por nove contos, nos quais Lahiri fascina pela capacidade de observação que imprime sobre a realidade de suas personagens. A autora, através de uma prosa fluída, lida com a curiosidade e a observação do outro nos seus estados mais puros. Quase todas as personagens são indianos radicados nos EUA, à procura de pequenas sensações que remetam-lhes à sua cultura natal e a suas raízes históricas, quer comidas que os façam lembrar das situações domésticas e da família, quer a procura de notícias sobre seu país, na iminência de outras guerras pela tensão nuclear entre a Índia e o Paquistão.  Continue lendo

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Artes Plásticas

“o trabalho vem do trabalho”

2 junho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Desenho de Richard Serra.

A exposição Richard Serra: desenhos na casa da Gávea, composta por 96 obras selecionadas pelo próprio artista, foi inaugurada na sexta-feira, dia 30 de maio, e permanecerá aberta ao público até dia 28 de setembro, no centro cultural do Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro. A mostra foi especialmente concebida para o local, a antiga residência do embaixador Walther Moreira Salles (1912-2001), patrono e criador da instituição. Richard Serra, considerado por alguns críticos como um dos mais importantes artistas contemporâneos, para instalar seus desenhos no local solicitou a remoção de algumas paredes falsas, construídas sobre as paredes de vidro do projeto original para que o espaço abrigasse exposições. Os desenhos foram escolhidos a partir da escala da casa, “um espaço doméstico”, segundo Serra, para que entrassem em diálogo direto com o projeto modernista criado pelo arquiteto Olavo Redig Campos, em 1948, caracterizado pela transparência, que permite a interação dos interiores com os jardins planejados por Burle Marx.

Concomitante à abertura da exposição, na semana passado o IMS lançou o livro Escritos e entrevistas, 1967-2013, de Richard Serra. O conjunto de textos, em sua maioria inéditos em português, apresenta um panorama das preocupações do artista e do desenvolvimento do seu trabalho ao longo dos últimos quarenta anos.  Continue lendo

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matraca

Consciência da terra e do oceano, tal é a ilha deserta

30 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O livro A ilha deserta é composto por uma sequência heterogênea de textos de Gilles Deleuze. São vários textos esparsos, publicados entre 1953 e 1974; pequenas pérolas, entre resenhas, entrevistas, textos circunstanciais, depoimentos e conferências, há artigos luminosos sobre Bergson, Kant, Nietzsche, Hume, uma comovente homenagem a Sartre – “Ele foi meu mestre” –, uma conversa ensandecida sobre pintura –“Faces e Superfícies” – e o enigmático texto que dá título ao volume, que foi inusitadamente preparado para uma revista de turismo – único texto realmente inédito desta coletânea.

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Artes Plásticas

“Oceano, aceita-me?”

29 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

desenho de Leonilson

Todo o trabalho de Leonilson (1957-1993) é profundamente poético.

Predominantemente autobiográfica, embora ainda uma espécie de crônica – a um só tempo delicada e mordaz – angustiosa da vida moderna, a obra do artista cearense ocupa um lugar muito particular na arte brasileira.

Ao definir a sua própria obra, o artista insistia que seu sentido original deveria restringir-se ao registro de sua vida privada: “O mundo exterior não existe. O que a gente procura está dentro de nós”, dizia. Cada uma de suas obras, assim, pode ser vista como um fragmento de um diário íntimo, a organizar, e mesmo traduzir, vivências de maneira pictórica e plástica.

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matraca

Clima de pastelão macabro

28 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

A peça de teatro A lata de lixo da história – Chanchada política, escrita pelo crítico literário, sociólogo, professor e poeta Roberto Schwarz, acaba de ser relançada pela Companhia das Letras. Escrita durante o exílio do autor na França – pois, durante o AI-5, em 1968, ele, então professor de teoria literária na USP, foi acusado de promover a subversão marxista na universidade –, a peça foi inspirada pelas leituras que Schwarz fez no esconderijo improvisado, felizmente guarnecido com uma boa biblioteca, que continha, entre outros, O príncipe, de Maquiavel, e O alienista, de Machado de Assis: inspiração e a matéria-prima para A lata de lixo da história, chanchada em treze cenas que transfigura o clássico machadiano numa sátira impiedosa da sociedade brasileira durante o regime militar.

A partir de uma visão crítico-irônica dos usos e abusos do poder, é construída a situação farsesca da peça, utilizando-se do cômico e do grotesco como expressões de um conteúdo crítico atualizado.  Continue lendo

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matraca

Documentos líricos

27 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Foto de Maureen Bisilliat, do livro “Xingu”

“Ninguém ignora o que se passa com o índio. Mas, para mostrar seu drama, não é necessário expor só a degradação, a decadência. É igualmente importante deixar patente o quanto ele foi belo, digno e forte, e a grandeza do que está sendo destruído” – Orlando Villas Bôas.

A inglesa Maureen Bisilliat descobriu a fotografia através da literatura brasileira. Chegou ao Brasil em 1952, após ter estudado pintura em Paris e Nova York. Aqui, trocou a pintura pela fotografia. Um de seus belos, poéticos e profundos  livros sobre a cultura brasileira é este Xingu – Território Tribal, realizado em parceria com os irmãos Villas Bôas

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história

Pelas fronteiras coloniais

26 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Manuscrito de Francisco José de Lacerda e Almeida

O livro Francisco José de Lacerda e Almeida – Um astrônomo paulista no sertão africano é um interessante estudo sociológico, antropológico, histórico e biográfico, realizado por Magnus Roberto de Mello Pereira e André Akamine Ribas.

Lacerda e Almeida, como muitos brasileiros no século XVIII, estudou na Universidade de Coimbra, na qual estudou Matemática e Astronomia. Assim que se formou, foi contratado pela coroa para integrar a comissão de demarcação das fronteiras entre os territórios americanos de Portugal e Espanha, pelo que passou dez anos no Mato Grosso. Lacerda e Almeida posteriormente voltou a Portugal, onde se tornou professor de astronomia; em 1797 foi incumbido de atravessar a África, de Moçambique a Angola. Morreu no sertão africano, sem conseguir cumprir sua missão. A demarcação das fronteiras da América do Sul e a expedição de travessia da África estão entre as maiores aventuras científicas do século XVIII.

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matraca

Aprendizagem e instrução

23 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Ivan Illich (Viena, 1926 – Bremen, 2002) foi um intelectual que teceu uma série de críticas às instituições da cultura moderna. Pensador da ecologia política, ele foi uma figura importante da crítica da sociedade industrial. Seu livro mais conhecido é Sociedade sem escolas, publicado em 1971, no qual desenvolve uma profunda crítica à institucionalização da educação nas sociedades contemporâneas. Utilizando exemplos que mostram a natureza ineficaz da escolarização, ele defende a aprendizagem autodidata baseada em relações sociais intencionais, uma intencionalidade fluida e informal. Ele indica uma necessidade de se chegar a um entendimento prévio sobre o que se entende por “escola” e propõe o que chama de “fenomenologia da escola pública”: sua definição entende a “escola” como um processo, que requer assistência de tempo integral a um currículo obrigatório, em certa idade e com a presença de um professor.

Segundo Illich, metade dos habitantes do planeta jamais colocou os pés numa escola ou teve contato com professores e, entretanto, ainda assim aprende com relativa eficiência “a mensagem transmitida pela escola: precisam de escola sempre e sempre mais”. A escola “os instrui na sua própria inferioridade […]. Desse modo os pobres são despojados de sua autoestima, pela submissão a uni credo que garante a salvação apenas pela escola”. Continue lendo

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cinema

Sondagens, exploração, sobrevôos

22 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

cena de “Ladri di Biciclette”, de Vittorino de Sica

Lançamento de hoje, o livro O que é o cinema?, de André Bazin, traz uma coletânea de ensaios fundamentais, não só sobre questões do cinema em si e de sua história, mas articulando-as a suas relações com a filosofia, com a própria ideia de representação, com fotografia, teatro e literatura. Bazin tece uma crítica versátil, clara e instigante. Seus ensaios são reflexões estimulantes, que transitam da escola italiana e soviética ao universo do western e das pin-ups. Mas o autor adverte, o título “não é bem a promessa de resposta, mas antes o enunciado de um problema que o autor se colocará ao longo das páginas”.

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古悠悠行

21 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Bilíngue, a Antologia da poesia clássica chinesa, coletânea que contempla a poesia realizada sob a dinastia Tang (618 – 907), é a mais abrangente já publicada em língua portuguesa. Reúne mais de 200 poemas de mais de 30 autores, incluindo algumas mulheres, como Li Ye, Xue Tao, Yu Xuanji. Entre os autores, destacam-se os três principais nomes da poesia daquele período: Li Bai, Du Fu, Wang Wei. A tradução contempla também escritores como Bai Juyi, Meng Haoran, Li Shangyin, Du Mu, Liu Yuxi, Cen Shen, Wen Tingyun e Li He. A Dinastia Tang é considerada a “idade de ouro” da literatura chinesa clássica, período em que as experimentações formais e linguísticas atingiam o seu auge e cunharam modelos clássicos que perduraram até a chegada do modernismo no século XX. Os tradutores, Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao, apresentam na cuidadosa edição da Editora Unesp uma introdução histórica, notas explicativas e resenhas sobre os autores. O trabalho introdutório aborda ainda questões de teoria literária e da teoria da tradução, apresentam aspectos estruturais da poesia clássica chinesa, expõem os conceitos de paralelismo, tradução-recriação, tradução estrangeirizante – tomando como bases teóricas textos de Walter Benjamin, Roman Jakobson, Haroldo de Campos, François Cheng, Ezra Pound, Octavio Paz.

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Obscuridades do direito e da democracia

20 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Diante do incessante avanço do que foi definido como uma ‘guerra civil mundial’, o estado de exceção tende sempre mais a se apresentar como o paradigma de governo dominante na política contemporânea. Esse deslocamento de uma medida provisória e excepcional para uma técnica de governo ameaça transformar radicalmente – e, de fato, já transformou de modo muito perceptível – a estrutura e o sentido da distinção tradicional entre os diversos tipos de constituição. O estado de exceção apresenta-se, nessa perspectiva, como um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo”.

Em Estado de Exceção, o filósofo italiano Giorgio Agamben estuda a contraditória figura dos momentos (outrora) “extraordinários” – de emergência, sítio, guerras –, nos quais o Estado manipula dispositivos legais para suprimir limites à sua atuação, a própria legalidade e os direitos dos cidadãos. Segundo o autor, “o estado de exceção apresenta-se como a forma legal daquilo que não pode ter forma legal”: um poder além de regulamentações e controle, que hoje não é mais excepcional, é o próprio padrão de atuação dos Estados.

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Linguagem densa

19 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

HISTÓRIA INVISÍVEL

Era o vento entrando

pela casa, abrindo seus recessos

em varandas, instando pelo

espaço sem limites, até

se defrontar com o espelho

e logo se deter, cristalizado.

 

Adivinhação da leveza, de Duda Machado, é composto por 69 poemas que trazem alguns olhares sobre a linguagem e sobre o mundo, poemas em que cotidiano, memória e reflexão estética se entrelaçam com graça e ironia. O poeta baiano quebrou com este livro (publicado em 2011) um jejum editorial de quatorze anos após a publcação de Margem de uma onda – que sucedera em sete anos o livro Crescente, coletânea de sua poesia completa até então. A poeta e tradutora Simone Homem de Mello, em resenha do livro escrita para a revista Zunái, comenta: “Ao contrário dos lacônicos esporádicos, Duda é um lacônico intenso, de modo que os quatorze anos aparentemente transcorridos em silêncio estão presentificados, tangíveis, condensados em menos de 80 páginas”. Para Duda Machado, como diz um de seus poemas, ‘o passado volta ou sequer/se foi, enquanto se transforma;/o passado/ainda está para ser;/entretanto,/subsiste/a leveza de lidar/com o que te vais tornando’.

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matraca

Aparente unidade linguística

16 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O livro História social da língua nacionalorganizado pelas pesquisadoras Ivana Stolze Lima e Laura do Carmo, é resultado de um seminário realizado em outubro de 2007, cujas discussões giraram em torno da história própria da língua portuguesa no Brasil, marcada pelas condições sociais e culturais relacionadas à colonização, à escravidão, à relação com os indígenas e à imigração.

gravura de Hansen Bahia, da série “Navio negreiro”

Os artigos que compõem o livro foram formulados por pesquisadores de história, antropologia, língua portuguesa, linguística e literatura, de dez instituições, formando assim um conjunto com panorama diversificado e com diferentes focos de períodos e de fontes de pesquisa. “Livro, língua e leitura no Brasil e em Portugal na Época Moderna”, de Luiz Carlos Villalta, “Africanos, crioulos e a língua portuguesa”, de Dante Luccesi, “Fontes escritas e história da língua portuguesa no Brasil: as cartas de comércio no século XVIII”, de Afranio Gonçalves Barbosa, “Uma história da história nacional: textos de fundação”, de Manoel Luiz Salgado Guimarães, “Falas e cores: um estudo sobre o português de negros e escravos no Brasil do século XIX”, de Tania Alkmim são apenas alguns dos artigos.

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