matraca

Aos espíritos livres

1 abril, 2014 | Por Isabela Gaglianone

obra-incompleta-nietzsche

Mais que uma coletânea panorâmica do pensamento de Friedrich Nietzsche, este volume abarca uma compreensão da obra do filósofo. Os textos, selecionados por Gérard Lebrun, saudoso professor do Departamento de Filosofia da USP, respondem a duas questões: por que e como ler Nietzsche. Há, afinal, uma maneira “lebruniana” de trabalhar a filosofia de Nietzsche, como bem analisou o professor Ivo da Silva Júnior em artigo publicado nos Cadernos Nietzsche: para Lebrun, “não se tratava de pensar a partir de Nietzsche ou com ele as questões da contemporaneidade. Tratava-se de avaliar os tempos atuais por meio da História da filosofia. Nada mais indicado então que a filosofia de Nietzsche para fornecer os “instrumentos” para esse trabalho avaliativo”. Este volume das Obras incompletas, além da cuidadosa seleção de textos, conta com a precisa tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, prefácio e revisão técnica de Márcio Suzuki, além de posfácio de Antonio Candido. Um time de peso intelectual incomparável faz, desta edição, portanto, uma pequena joia editorial.

Continue lendo

Send to Kindle
Crítica Literária

Agradável melancolia

31 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

9788573265521

Fruto de aulas proferidas no Collège de France, o ensaio A melancolia diante do espelho esmiúça a potencialidade intelectual – filosófica e poética –, do estado de espírito melancólico. Starobinski examina, com erudição e sensibilidade, três poemas de As flores do mal, de Baudelaire. Para ele, o poeta seguiu caminhos que renovaram o tema da melancolia na arte ocidental. A melancolia, nesse sentido, seria um meio pelo qual os signos verbais são também sintomas de uma condição humana, complexa, percebida pela riqueza da figuração da melancolia. O interessante livro acaba de ser publicado pela Editora 34, com tradução de Samuel Titan Jr.

Continue lendo

Send to Kindle
história

Entre a história e a poesia

28 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O tema deste livro é a tradição moderna da poesia. A expressão não só significa que há uma poesia moderna, como que o moderno é uma tradição. Uma tradição feita de interrupções, em que cada ruptura é um começo. Entende-se por tradição a transmissão, de uma geração a outra, de notícias, lendas, histórias, crenças, costumes, formas literárias e artísticas, idéias, estilos; por conseguinte, qualquer interrupção na transmissão equivale a quebrantar a tradição. Se a ruptura é destruição do vínculo que nos une ao passado, negação da continuidade entre uma geração e outra, pode chamar-se de tradição àquilo que rompe o vínculo e interrompe a continuidade?

 

Octavio Paz, poeta, crítico e ensaísta dos mais relevantes do século XX, tem no Brasil parte de sua obra crítica relançada pela Cosacnaify, em parceria com a editora mexicana Fondo de Cultura Económica. Continue lendo

Send to Kindle
Literatura

Um fuzilado está vivo

27 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Rodolfo Walsh, reconhecido como um dos escritores latino-americanos mais importantes da atualidade, nasceu em 1927 na Argentina e foi barbaramente assassinado pela ditadura nas ruas de Buenos Aires, em 1977. Vigoroso militante político da esquerda revolucionária peronista, Walsh chegou à liderança do movimento Montoneros, em resistência à ditadura militar. Para várias gerações de intelectuais, sua contundente “Carta aberta à Junta Militar“, em que denunciou os crimes da ditadura instaurada em 1976, tornou-se um modelo de resistência aos regimes autoritários e de fé na força da palavra contra os desmandos do poder. Seu assassinato brutal – crivado de balas a tal ponto, seu peito se abriu devido a tantos ferimentos e seu corpo, depois, nunca mais foi encontrado –, seguiu a postagem de cópias da Carta a amigos e colaboradores ao redor do mundo.  Continue lendo

Send to Kindle
cinema

Multifacetada metáfora analítica

26 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O recente mistério em torno do avião desaparecido da Malaysia Airlines retomou uma questão: que segredos pode conter a caixa preta de um avião que caiu? Os últimos “sinais vitais” do voo, antes de sua queda, os vestígios da catástrofe. O israelense Amós Oz aproveitou a forte imagem para usá-la como impactante metáfora – sua caixa preta não se refere a um avião, mas ao rompimento de uma relação amorosa em um divórcio escandaloso, permeado por paixões que beiram a loucura e cujos rastros prolongam-se presente adentro. A caixa-preta, porém, não é um livro a respeito do romance em torno do qual estrutura-se: este é, na realidade, somente o meio através do qual Amós Oz reflete sobre conflitos mais amplos e profundos: o complexo panorama social, religioso e político da vida em Israel nos últimos anos. A maneira astuciosa pela qual a história é construída permite com que ambos pontos de vista sejam explorados simultaneamente. Um romance político, desenvolvido como uma proposta polifônica. Continue lendo

Send to Kindle
matraca

A bordo

25 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“As velas representam para mim o mundo mais sincero da vida. O mundo da sabedoria da obediência aos sinais da natureza”. 

 

Desfazer-se de uma vida citadina para ser um cidadão cosmopolita de outra maneira: pelo mundo, a bordo de um veleiro.

Essa é uma decisão cada vez mais tomada ao redor do mundo. E comum, entre as pessoas que tomam essa decisão, é manter um diário, o famoso diário de bordo, que recebe aquilo que vai tornar-se lembrança como a promessa impressa de tornar possível seu resgate. O diário deste casal, em especial, que vive no veleiro Avoante, pode ser acompanhada semanalmente através da coluna que Nelson mantém no jornal Tribuna do Norte. Sua vida a bordo tornou-se, em suas mãos, material para crônicas semanais. Os textos partem de pequenos detalhes e curiosidades sobre a vida náutica e desembocam em reflexões gerais, numa fluente prosa serena.

Continue lendo

Send to Kindle
Literatura

Princípios

24 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Chegado a esse ponto, de onde não mais se vê o lugar de partida, resta apenas tocar para a frente. Não ter para onde voltar e saber que não é a partir daqui que inicio”.

 

Rodrigo Naves, conhecido como um dos críticos de arte mais relevantes e atuantes do cenário brasileiro, é também um surpreendente escritor. Seus contos caracterizam-se por um aspecto seco, em que a linguagem desdobra-se, sobrepujando o enredo, as personagens, a narrativa, seu espaço e seu tempo. Seu trabalho analítico como crítico espelha-se nos breves textos de O filantropo pela captação instantânea daquilo que é narrado. Seus contos, construídos sobre poucas e precisas palavras, ficam num rico limiar entre ensaios e poemas em prosa e, ali muito bem equilibrados, criam um “sólido chão prosaico” e debruçam-se sobre temas éticos. Ao longo do livro, de história em história, o “filantropo” que dá nome à obra vai sendo paulatinamente construído. Continue lendo

Send to Kindle
matraca

O alcance da visada de Hermann Broch

21 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Hermann Broch

Grandioso lançamento deste mês, o livro Espírito e espírito de época – Ensaios sobre a cultura da modernidade [Geist und Zeitgeist: Essays zur Kultur der Moderne), reúne seis ensaios do austríaco Hermann Broch, um dos mais relevantes escritores do século XX.

Traduzidos por Marcelo Backes, os ensaios foram escritos entre os anos de 1933 e 1949 e versam sobre arte, mito e direitos humanos, contextualizados pela decadência dos valores, característica do fin-de-siècle – época marcada pelo fim do império dos Habsburgo –, cujo ápice foram os horrores do nazismo.

Unindo diversas frentes intelectuais, pensando a literatura em relação à filosofia, à história, à política, Broch, por exemplo, foi um dos primeiros intelectuais a reconhecer o trabalho de James Joyce, a respeito de quem escreveu o ensaio “James Joyce e o presente”, incluído neste volume.  Continue lendo

Send to Kindle
Literatura

Ironia filosófica

20 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Em que está trabalhando?”, perguntaram ao sr. K. Ele respondeu: ” Tenho muito o que fazer, preparo meu próximo erro”.

 Escritos ao longo de trinta anos, de 1926 a 1956, ano da morte de Brecht, os textos aqui reunidos, são todos relacionados à personagem do sr. Keuner – uma figura inusitada, misto de filósofo, professor e homem de ação, considerado por muitos como um alter ego do autor, combina em doses iguais Karl e Groucho Marx, empregando a dialética e o humor para afinar sua ironia.

A edição da Editora 34, traduzida por Paulo César de Souza, é a mais completa coletânea das Histórias do sr. Keuner de que se tem notícia em qualquer língua, pois é a única que integrou, aos 87 textos comumente conhecidos, mais 58 textos descobertos apenas em 2002 pelo pesquisador Werner Wüthrich em meio aos manuscritos originais deixados por Brecht na Suíça – país em que viveu por cerca de um ano antes de ir para Berlim oriental, onde viveu seus últimos dias.  Continue lendo

Send to Kindle
Crítica Literária

lirismo metalinguístico, poética acadêmica

19 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

[…] A experiência da imagem, anterior à da palavra, vem enraizar-se no corpo. A imagem é afim à sensação visual. O ser vivo tem, a partir do olho, as formas do sol, do mar, do céu. O perfil, a dimensão, a cor. A imagem é um modo da presença que tende a suprir o contato direto e a manter, juntas, a realidade do objeto em si e a sua existência em nós. O ato de ver apanha não só a aparência da coisa, mas alguma relação entre nós e essa aparência: primeiro e fatal intervalo. Pascal: ‘Figure porte absence et présence’.

O belo livro O ser e o tempo da poesia, do professor e crítico literário Alfredo Bosi, foi publicado originalmente em 1977, pela Editora da Universidade de São Paulo. Em 2000, foi trazido de volta ao mercado editorial brasileiro pela Companhia das Letras. Interessado pela investigação do “ser” e da “origem” da poesia, numa chave de leitura que retoma ideias desenvolvidas pelo filósofo italiano Vico, ele procura pensar o primado da linguagem poética em uma nova ordem de valores – a alteridade estranha das coisas e dos homens, o pensamento humano enquanto sonoro, a formação de imagens, o ritmo do discurso poético a música na linguagem.

Continue lendo

Send to Kindle
matraca

A matéria da poesia

18 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O livro Junco, de Nuno Ramos, reúne poemas articulados a fotografias realizadas, ao longo dos quatorze anos de elaboração do livro. As fotos e os versos são protagonizados por cães largados no asfalto e cadáveres de árvores sobre a areia, imagens das águas e da praia e de fragmentos; o conjunto entre imagens e palavras foi considerado, por alguns, um diálogo perturbador, por outros, a redução dos poemas a meras legendas. Publicado pela editora Iluminuras, em 2011 é o primeiro livro de poesia de Nuno Ramos.

Um dos poemas utiliza quatro versos de  “A Máquina do Mundo” de Carlos Drummond de Andrade. Talvez por isso, mesmo antes de sua publicação, Junco tenha ganho como epíteto “a máquina do mundo cão”, como apontou a crítica literária Flora Süssekind: no texto de orelha ao livro, ela analisa: “Não é preciso adivinhar a referência à busca do sentido do mundo, à “total explicação da vida” que espantosamente se abre aos olhos de um caminhante solitário, ainda que para se recolher, logo em seguida, e sem desfazer o enigma, como no poema de Drummond. A máquina do mundo se expõe diretamente aí em nota e em recortes brevíssimos, encravados nos textos”.

Continue lendo

Send to Kindle
matraca

Lavorare stanca

17 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Trabalhar cansa foi o livro de estreia de Cesare Pavese (1908-1950), um dos escritores italianos mais importantes do século XX. Com um verso mais narrativo, aberto à prosa da vida cotidiana, as poesias aqui reunidas retratam as noites insones das cidades, povoadas pelas figuras de proletários, prostitutas, bandidos, bêbados e mendigos vivendo seus dramas diários.

Escrito no contexto da Itália fascista, Trabalhar cansa é um marco de renovação e revitalização da poesia italiana, até então dominada por tendências mais herméticas da “poesia pura”. Depois dessa primeira experiência poética, Pavese passou a dedicar-se quase exclusivamente à prosa, como em Diálogos com LeucóContinue lendo

Send to Kindle
Literatura

Partitura literária

14 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Frans Krajcberg, Sem Título.

a pedra lisa tem

escamas

 

O interessante livro Totens, de Sérgio Medeiros, foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, na categoria Poesia. Seu trabalho desenvolve-se a partir de um inusitado entroncamento, que ele encontra entre a poesia e a antropologia.

Totens reúne dois dos trabalhos mais recentes de Sérgio Medeiros: “Enrique Flor”, que recria uma passagem do Ulysses de Joyce, em que aparece o músico português Flor, especialista em “música vegetal”; o segundo trabalho, “Os eletoesqus”, reinventa uma lenda da fronteira do Brasil com o Paraguai sobre um totem que é o bafo do verão, um sopro ardente.

Continue lendo

Send to Kindle
cinema

A enorme carga dos sonhos

13 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Um visionário cuja obsessão é construir uma casa de ópera no coração da floresta amazônica: a cena clássica é a transposição de um pequeno navio montanha acima. O cinema de Herzog é inconfundivelmente poético. Seu lirismo é metafórico, de maneira extravagante, porém precisa.

Fitzcarraldo é a história de um sonho, de sua impossibilidade e de sua realização. Drama que as próprias filmagens reverberaram, em si mesmas, na sua intimidade. A conquista do inútil é o diário que Werner Herzog manteve durante as filmagens, Continue lendo

Send to Kindle
Artes Plásticas

Posteridade, presente

12 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O crítico e historiador da arte Hal Foster é conhecido por suas reflexões sobre as vanguardas artísticas do pós modernismo. Em O retorno do real, propôs um modelo das recorrências históricas das vanguardas, em que reconhece um movimento cíclico, no qual as vanguardas sobrepõem-se, colocando-se em relação a inevitáveis falhas das anteriores. Para Foster, esses ciclos são complementares, não opostos. Analisando os modelos críticos na arte e na teoria a partir de 1960 por meio de uma nova narrativa da vanguarda histórica e da neovanguarda, ele argumenta que a vanguarda retorna para nós do futuro, reposicionada por práticas inovadoras do presente. Segundo Foster, vivenciamos, agora, um retorno ao real, em que arte e teoria voltam-se para a materialidade de corpos reais e de lugares concretos. O livro, originalmente publicado em 1996, agora é lançado no Brasil pela Cosacnaify, com tradução de Célia Euvaldo e texto de orelha de Sônia Salzstein.

Continue lendo

Send to Kindle