Arquivo da tag: filosofia

Guia de Leitura

Livros que desdobram conceitualmente o ato de ver

1 abril, 2015 | Por Isabela Gaglianone

O que se vê; como interpretamos o que vemos; o que a intermediação visual-cognitiva implica no modo de conhecimento.

Sociologia, fenomenologia, semiologia, história, teoria da arte: uma série de ciências desdobraram o ato de ver para questionarem o que, enquanto relação do homem com o mundo e condição de seus enunciados, ele pode revelar.

 

Jacques Derrida, “Pensar em não ver”

O livro Pensar em não ver: escritos sobre a arte do visível, do filósofo francês Jacques Derrida, reúne textos que foram produzidos ao longo de vinte e cinco anos, de 1979 a 2004, que configuram-se como testemunhos da reflexão sobre o primado filosófico do visível na arte, deslocada para questões de língua.

Ao colocar em questão a inteligibilidade da arte, Derrida a inscreve, junto com o visível de maneira geral, no centro de suas preocupações sobre a escrita, tematizando a idiomaticidade da arte. São, pois, mais do que reflexões sobre as artes visuais, investigações sobre a própria questão do que é visível que Derrida tece ao longo destes ensaios. O filósofo trata o visível como suporte de contrapontos entre o sensível e o inteligível, o luminoso e o obscuro.

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A produção é destrutiva

25 março, 2015 | Por Isabela Gaglianone

cartaz

O filósofo húngaro István Mészáros, interpreta, em O desafio e o fardo do tempo hitórico, o significado histórico da crise estrutural do capital, que, como “ordem estabelecida”, produz destruição – do tempo livre, da educação, das pessoas, da cultura, da natureza, da vida. Articulando argumentos de filosofia, economia política e teoria social, Mészáros mostra que capital atua somente na destruição e reafirma a necessidade do socialismo no século XXI.

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Diálogo da religião com a psicanálise

20 fevereiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone
Gravura de Albert Dürer, “Quatro cavaleiros do Apocalipse”.

Gravura de Albert Dürer, “Quatro cavaleiros do Apocalipse”.

O debate entre o polêmico filósofo esloveno Slavoj Žižek e o ortodoxo teólogo croata Boris Gunjevic, travado ao longo do livro O sofrimento de Deus – Inversões do Apocalipse, acaba de ser publicado no Brasil pela editora Autêntica, sob tradução de Rogério Bettoni.

São seis capítulos que abordam o cristianismo, o islã e o judaísmo através de análise hegeliana e lacaniana, de um lado, agostiniana, por outro, que estruturam um panorama da maneira como cada sistema religioso entende a humanidade e a divindade, e que mostram a dimensão de suas diferenças.

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Literatura

O que se pode saber de um homem

9 fevereiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

“Flaubert representa, para mim, exatamente o contrário da minha própria concepção da literatura: um alienamento total e a procura de um ideal formal que não é, de modo algum, o meu…” – Sartre.

 

– Caricatura de Flaubert, por Eugène Giraud

A última obra escrita por Sartre, O idiota da família, é um verdadeiro monumento. Publicado em três volumes, aos quais se seguiria ao menos mais um, rascunhado, porém inacabado pelo avanço da cegueira e de problemas de saúdes do filósofo, trata-se de um profundo e abrangente estudo sobre a vida e obra de Flaubert, através de um método investigativo que articula existencialismo, psicanálise e crítica literária. É, pois, considerado síntese de todo o pensamento filosófico sartreano.

À época da publicação do primeiro volume, Sartre, indagado sobre a natureza de seu interesse por Flaubert, disse que o escritor representava seu avesso e que era justamente este o motivo de sua admiração. O filósofo reconstrói os fundamentos psicológicos de Flaubert a partir de reflexões sobre seu meio familiar, entre uma mãe fria e um pai autoritário. O título, Sartre explica: “Uma testemunha conta que o menino aprendeu a ler muito tarde e que seus familiares o tinham então por criança retardada”Continue lendo

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Filosofia do bom humor

30 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

El Greco, “Alegoria com menino acendendo vela na companhia de um macaco e de um tolo”

David Hume fala da “agradável melancolia” necessária ao estudo filosófico. O tédio, a melancolia, o bom humor são algumas das questões que embasam a chamada “arte de viver”, e que permeiam noções estéticas, morais e políticas de todo o Iluminismo. É o que o professor Márcio Suzuki, em A forma e o sentimento do mundo, lançado pela editora 34 no final do ano passado, investiga, com sua peculiar prosa ensaística, erudita e original.

Em sua análise, aborda filósofos como David Hume, Adam Smith, Francis Hutcheson, Adam Ferguson, Immanuel Kant, bem com escritores como Laurence Sterne. Suzuki mostra como suas ideias filosóficas englobam usos práticos e morais de atividades como a conversação, o jogo, a caça, e todas as formas de “distração”, de preenchimento do tempo destinado ao ócio em geral. As formas de humor, de diversão, de devaneios e de atividades que estimulam o lúdico, ainda que não tenham utilidade prática imediata, são ricas aberturas à criatividade e vias de um filosofar estimulante.

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Racionalidade instrumentalizada

21 janeiro, 2015 | Por Isabela Gaglianone

Técnica e ciência como “ideologia”, de Jürgen Habermas, é uma coletânea de cinco ensaios, publicada originalmente em 1968. O ensaio cujo título dá nome ao volume originou o livro que seria publicado treze anos mais tarde, Teoria da ação comunicativa, considerado o ponto nevrálgico de toda a produção filosófica de Habermas.

Em suas considerações iniciais à obra, o filósofo aponta os ensaios “Técnica e ciência como ideologia” e “Conhecimento e interesse” – transcrição de uma aula inaugural, por ele proferida na Universidade de Frankfurt – como diferentes dos demais da coletânea, por não serem meros “trabalhos de ocasião”.

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Literatura

Ficção filosófica

17 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Gabriel Tarde (1843-1904)

Imbricada entre a Viagem ao centro da Terra de Júlio Verne e a Máquina do tempo de H. G. Wells, a ficção filosófica científica Fragmento de história futura, de Gabriel Tarde, propõe, a seu turno, uma visão dos séculos vindouros. A obra, publicada originalmente em 1896, é considerada uma fábula sociológica. Seu narrador vive num futuro distante, por volta do século XXXI, e conta a história de um mundo que não precisa de luz, nem de felicidade: mundo em que, extinto o sol por uma catástrofe, a humanidade decide habitar as entranhas da terra, distante de qualquer vestígio de natureza. Nossos supostos descendentes ‘trogloditas’ – não no sentido de neoprimitivos, mas como representantes de uma artificialização emancipatória da humanidade, responsável pelo florescimento de uma civilização refinada – deram início a uma utopia subterrânea, o nascimento de uma humanidade que pode tirar tudo de si mesma, para a qual a natureza ganha “o encanto profundo e íntimo de uma velha lenda, mas de uma lenda na qual acreditamos”.

O cenário atordoante que a imagem cria, serve para Tarde como desenvolvimento de um experimento ficcional para suas teorias sociológicas. Trata-se de um experimento intelectual para pensar a essência da sociedade humana, através da descrição de uma “humanidade inteiramente humana” resultante da “eliminação completa da Natureza viva, seja animal, seja vegetal, excetuado apenas o homem. Daí, por assim dizer, uma purificação da sociedade”.

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O encontro entre eternidade e história

16 dezembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Ticiano

Acaba de ser lançado no Brasil o interessante ensaio Pilatos e Jesus, de Giorgio Agamben. Trata-se de uma profunda reflexão sobre o enigma do julgamento de Jesus Cristo à luz da análise da figura de Pilatos, que, segundo Agamben, é a responsável por assegurar o caráter histórico da paixão de Cristo, por ser talvez a única personagem genuinamente humana, de carne e osso, dos Evangelhos. Um homem de quem conhece-se hesitações, o medo, o ressentimento, a hipocrisia, o sarcasmo. Agamben extrai do breve encontro entre Pilatos e Jesus, para além do drama da paixão e da redenção, o encontro único entre o “mundo dos fatos” e o “mundo da verdade”, o embate entre a eternidade e a história.

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O pensamento metafórico

28 novembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Wesley Duke Lee

Linguagem e mito, de Ernst Cassirer (1874 – 1945), foi publicado originalmente em 1924. Sua primeira e talvez definitiva tradução no Brasil foi feita por Anatol Rosenfeld e publicada em 1972.

Cassirer pensa a linguagem e o mito como correspondentes de uma mesma maneira de pensar, grosso modo, metafórica.

Argumentando a partir de trabalhos filosóficos e filológicos, ele começa sua investigação questionando a possibilidade de leitura da essência de cada configuração mítica enquanto intimamente relacionada ao nome, colocando sob análise a identidade latente entre o nome e a coisa. Reflete sobre a delimitação da essência em conceitos, baseando-se em noções kantianas, das quais decorre-se que as formas intelectuais devem ser tomadas não como representações ou símbolos, mas como geradoras de seu próprio mundo significativo.

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Palavras visíveis

24 novembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“O que faço com as palavras é fazê-las explodir para que o não verbal apareça no verbal”.

fotografia de Frédéric Brenner

O livro Pensar em não ver: escritos sobre a arte do visível, do filósofo francês Jacques Derrida, reúne ensaios sobre desenho, pintura, fotografia, cinema, videoinstalação.

Trata-se de uma coletânea inédita de textos do filósofo, publicados originalmente em algumas renomadas revistas de arte francesas, como a Cahiers du cinéma ou a Contretemps. A reunião dos ensaios realizada neste volume é um feliz acontecimento intelectual, pois tratam-se de textos esparsos que encontravam-se esgotados e dificilmente acessíveis. O volume traz ainda duas conferências nunca publicadas.

São textos escritos ao longo de vinte e cinco anos, de 1979 a 2004, e que configuram-se como testemunhos da reflexão sobre o primado filosófico do visível na arte; também sobre o deslocamento desta reflexão para questões de língua e linguagem, de palavras e de escrita.

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Forma-de-vida

15 outubro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Nós jamais chegaremos a perceber o que se passa hoje em dia sem compreender o fato de que o capitalismo é na verdade uma religião” – G. Agamben.

São Francisco de Assis, por Giotto.

Altíssima pobreza, de Giorgio Agamben, dá prosseguimento e às reflexões e análises iniciadas em obras anteriores e debruça-se sobre o universo sacerdotal, reconstruindo a genealogia de uma forma-de-vida, “uma vida que se vincule tão estreitamente a sua forma a ponto de ser inseparável dela”. Sua argumentação funda-se na ampla análise do legado mais precioso do franciscanismo – ao qual a história ocidental inúmeras vezes voltou-se como sua tarefa indeferível –, a concepção de vida que não se encaixa em vínculos de propriedade, que não é sujeita à posse, somente ao uso comum. Agamben parte de uma leitura profunda do monasticismo ocidental, de Pachomius a São Francisco, reconstruindo em detalhe a vida dos monges. O filósofo defende a tese de que a verdadeira novidade do monasticismo não encontra-se na indistinção entre vida e norma, mas na descoberta desta concepção, em que “vida”, talvez pela primeira vez, foi afirmada em sua autonomia; convepção a partir da qual a alegação da “altíssima pobreza” e do “uso” desafiam e emancipam-se da lei.

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fotografia

“O fotógrafo saqueia e também preserva”

19 setembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“A humanidade permanece, de forma impenitente, na caverna de Platão, ainda se regozijando, segundo seu costume ancestral, com meras imagens da verdade”.

Susan Sontag, fotografia de Chris Felver

Sobre fotografia, de Susan Sontag, originalmente publicado em 1977, reúne ensaios que se tornaram clássicos pela originalidade com que extrapolam a reflexão sobre a história da fotografia e aprofundam-se na análise da nova ética da visão instaurada pelo advento da máquina fotográfica. Uma reflexão filosófica, sociológica e artística, sobre o mundo em que as relações humanas passaram a ser mediadas por imagens – “mundo-imagem”, como define Sontag.

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Ensaio sobre o medo e os fins

17 setembro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

A pergunta do título é desconcertante: Há mundo por vir?. O livro de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro, lançamento co-editado pela editora Cultura e Barbárie e pelo Instituto Socioambiental (ISA), propõe uma reflexão séria a respeito dos atuais discursos sobre “o fim do mundo”.

Lasar Segall

Atualmente, os materiais e análises sobre as causas (antrópicas) e as consequências (catastróficas) da “crise” planetária vêm se acumulando com extrema rapidez, mobilizando tanto a percepção popular quanto a reflexão acadêmica. Os discursos que traçam prognósticos fatalistas são pelos dois autores tomados como experiências de pensamento, como tentativas de invenção, não necessariamente deliberadas, de uma mitologia adequada ao presente.

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Filosofia e arte

4 agosto, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Marcel Duchamp

O descredenciamento filosófico da arte, de Arthur C. Danto, desenvolve interessantes considerações estéticas, suscitadas pelas análises da filosofia e da arte, tanto modernas quanto contemporâneas, envolvendo sobretudo o problema do esmaecimento das distinções claras para a definição de uma obra enquanto artística.

Publicado no Brasil pela editora Autêntica, com tradução realizada pelo professor Rodrigo Duarte, o livro representa relevante contribuição para as discussões estéticas em torno da arte contemporânea.

A obra traz nove ensaios, que abrangem diferentes perspectivas, porém tendo como pano de fundo a filosofia da história da arte. Continue lendo

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Fragmentação social

30 julho, 2014 | Por Isabela Gaglianone

M. C. Escher

A filósofa Marilena Chaui, nos ensaios publicados neste mês pela editora Autêntica em coedição com a Fundação Perseu Abramo, reflete sobre o sentido d’A ideologia da competência. Ao longo do livro, a autora identifica uma nova classe trabalhadora, constituída no cenário brasileiro em meio ao avanço de políticas econômicas e sociais democráticas que, sob as condições impostas pela economia neoliberal, acabaram por difundir tanto a ideologia da competência quanto a racionalidade do mercado. Analisando o sentido desta ideologia, Chaui constitui uma gênese do conceito, desde a regulação fordista até o avanço do neoliberalismo, concentrando sua análise em duas instituições: a universidade e a indústria cultural. Sua indagação, amparada pelo uso erudito de boa parte do história da filosofia, perscruta o mais profundo sentido do que é o político e identifica uma modernização do autoritarismo no Brasil. Um livro de combate, que mostra a força e o perigo de ideologias que, colocadas como míticas verdades universais, são fruto de construções sociais ao mesmo tempo que ferramentas de sua manutenção.

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