matraca

Lirismo dessacralizante

6 janeiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

A poeta Ana Cristina César teve uma vida breve. Foi, ainda assim, uma das mais importantes representantes da poesia marginal que florescia na década de 1970. Deixou uma obra híbrida de prosa e poesia, equilibrada entre o ficcional e o autobiográfico. Apesar de identificada à poesia marginal, sua lírica é independente, dessacralizante, espontânea: Ana Cristina César reverte os procedimentos comuns ao grupo e critica-os a partir de seu próprio âmago. Seu espaço literário simula o discurso confessional a partir de falsas correspondências e diários, alcança o tom coloquial parodiando textos da tradição literária. Além de poeta, foi também ensaísta e tradutora. Desde a vida universitária, participou ativamente da cena cultural carioca e do movimento da poesia marginal, conviveu com poetas como Cacaso (1944 – 1987) e intelectuais como Heloísa Buarque de Holanda (1939). Colaborou em diversas publicações, com destaque para Beijo, importante periódico de cultura, com sete números impressos, cujo processo ela acompanhou desde a criação. Suicidou-se aos trinta e um anos – atirou-se pela janela do apartamento dos pais, no oitavo andar de um edifício da rua Tonelero, em Copacabana. Sua obra estava há décadas fora de catálogo e, agora adquirida pela Companhia das Letras, volta a ser publicada, num volume único que compila desde os volumes independentes do começo da carreira aos livros póstumos: Poética reúne Cenas de abril, Correspondência completaLuvas de pelicaA teus pésInéditos e dispersosAntigos e soltos, uma seção de poemas inéditos. A edição ainda conta com texto de posfácio escrito pela professora Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário da obra de Ana Cristina, Armando Freitas Filho.

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A palavra afiada de Gilda

3 janeiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Previsto para ser lançando em 2013, mas ainda no prelo, A palavra afiada, será um volume com entrevistas e textos da filósofa, crítica literária, ensaísta e professora emérita da USP, Gilda de Mello e Sousa (1919 – 2005).

O livro, editado pela Ouro sobre Azul, é organizado por Walnice Nogueira Galvão, professora titular de literatura na Universidade de São Paulo. Segundo Walnice, em entrevista à revista Cult, Gilda produziu uma “reflexão finíssima, perspicaz e aguda sobre diferentes fenômenos artísticos, estéticos”.

Gilda foi casada com o crítico Antonio Candido, com quem colaborou na produção da revista acadêmica Clima, publicada entre 1941 e 1944, marco da vida intelectual brasileira, cujo corpo editorial era também composto pelos amigos Paulo Emilio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Ruy Coelho, Lourival Gomes Machado e Alfredo Mesquita, entre outros. Formou-se em filosofia pela Universidade de São Paulo, onde teve aulas com Claude Lévi-Strauss, Roger Bastide e Jean Maugüé e onde recebeu o título de doutora em ciências sociais com a tese A Moda no Século XIX. De 1943 a 1954, foi assistente de Roger Bastide na cadeira de Sociologia da mesma universidade e, a partir de 1955, tornou-se professora de Estética no Departamento de Filosofia, cuja direção viria a assumir nos anos difíceis da ditadura militar. Nesse departamento fundou, em 1970, a revista Discurso, até hoje uma referência nos estudos filosóficos brasileiros. Aposentou-se em 1972 e recebeu, em 1999, o título de professora emérita da USP. Continue lendo

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Literatura

A erudição da experiência literária

2 janeiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

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A erudição de Erich Auerbach traduz-se na abrangência e clareza quase artística de suas análises críticas literárias, cuja contribuição passa pela sociologia da literatura, pela escrita da história e principalmente pelos estudos filológicos, amparados, esses, pela filosofia e pela história das ideias. Auerbach é uma das mais significativas referências nos estudos de caráter hermenêutico e de exegese literária do Ocidente e indagam o âmago da experiência humana histórica. Seu legado intelectual perpetua-se intensamente presente com o passar das gerações acadêmicas.

Em Ensaios de literatura ocidental, publicado pela editora 34, com organização de Davi Arrigucci Jr. e Samuel Titan Jr. e traduzido por Samuel Titan Jr. e José Marcos Mariani de Macedo, são reunidos quinze estudos publicados entre 1927 e 1954, quase todos inéditos em português. São ensaios dedicados às perspectivas dos estudos literários e do humanismo no contexto da cultura globalizada, à ideia cristã de “estilo humilde”, às obras de Dante e Vico, à literatura francesa de Montaigne a Proust, passando por Pascal, Rousseau, Racine e Baudelaire. Continue lendo

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fotografia

Mais que uma catalogação de fôlego

23 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Vencedor do prêmio Jabuti deste ano, na categoria de Artes e Fotografia, o livro Estou Aqui. Sempre Estive. Sempre Estarei: Indígenas do Brasil suas Imagens (1505-1955), de Carlos Eugênio Marcondes de Moura apresenta uma vasta pesquisa iconográfica da pintura e dos grafismos dos grupos indígenas brasileiros. Publicado pela Editora da Universidade de São Paulo, o livro mostra como as cores, símbolos ou imagens foram por diferentes tribos aplicadas em diversos suportes, como pedra, cerâmica, cascas ou mesmo papel e, com frequência, no corpo humano.

A pintura indígena foi desde os primórdios da colonização relatada por cronistas, retratada por pintores e por viajantes, mas é historicamente recente sua compreensão antropológica e sociológica enquanto fundamentais manifestações simbólicas, estéticas e inclusive políticas nas vidas tribais. As imagens do livro são compostas também de pinturas sobre tela, desenhos, aquarelas, gravuras, litografias, esculturas e fotografia dos grafismos indígenas – reproduções de obras de artistas viajantes e naturalistas, que estiveram no Brasil em diferentes épocas, entre eles, os desenhistas da expedição comandada pelo jovem naturalista baiano Alexandre Rodrigues Ferreira, a conhecida Viagem Filosófica, que durou cerca de oito anos e percorreu parte da Amazônia e do Mato Grosso.

O livro conta com ensaios que analisam e demonstram como, nos contextos tribais, a arte funciona como meio de comunicação, expressão de categorias sociais e materiais, manifestações ritualísticas e mensagens referentes à ordem cósmica. Uma interessante introdução do autor contextualiza a iconografia e a edição conta também com prefácio escrito pela antropóloga Betty Mindlin.

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Pasquim político

20 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

O semanário político O Homem do Povo foi publicado entre março e abril de 1931. O jornal, fundado por Oswald de Andrade e sua então mulher Patrícia Galvão, a Pagu, após terem filiado-se ao Partido Comunista do Brasil, foi uma resposta militante, cujo objetivo era espalhar a mensagem da revolução entre o operariado urbano – à politicamente conturbada época de disputa entre extremas direita e esquerda, representadas respectivamente pelo nazifascismo europeu e pelo bolchevismo soviético. Hiperbólico, provocativo, crítico e satírico, o jornal aliou o humor irreverente de Oswald a uma reflexão crítica de sua própria participação no modernismo. O efêmero periódico, assim, caracterizou-se, em seus aspectos político e estético, pela militância política desenvolvida numa linguagem expressiva e comunicativa, uma escrita cheia de ironias, paradoxos, trocadilhos.

A Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em coedição com a editora Globo e com apoio do Museu Lasar Segall, publicou a coleção integral dos exemplares fac-símile do jornal. A edição traz também textos explicativos, escritos por Augusto de Campos, Maria de Lurdes Eleutério e Geraldo Galvão Ferraz – filho de Pagu.

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Artes Plásticas

Melodia

19 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Paul Klee foi um artista revolucionário. Suas obras possuem um humor seco, ao mesmo tempo inventivo e também mágico, que, aliado à perspectiva abstrata, as preenchem com uma singular musicalidade. Seu trabalho penetra o inconsciente, a infância, é singularmente lúdico, desvenda a absoluta subjetividade da arte. Seu objetivo não era representar, mas visualizar: evitando a mera transposição, para a formalidade de uma linguagem, daquilo que se traduz em fenômeno na realidade, substituiu com refinamento gráfico único a compreensão dos objetos em sua consistência maciça pela materialidade ambígua do signo, frágil e incorpórea. A imagem, em seu trabalho, transmite-se em sua subjetividade absoluta.

O crítico de arte Giulio Carlo Argan, no livro Arte moderna, analisa: “[…] inteiramente dedicado a perscrutar as profundezas do ser para captar as raízes primeiras e mais secretas da consciência, Klee nunca sucumbe à vertigem […]. Não traduz a imagem em conceito, o que equivaleria a destruí-la; limita-se a torna-la visível, pois a percepção já é consciência”.

Tão talentoso quanto pintor, Klee também o foi enquanto músico. E é sobretudo interessante o entroncamento único, entre música e pintura, por ele desenvolvido e que representa a tônica de sua fabulosa expressão artística. Violinista, transformou sua leitura dos ritmos e estruturas musicais em arte abstrata Continue lendo

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Poética do real

18 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

A portuguesa Adília Lopes é uma das poetas de maior destaque hoje em seu país. Já foi traduzida para diversos idiomas e, no Brasil, as editoras 7 Letras e Cosacnaify, em coedição, publicaram a Antologia, seleção de poemas organizada pelo poeta Carlito Azevedo, que contém poemas desde seus primeiros livros, O poeta de Pondichéry, de 1986, e O decote da dama de espadas, de 1988, até trabalhos mais recentes, como Florbela Espanca espanca, de 1999, e O regresso de Chamilly, publicado em 2000. A edição brasileira conta também com posfácio de Flora Süssekind.

A poesia de Adília é pontuada por um humor irônico, através do qual seus versos encontram situações corriqueiras e cotidianas. Ela diz, sobre sua poesia: “Há sempre uma grande carga de violência, de dor, de seriedade e de santidade naquilo que escrevo”.

Eucanaã Ferraz, na bela resenha ao livro Antologia – texto intitulado “De monstros e monstruosidades” –, analisa: “O universo absolutamente trivial dos versos guarda qualquer coisa de artificial, de antinatural: há sempre uma ordem estabelecida – moral, estética, comportamental – que soa “estranha”. Disposições e arranjos sociais mostram-se em precário equilíbrio, e quando se desagregam substancialmente logo tudo se reorganiza e restaura, pouco importando a que preço. […] A banalidade e o absurdo equivalem-se numa espécie de esvaziamento entre o cínico e o sádico […]. O grotesco, na poesia de Adília Lopes, recusa o fantástico: o real é a grade perversa que os poemas nos impõem, da qual não nos libertamos nem na forma nem no conteúdo”.

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Literatura

Buzina modernista

17 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

A revista modernista Klaxon acaba de ganhar uma edição comemorativa pela Cosacnaify, em homenagem aos noventa anos de sua última publicação. A revista foi publicada entre 1922 e 1923, em sequência à Semana de Arte Moderna. A edição comemorativa apresenta uma versão fac-símile das edições originais e uma a mais, cujo projeto especial foi elaborado pelos artistas plásticos Marilá Dardot e Fabio Morais. Completa a reedição um livreto com textos dos organizadores e do jornalista Marcos Augusto Gonçalves, autor do livro 1922 – A semana que não terminou, sobre o legado da Semana de Arte Moderna.

O nome Klaxon veio de uma então famosa marca norte-americana de buzinas em forma de corneta para automóveis e outros veículos. Na capa aparecia o subtítulo: Mensário de Arte Moderna. O propósito principal da revista foi servir como divulgação das ideias que permeavam o movimento modernista de maneira geral, uma concepção de que a arte não deve ser uma cópia da realidade, uma ânsia pela atualidade, por abolir o passado para viver o presente, ideias, num tom futurista, que giravam em torno de um culto ao progresso.  Continue lendo

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Literatura

Nas beiradas da existência

16 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

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Vencedora do Prêmio Nobel de literatura neste ano, a canadense Alice Munro é considerada “mestra do conto contemporâneo”. Segundo a Academia Sueca, as histórias de Alice “se desenvolvem geralmente em cidades pequenas, onde a luta por uma existência decente gera muitas vezes relações tensas e conflitos morais, ancorados nas diferenças geracionais ou de projetos de vida contraditórios”.

É interessante a premiação ter sido concedida a uma autora dedicada aos contos, que, comumente, são considerados mera etapa literária na carreira de um escritor, a ser superada na posterior escrita de um romance, um reles estágio experimental. A própria escritora, em entrevista à revista New Yorker, afirmou: “Por anos e anos imaginei que contos eram apenas um treino até eu ter tempo de escrever um romance”.  Continue lendo

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Literatura

O fato linguístico, nu

13 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

“Naquela quinta-feira de começante abril, meu sapiente amigo, mestre Martial Canterel, covidara-me, com alguns outros de seus íntimos, a visitar o imenso parque que rodeia sua bela vila de Montmorecy.

Locus Solus – a propriedade se chama assim – é um calmo refúgio onde Canterel gosta de levar adiante, com toda tranquilidade de espírito, seus múltiplos e fecundos trabalhos. Nesse lugar solitário, ele está protegido das agitações de Paris […]”.

Duchamp, frame de “Anemic cinema”

Acaba de ser lançado o livro Locus Solus, de Raymond Roussel, pela Cultura e Barbárie Editora. Pouco divulgada no Brasil, a obra do francês foi, entretanto, ponto de convergência de filósofos e críticos do século xx como suporte e inspiração para o desenvolvimento de questões ontológicas, epistemológicas e estéticas. Na literatura, a influência de Roussel estende-se do surrealismo ao “nouveau roman“. Conhecido por transformar as palavras em imagem, através de seus textos a linguagem separa-se de sua significação comum e atinge outros sentidos. Michel Foucault, no livro consagrado a Roussel – Raymond Roussel (a tradução em português, publicada em 1999 pela Forense Universitária, está indisponível) –, define que há uma linguagem circular nos textos rousselianos, nos quais ele exibe imagens e, em seguida, revela com precisão a história de cada uma delas, bem como seu funcionamento. De modo que há um ciclo, no qual a narrativa recupera a imagem inicial, que fora construída pela linguagem, e a explica. Para Foucault, a explicação repete o processo realizado pelas máquinas e o torna mais palpável e, os textos de Roussel, assim, podem ser considerados uma espécie de demonstração do poder da linguagem, através do qual máquinas e experimentos – existentes apenas através de palavras – tornam-se possíveis.

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Literatura

Exploração literária filosófica

12 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

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Benedito Nunes, filósofo e crítico literário, dedicou ensaios escritos ao longo de cinquenta anos à obra de Guimarães Rosa. O livro A Rosa o que é de Rosa, organizado por Victor Sales Pinheiro e publicado pela editora Difel, do grupo editorial Record, reúne quinze textos que cobrem quase toda a produção do escritor mineiro vistas sob a sempre enriquecedora análise de Benedito.

O Instituto Moreira Salles, na edição dos “Cadernos de Literatura Brasileira” dedicado a Guimarães Rosa, publicou o ensaio “Guimarães Rosa quase de cor: rememorações filosóficas e literárias”, disponível para visualização. Neste ensaio, Benedito logo avisa a seu leitor dar prosseguimento a uma conversa travada com Guimarães em fevereiro de 1967 num gabinete do antigo Itamaraty, no Rio de Janeiro, ocasião em que ele lhe entregara o volume datilografado de Tutaméia e pedira-lhe opinião sobre um dos prefácios, escrito à guisa de uma exploração filosófica, intitulado “Aletria e hermenêutica”. Benedito teria respondido-lhe que este título “defendia original convergência entre o imaginário e o reflexivo, o teórico e o poético” e que seria um “empreendimento tanto literário quanto filosófico”. No ensaio, ele aprofunda sua análise: “A primeira questão com a qual nos deparamos é a legitimidade, Continue lendo

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Literatura

Mecanismo de sonhos

11 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

O livro As Miniaturas, de Andréa del Fuego, é uma mistura de devaneio e sonho ao rigor das estruturas sóbrias e funcionais dos sistemas burocráticos, bem como às fendas interrogativas que podem ser geradas por equívocos nestes sistemas. Ironia lúdica, ou labirinto em que retumba a própria dimensão do onírico: a estrutura burocrática funcional do livro gira em torno de uma máquina de sonhos. A literatura fantástica de Andréa del Fuego joga com ecos da burocracia kafkaniana numa tonalidade lírica; devolve constantemente a dúvida sobre os limites da realidade.

Andréa venceu o prêmio José Saramago em 2011 com seu livro de estreia, Os Malaquias, sobre o qual ela disponibiliza alguns detalhes de seus “bastidores” em seu blog – um texto sincero, pessoal e comovente que Andréa escreveu a pedido do “ótimo” (sua definição) suplemento cultural “Pernambuco”, do Diário Oficial do Estado.

Antes de premiada, Andréa publicou o irreverente conto Como ganhar um Jabuti e então, nem sonhava ganhar prêmios literários Continue lendo

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Literatura

O testemunho de Czesław Miłosz

10 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

Czesław Miłosz nasceu na Lituânia, em 1911, época em que o país pertencia ao Império Russo. Mudou-se de sua cidade de origem para completar seus estudos na cidade de Wilno, atual Vilnius, na Lituânia, que, então, era território polonês. Aos vinte e um anos, publicou seu primeiro livro de poemas, Poema sobre o tempo congelado (Poemat o czasie zastygłym). Não demorou a integrar o grupo de poetas conhecidos como “catastrofistas“, designação devida a previsões que as poesias faziam de iminentes desastres mundiais. Escrever, para Czesław Miłosz , deveria ser um ato político.

Durante a ocupação nazista na Polônia, ele participou ativamente do movimento de Resistência e, nesta época, editou, escreveu e traduziu textos clandestinos, dentre os quais permanece mais famoso seu poema Canção Invencível, publicado em 1942. Ao final da Segunda Guerra Mundial, uma coletânea de suas poesias intitulada Resgate, foi um dos primeiros livros publicados na Polônia comunista, em 1945. Pelos serviços prestados durante a Resistência, Czesław Miłosz  foi recompensado pelo novo governo comunista com cargos políticos, primeiro como adido cultural, em Washington e, em seguida, como primeiro-secretário para assuntos culturais, em Paris.

Desiludido com os rumos da política em seu país e com o regime comunista, em 1951 solicitou asilo na França e, nove anos mais tarde, emigrou para os Estados Unidos, tornou-se professor de literaturas eslavas na Universidade de Berkeley e continuou a escrever sobre a fragilidade, crueldade e a corruptibilidade humana. Em 1970, naturalizou-se norte-americano. Ainda vivendo na França, em 1953, publicara A mente cativa, uma coletânea de ensaios sobre a submissão dos intelectuais poloneses ao comunismo. Ao longo dos anos de exílio norte-americano, os textos de Czesław Miłosz foram traduzidos e seus poemas e ensaios atingiram sólido reconhecimento internacional. Em 1980, ganhou o prêmio Nobel de Literatura.

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Literatura

Uma barulhenta obra-prima

9 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

A Companhia das Letras acaba de lançar, pelo selo que mantém em conjunto com a editora inglesa Penguin, os Contos da Cantuária, escritos por Geoffrey Chaucer, com tradução e notas de José Francisco Botelho, a partir da tradução, do inglês médio para o inglês moderno, feita por Nevill Coghill, também responsável pela introdução e por notas. A edição conta ainda com ensaio escrito pelo crítico Harold Bloom.

Contos da Cantuária é uma obra considerada das principais para a consolidação da língua inglesa como língua literária – em substituição ao francês e ao latim, à época ainda utilizados preferencialmente – e para a formação da literatura do Ocidente de maneira geral. Senão a principal. Ezra Pound, por exemplo, em seu livro O ABC da literatura, afirma: “Chaucer escreveu quando a Inglaterra fazia ainda parte da Europa. Havia uma só cultura de Ferrara a Paris, e ela se prolongava até a Inglaterra. Chaucer foi o maior poeta de seu tempo. Era mais conciso que Dante. […] A cultura de Chaucer era mais vasta que a de Dante; Petrarca é imensamente inferior a ambos. Não seria despropositado considerar Chaucer o pai das “litterae huamaniores” na Europa” (“apudVallias).

A obra de Chaucer consiste numa coleção de histórias de cavalaria, farsas e alegorias morais. Os contos expõem, com riqueza – através da crueza satírica do lirismo aliado ao deboche –, o universo social e cultural da Inglaterra na Idade Média. As narrativas têm como mote uma disputa entre peregrinos, para saber quem contaria as melhores histórias de cavalaria e romances, enquanto rumam em direção à Cantuária, onde pretendem visitar o túmulo de São Thomas Becket. Cada conto é narrado por um dos peregrinos do grupo. Eles abordam temas e personagens variados, representantes de todas as classes sociais, misturando, assim, entre as narrativas, anedotas, escatologias, citações clássicas, ensinamentos morais e caricaturas. Continue lendo

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Literatura

Narrativa delirante

6 dezembro, 2013 | Por Isabela Gaglianone

O escritor argentino César Aira foi uma das grandes atrações literárias internacionais da Bienal do livro do Rio de Janeiro, neste ano. A editora Rocco, na nova coleção de obras latino-americanas, reuniu em um volume duas de suas novelas, Como me tornei uma freira e A costureira e o vento, traduzidas pela poeta Angélica Freitas. Escritor profícuo, Aira tem mais de setenta livros publicados, desde seus trinta anos de idade publica em média dois romances curtos todos os anos. É um escritor muito popular na Argentina, conhecido por enredos surpreendentes – ainda que inicie muitos de seus romances de uma maneira convencional, eles logo seguem um desvio impressionante; não há uma fórmula literária em seus livros, César Aira é conhecido por ter uma imaginação totalmente livre e, seus romances, por inverterem e subverterem quaisquer expectativas.

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