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Uma chama afirmativa

11 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Boa publicação da Companhia das Letras – uma das poucas no Brasil que contempla o poeta, lançada pela primeira vez em 1986 e reeditada no ano passado –, esta edição bilíngue traz cinquenta dos principais poemas de W. H. Auden, traduzidos por José Paulo Paes e João Moura Jr. o livro é composto por textos escritos desde 1927, quando ele primeiro definiu publicamente suas posições estéticas no que ficou conhecido como “O Manifesto de Oxford Poetry”, até 1973, ano da morte do poeta. Selecionados por João Moura Jr., os textos procuram apresentar um panorama que abarque, conforme disse o organizador, “na medida do possível, as várias fases da obra poética de Auden, que foi um poeta prolífico”. A poesia de Auden partiu da experiência do modernismo, aproveitando a contribuição de Ezra Pound e T. S. Eliot, porém afastando-se do viés reacionário político expresso por ambos para expressar-se numa linguagem pessoal – que todavia não torna-se alheia às grandes questões de sua época. Além da tradução dos poemas, José Paulo Paes escreveu, para esta antologia, um estudo introdutório sobre a vida e sobre a poética do autor. O volume conta ainda com um interessante ensaio a respeito de Auden escrito pelo poeta russo Joseph Brodsky.

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Artes Plásticas

Retrospectiva contemporânea: sobre arte e tempo

10 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Um livro dedicado a realizar uma retrospectiva do trabalho da artista plástica Laura Vinci. Dedicada ao desenvolvimento de instalações desde 1997, a artista tem como um dos fios condutores de seu trabalho reflexões sobre o tempo e a transitoriedade, quer da própria matéria, quer enquanto reflexão histórica e consequente maneira de pensar a contemporaneidade.

Editado pela Coscnaify, o livro apresenta, além das monumentais instalações exibidas em importantes museus e centros culturais, também as mais relevantes intervenções feitas pela artista em espaços públicos. Laura Vinci enfatiza a transitoriedade presente nos trabalhos através de legendas aos registros fotográficos; Continue lendo

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Imagem e pensamento

7 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Goya não é somente um dos principais pintores de sua época: é também um dos pensadores mais profundos daquele período.”

Tzvetan Todorov, semiólogo e historiador de origem búlgara, em Goya à sombra das luzes analisa a influência da filosofia iluminista e as consequências de uma doença na obra do artista Francisco Goya. O livro acaba de ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Joana Angélica d’Avila Melo.

Em entrevista, publicada no jornal Corriere della Sera, Todorov afirmou: “Como Goya, temo o messianismo político”. Para o autor, Goya foi “um intelectual que conseguiu refletir de modo profundo sobre o que acontecia ao seu redor”; segundo sua análise, “ele era muito influenciado pelos iluministas espanhóis do final do século XVIII e assistiu à invasão da Espanha do lado das tropas napoleônicas que combatiam, pelo menos teoricamente, em nome dos direitos humanos e dos ideais das Luzes. O espetáculo das atrocidades cometidas tanto pelos franceses quanto pelos guerrilheiros espanhóis o fez refletir sobre a guerra. Foi assim, antecipadamente aos seus tempos, que podemos considerá-lo como um contemporâneo”.  Continue lendo

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Literatura

Humor magistral

6 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Obra-prima da literatura satírica, misto de realismo mágico, comédia de costumes, história de amor e crítica social e política, O Mestre e a Margarida foi escrito em segredo, nas sombras do período mais violento da repressão de Stálin. Bulgákov começou a trabalhar no romance em 1928 e, doze anos mais tarde, morreu sem ver a obra publicada. O livro só foi publicado duas décadas após a morte do autor. A complexa trama parte da aparição, num entardecer quente de primavera, do diabo em plena Moscou, a capital de uma suposta utopia racionalista que promovia o ateísmo. O demo, acompanhado de figuras esquisitas que incluem um imenso gato preto adepto do xadrez, da vodca e das armas de fogo, ingressa nos círculos literários locais e envolve-se com o mestre, um escritor perseguido pelo governo e pelos intelectuais por ter publicado um romance sobre os últimos dias da vida de Jesus.

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Crítica Literária

Minuciosas ressonâncias

5 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Sob o título Pelo prisma russo, esta coletânea de ensaios do historiador Joseph Frank desvela uma compreensão profunda da literatura e da história russas. Joseph Frank, que morreu em fevereiro do ano passado, foi professor emérito de Literatura Comparada da Universidade de Princeton e professor de Literatura Comparada e Língua e Literatura Eslava da Universidade de Stanford. Estudioso da obra de Dostoiévski, ficou famoso por ter escrito uma extensa biografia sobre o autor, para a qual foram necessários cerca de trinta anos de pesquisa, condensados em cinco grande tomos – no Brasil, publicados também pela Edusp; para Frank, a genialidade de Dostoiévski encontra-se na abordagem de grandes questões da humanidade enquanto acontecimentos da sua contemporaneidade, sem jamais reduzir seus personagens a “um fenômeno da realidade, dotado de traços típico-sociais”, mas, ao contrário, concentrando neles singularidades psicológicas, através de seu “incomparável dom para o retrato psicológico”.

Em Pelo prisma russo, o interesse de Joseph Frank pela obra de Dostoiévski forma o núcleo principal a partir do qual irradiam-se os ensaios da coletânea, como um filtro, Continue lendo

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Do assassinato de Leon Trotski

3 março, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Ótimo lançamento da editora Boitempo, a premiada obra O homem que amava os cachorros, escrita pelo cubano Leonardo Padura é e não é uma ficção. A história retoma os últimos anos da vida de Leon Trotski, seu assassinato e a história de seu algoz, o catalão Ramón Mercader, o homem que empunhou a picareta – um personagem sem voz na história mas que recebeu, como militante comunista, esta única tarefa: eliminar Trotski, o teórico russo e comandante do Exército Vermelho durante a Revolução de Outubro, que fora exilado por Joseph Stalin. São descritas a adesão de Mercader ao Partido Comunista espanhol, o treinamento em Moscou, a mudança de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade do líder soviético, numa série de revelações que preenchem uma história dissimulada e mistificada.

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Somente a morte é passageira

28 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Alberto Szpunberg é um poeta argentino. Recebeu na Espanha o Prêmio de Poesia da Universidade de Alcalá, em 1983, e, em 1994, o Prêmio Internacional de Poesia Antonio Machado. Sua obra já foi traduzida para o polonês, alemão, tcheco e francês.

A editora argentina Entropía acaba de lançar em um volume sua poesia reunida, sob o título Como sólo la muerte es pasajera. Segundo o poeta Juan Gelman, “a obra reunida de Alberto Szpunberg mostra como sua poesia se ramificou como uma árvore de esplêndida folhagem de galhos consistentes. Este grande poeta consegue desbravar os lados mais obscuros da palavra que vem do real e ele a devolve carregada de beleza e de verdade. Essa publicação é um acontecimento que nenhum amante da poesia pode relevar. Seria um esquecimento imperdoável de si mesmo”.

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Desdobramentos do realismo

27 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Novos Realismos, organizado por Izabel Margato e Renato Cordeiro Gomes, põe em questão o conceito de realismo na literatura, analisando suas novas elaborações e desdobramentos contemporâneos. O livro é composto por diversos textos em que são discutidas as novas configurações que caracterizam o realismo nas obras literárias escritas a partir da segunda metade do século XX, propondo uma análise que articule a história do realismo na arte às suas novas concepções e às maneiras de sua inovação.

Na orelha do livro  Mariana Nascimento escreve – “Com abordagens distintas, este livro recupera o debate sobre as expressões artísticas que de algum modo se articularam com as dimensões do realismo. Partindo das proposições de Marcel Gromaire, de que o real não está circunscrito apenas ao domínio da nossa mão ou da nossa vista, mas compreende também o âmbito do nosso espírito e o que ainda não é do nosso espírito, foi proposta aos autores uma análise mais ampla do conceito de real e consequentemente das formas de arte realista”. Continue lendo

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Um tempo ininterrupto de linguagem

26 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Invenção de Orfeu, escrito em 1952, é um dos grandes poemas da língua portuguesa e testamento literário de Jorge de Lima, considerado o mais imagético dos poetas brasileiros. Retomando o antigo mito de Orfeu, o poema, mistura de épico e lírico, reflete sobre a criação artística, através de imagens poderosas e estranhas, em versos de musicalidade única que dialogam com a lírica de Camões.

Em parceria, as editoras CosacNaify e Jatobá, homenageando a data de sessenta anos de morte do poeta alagoano, publicaram no final do ano passado esta edição especial, que conta com texto e posfácio de Fábio de Souza Andrade – professor da USP –, além de ensaios de Murilo Mendes, João Gaspar Simões e Mário Faustino. A edição traz ainda documentos inéditos: datiloscritos anotados pelo autor, carta de Ezra Pound e reproduções de época.

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Literatura

Narrativas licenciosas

25 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Na alcova, livro concebido e organizado por Samuel Titan Jr., reúne três histórias de três autores franceses, Guilleragues e Crébillon e Denon, escritas entre o último terço do século XVII e o começo do século XIX, todas com temas licenciosos, não propriamente libertinos. As histórias foram traduzidas por Samuel Titan Jr. e o livro conta com um interessante posfácio analítico, escrito por ele.

São três histórias eróticas, intrigantes narrativas de amor proibido: “Cartas portuguesas”, de Guilleragues, traz a história de uma freira seduzida por um oficial francês; em “O silfo”, de Crébillon, a heroína procura a solidão do campo para satisfazer suas fantasias eróticas; em “Por uma noite”, de Denon, uma adúltera leva um de seus amantes para sua câmara secreta dos prazeres na propriedade rural do marido.

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Literatura

Imperdoável

24 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Rogério Pereira acaba de ter publicado seu primeiro romance, Na escuridão, amanhã. Segundo o autor, foi gestado durante mais de dez anos. “Mas o longo tempo de gestação não significa rigor, mas incapacidade de encontrar o ritmo adequado a uma história fragmentada de retirantes”, disse Rogério ao jornal Gazeta do Povo. O romance conta a história de uma família de retirantes que parte da roça para a cidade grande, que lhes parece assustadora. No mesmo artigo, Rogério diz: “[…] minhas intenções eram tratar do estranhamento que uma cidade pode causar numa família de retirantes, do silêncio que nos sufoca o tempo todo, da falta de comunicação, da fragilidade das relações familiares, de Deus, do demônio”. A narrativa principia no desvelamento de uma vida emocionalmente opressiva na roça, em que os protagonistas emaranham-se cada vez mais na ausência de comunicação, perseguidos pela ideia de um Deus punitivo e impiedoso; ao migrar para a cidade em busca de vida melhor, porém, a família encontra sua aniquilação. O enredo, pesado por si, marcado pelo misto de raiva e impotência que acompanha o narrador, toca ainda um aspecto perverso com as imagens de abuso sexual e violência doméstica retratadas. Surpreendentemente forte e claustrofóbico, o livro é marcado por uma prosa intimista, rica em detalhes e cadenciada pela cuidadosa construção dos personagens. Uma história densa, a um só tempo sensível e agressiva.

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Um belo sentido à escrita

21 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“O poeta está mais próximo do mundo quando carrega em seu íntimo um caos; no entanto, e este foi nosso ponto de partida, sente responsabilidade por esse caos – não o aprova, não se sente bem com ele, não se crê importante por ter em si espaço para tanta coisa contraditória e desconexa, mas odeia o caos e não perde jamais a esperança de dominá-lo em prol dos outros e de si mesmo. Para dizer algo sobre este mundo que tenha algum valor, o poeta não pode afastá-lo de si ou evitá-lo. Tem de carregá-lo em si enquanto caos, a despeito de todas as metas e planejamentos, pois o mundo se move com velocidade crescente rumo à própria destruição. […] Contudo, não se pode permitir sucumbir ao caos, mas, a partir justamente da experiência que dele possui, precisa combatê-lo, contrapondo a ele a impetuosidade de sua esperança”.

– Do ensaio “O ofício do poeta”.

  

Elias Canetti, prêmio Nobel de Literatura de 1981, foi um dos escritores mais influentes do século XX. Além do premiado romance Auto-de-Fé, escreveu magníficos ensaios, como o denso trabalho de teoria social Massa e Poder – considerado, ao lado de Auto-de-fé, uma das obras magnas das letras no século XX –, ensaios político-literários extremamente lúcidos, como A consciência das palavras e, Continue lendo

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Literatura

não, você não entende, pelo menos agora

20 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“O negócio do mundo é derrubar com o rodopio da vida aqueles que andam soltos… E a gente vai se virando com ele, fazendo força pra girar pro outro lado, torcendo pra tontura passar… Passar, não passa, mas Deus vai colocando as paredes no lugar certo pra apoiar, coloca uns postes… Bom, de vez em quando a gente se desequilibra e dá umas cabeçadas… Olha, parece que é mais difícil morrer do que viver, valha-nos Deus, todo poderoso!”

 

O interessante livro As visitas que hoje estamos, do mineiro Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, é composto por centenas de trechos, em sua maioria relatos em primeira pessoa, salvo o roteiro teatral protagonizado pelas personagens Cora e Naum, que interrompe as séries de discursos pessoais. Os fragmentos de discursos em primeira pessoa, espécies de monólogos interiores, aparentam repetições, pois tratam de situações parecidas, normalmente marcadas por questões religiosas e com tratamento linguístico muito similar.

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Literatura

Dos silêncios expressivos

19 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Cornélio Penna (1896 – 1958) foi romancista, além de pintor, gravador e desenhista. Na década de 1930, abandonou as artes plásticas para dedicar-se exclusivamente à literatura. Penna participou da Segunda Fase do Modernismo e criou o realismo psicológico brasileiro. A Menina Morta é considerado um dos romances primorosos da história da literatura no Brasil. O livro, que completa 60 anos em 2014, é composto por histórias caracterizadas por capítulos curtos, desenvolvidas em uma atmosfera de estranheza.

Uma obra que, entre outros temas, fala também da escravidão, escrita em pleno momento desenvolvimentista dos anos 50, no qual a tendência primordial era a de construir uma identidade nacional que fosse pautada pela modernidade e pelo progresso. A menina morta, enquanto interpretação do Brasil, é fragmentária: através sobretudo da voz do narrador, hesitante e escorregadia, pretende encontrar no passado respostas que justifiquem a formação de uma ideia diluída de nação, marcada pela linhagem escravocrata, pela lei patriarcal e pela interdição. Continue lendo

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Os paradoxos da corrupção

18 fevereiro, 2014 | Por Isabela Gaglianone

 

“O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros. O que se crê senhor dos demais, não deixa de ser mais escravo do que eles. Como adveio tal mudança? Ignoro-o. Que poderá legitimá-la? Creio poder resolver esta questão”.

(Rousseau, na tradução brasileira de Lourival Gomes Machado).

 

O pensamento de Rousseau abre um abismo entre o ser e o dever ser, onde o dever ser aparece como uma exigência de realização. É assim que Olgária Matos define o Segundo Discurso – Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens – como uma “arqueologia da desigualdade”, termo também utilizado por Bento Prado Jr., em “Rousseau: filosofia política e revolução”.

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