matraca

O homem, a História, as imagens

15 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Ninfas – que compõe a série de ensaios publicada em 1998 sob o título Image et mémoire – do italiano Giorgio Agamben, tece uma reflexão sobre o moderno esquecimento da experiência, baseada numa análise sobre o trabalho do crítico e historiador da arte alemão Aby Warburg e de seu atlas das diversas versões de representação de determinadas figuras da arte, o Altas Mnemosyne. Para Warburg, trabalhar com imagens, nesse sentido representativo diversificado, significa trabalhar no limiar, não somente entre o corpóreo e o incorpóreo, mas, sobretudo, entre o individual e o coletivo. Para Agamben, seria o cerne da problemática em torno do papel fundamental do contemporâneo.

Continue lendo

Send to Kindle
matraca

bem compreenderás o sentido das Ítacas

14 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

–  Que esperamos reunidos na ágora?

É que hoje os bárbaros chegam.

– Por que tanta abulia no Senado?

Por que assentam os Senadores? Por que não ditam normas?

Porque os bárbaros chegam hoje.

Que normas vão editar os Senadores?

Quando chegarem, os bárbaros ditarão as normas.

– Por que o Autocrátor levantou-se tão cedo

e está sentado frente à Porta Nobre da cidade

posto em seu trono, portanto insígnias e coroa?

Porque os bárbaros chegam hoje.

E o Autocrátor espera receber

o seu chefe. Mais do que isto, predispôs

para ele o dom de um pergaminho. Ali

fez inscrever profusos títulos e nomes sonoros.

(Konstantinos Kaváfis, “À espera dos bárbaros”, tradução de Haroldo de Campos)

O grego Konstantínos Kaváfis (Κωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης), considerado o maior poeta da Grécia moderna, não teve nenhum livro publicado em vida, distribuía os poemas em folhas soltas, também publicou alguns em revistas literárias. Seus poemas, 154 reelaborados durante a vida inteira, une citações eruditas à fala cotidiana. Uma obra tão pequena quanto notável, referência definitiva para o modernismo na poesia.

No Brasil, a Cosac Naify publicou um belo livrinho que reúne 15 poemas de Konstantinos Kaváfis traduzidos por Haroldo de Campos. Continue lendo

Send to Kindle
matraca

O caos como regra

13 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Se a esquerda intelectual brasileira pretende mesmo algum dia despertar do coma profundo em que se encontra, creio que a primeira providencia seria repassar os grandes lugares-comuns de nossa tradição crítica por um prisma teórico e político à altura da ruptura de época que estamos atravessando as cegas.”

Novo lançamento, o livro de Paulo Eduardo Arantes O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência, analisa o nosso, como um tempo em contínua guerra civil, marcado por uma generalizada ausência de perspectivas, por um estado de exceção permanente, pela alastrada catástrofe ambiental, pelo colapso urbano que culmina na militarização do cotidiano: uma era de perpétua emergência, em que esquerda e direita confluem na gestão de programas de urgência. Os ensaios que compõem o livro analisam e refletem sobre as manifestações ocorridas em junho de 2013, o extermínio colonial, a economia de guerra, a indústria dos presídios, as UPPs, o trabalho nos campos de concentração, as revoltas nos guetos, o golpe militar de 64 e o desafio de pensar a experiência da história em uma era de expectativas decrescentes.  Continue lendo

Send to Kindle
Últimas

Reinterpretações antropológico artísticas

12 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Em Pérola imperfeita a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz acompanha a pesquisa poética e construção da obra de Adriana Varejão, propondo um diálogo entre a releitura da história realizada pelo trabalho da artista e possibilidades narrativas enredadas em seu processo criativo. Escrito como uma narrativa em primeira pessoa por Lilia, o livro é contudo de autoria conjunta, fruto de uma construção recíproca entre texto e imagem, resultado de um diálogo entre as duas. A antropóloga diz que procurou “explicitar as referências e iluminar o processo criativo da Adriana”. Cerne da aclamada produção da artista, a reflexão sobre identidade e a tentativa de trazer à tona histórias ocultas por uma história oficial, são os elementos centrais deste estudo.

Continue lendo

Send to Kindle
cinema

Entre sonhos e filmes

9 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O Instituto Moreira Salles e o Sesc organizaram em 2012 a exposição que gerou este belo catálogo: Tutto Fellini. A publicação traz fotografias de bastidores, desenhos, revistas e cartazes de época, buscando revelar o processo criativo do cineasta italiano Federico Fellini. Nem cronológico, nem filmográfico, o catálogo procura seguir as quatro linhas temáticas que balizaram a exposição: “cultura popular”, “Fellini em ação”, “a cidade das mulheres” e a “invenção biográfica”. Uma busca pelas obsessões do diretor, bem como por suas fontes de inspiração, explorando as suas diferentes facetas, quer como devorador onívoro de imagens, admirador das mulheres, crítico da sociedade, realizador enérgico, como criador profuso.

Continue lendo

Send to Kindle
Literatura

Verbetes imagináveis

8 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

A história deste livro fabuloso já é por si fantástica: uma noite três amigos conversavam sobre ficções fantásticas e decidiram criar uma antologia com seus autores preferidos. Os amigos, nada menos que os escritores Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, três anos depois, em 1940, lançaram a Antologia da literatura fantástica, cuja edição definitiva foi consolidada 25 anos depois e obteve enorme sucesso. Foram reunidas 75 histórias, entre contos, fragmentos de romance e peças de teatro.

No prólogo, Bioy Casares diz que as ficções fantásticas, “antigas como o medo”, são “anteriores às letras. As assombrações povoam todas as literaturas”.

Continue lendo

Send to Kindle
matraca

Homem usando borboletas

7 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

O poeta

Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

 

Manoel de Barros é o poeta que conferiu à poesia a delicada possibilidade de ser entendida como “a mais verdadeira maneira séria de não dizer nada”. Entre versos simples e carregados de sentido, é notável seu lírico talento para imagens, acompanhado por uma concretude quase surreal, como se pode perceber em trabalhos como Gramática Expositiva do Chão (1966). Continue lendo

Send to Kindle
matraca

Poder e saber

6 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Aulas sobre a vontade de saber traz a transcrição do primeiro curso ministrado por Michel Foucault no Collège de France. Antecipa temas que foram posteriormente desenvolvidos em Vigiar e Punir e no primeiro volume da História da sexualidade, sobretudo. Sua publicação visa evidenciar uma profunda unidade em sua obra, um projeto que vai de Vigiar e punir (1975) e seu desenvolvimento dos temas do poder e da norma, a O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984), voltados para a ética da subjetividade.

Foucault, destrinchando as estruturas do poder, pensa a relação entre a verdade e o poder, estabelecendo uma tese de mútua implicação entre o saber e o poder, articulada na produção do sujeito.

Continue lendo

Send to Kindle
matraca

ilha mínima do eu

5 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Desenho de Odilon Redon

Monodrama é considerado o livro mais político, ao passo que também o mais irreverente e emocionado, de Carlito Azevedo, um dos principais poetas brasileiros da atualidade.

O livro é composto por poemas extensos, nos quais, dentre uma multiplicidade de personagens, surge com predominância a figura do imigrante, do clandestino, do outro a quem o mundo hostil fecha as portas. Há um profundo desencanto político nos poemas iniciais, que ramifica-se no solo autobiográfico da série “H.”, texto que elabora liricamente a experiência da doença e morte da mãe, com toda a ironia e a emoção de quem se depara com um “Pálido céu abissal”.

Eduardo Sterzi, que considera o livro uma “das obras literárias especialmente relevantes dos últimos anos”, analisa Continue lendo

Send to Kindle
Literatura

Irlanda, Ilha dos Santos e Sábios

2 maio, 2014 | Por Isabela Gaglianone

De Santos e Sábios é uma reunião de textos estéticos e políticos do escritor James Joyce, organizada por Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante.

Segundo Medeiros, o livro busca revelar o “Joyce ‘ilícito’ do pós-modernismo” e compreender o “grande barulho estético, e político”, produzido por Ulysses e Finnegans Wake.

Para esta edição, quatro tradutores debruçaram-se sobre o livro The Critical Writings (1959), editado por Ellsworth Mason e Richard Ellman, e ainda utilizaram, como referência e apoio, o livro Occasional, Critical and Political Writing, buscando assim discutir as relações entre os ensaios de Joyce e sua obra ficcional.

Cada um dos tradutores escreveu uma pequena introdução crítica aos textos, que Joyce escreveu entre 1896 – quando tinha nada mais que 14 anos – e 1937. Os textos são dispostos no volume em ordem cronológica, o que permite o acompanhamento da evolução da prosa e do pensamento de Joyce.

Continue lendo

Send to Kindle
matraca

Poeta polifônico

30 abril, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Por que a poesia tem que se confinar

às paredes de dentro da vulva do poema?

por que proibir à poesia

estourar os limites do grelo

da greta

da gruta

e se espraiar além da grade

do sol nascido quadrado?

[…]

[trecho de “Exterior”]

 

A antologia Poesia total reúne pela primeira vez a obra poética completa de Waly Salomão, desde Me segura qu’eu vou dar um troço, passando por Gigolô de bibelôs, Algaravias, LábiaTarifa de embarque, até a publicação póstuma Pescados vivos. O volume traz ainda uma seção de canções inéditas em livro, além de apêndice com alguns dos mais relevantes textos críticos sobre sua obra, escritos por Antonio Cícero, Francisco Alvim e Davi Arrigucci Jr, entre outros.

Continue lendo

Send to Kindle
matraca

“Teu nome é para nós, Manuel, bandeira” *

29 abril, 2014 | Por Isabela Gaglianone

No dia 19 de abril lembrou-se os 128 anos do nascimento de Manuel Bandeira. O belo artigo de Elvia Bezerra, “Manuel Bandeira: a vida inteira”, publicado no blog do Instituto Moreira Salles, começa com uma citação do poema de Drummond, que parece, como diz Bezerra, estar “desafiando o silêncio da morte”:

Oi, poeta!

Do lado de lá, na moita, hein? fazendo seus novent’anos…

E se rindo, eu aposto, dessa bobagem de contar tempo,

de colar números na veste inconsútil do tempo, o inumerável,

o vazio-repleto, o infinito onde seres e coisas

nascem, renascem, embaralham-se, trocam-se,

com intervalos de sono maior, a que, sem precisão científica, chamamos de

[ morte.

[…]

Hoje me sobe o desejo

de saber o que fazes, como,

onde:

em que verbo te exprimes, se há verbo?

em que forma de poesia, se há poesia,

versejas?

em que amor te agasalhas, se há amor?

em que deus te instalas, se há deus?

 

No penúltimo dia de abril, esta Matraca, para fazer coro à homenagem ao poeta, lembra a publicação em livro, não de suas poesias, mas da correspondência trocada entre ele e Mário de Andrade: Continue lendo

Send to Kindle
Literatura

De delgadas raízes

28 abril, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Era preciso fechar a janela: a chuva estava batendo no peitoril e espirrando no soalho e nas poltronas. Com um som fresco, escorregadio, enormes espectros de prata corriam pelo jardim, através da folhagem, pela areia alaranjada. A calha tremia e engasgava. Você estava tocando Bach. A tampa laqueada do piano erguida, debaixo dela uma lira, e os martelinhos batiam nas cordas. A toalha de brocado, amassada em dobras ásperas, tinha escorregado um pouco da cauda, derrubando uma partitura aberta no chão. De quando em quando, em meio ao frenesi da fuga, seu anel batia na tecla enquanto, incessante, magnífica, a chuva de junho atacava as vidraças.  E você, sem parar de tocar, a cabeça ligeiramente inclinada, exclamava, no ritmo da música: ‘A chuva, a chuva… Eu vou afogar a chuva…’ […]”.

 

São 68 Contos reunidos, que Vladimir Nabokov escreveu entre os anos 1920 e 1950, a maioria deles traduzidos pela primeira vez para o português, por José Rubens Siqueira. Reunidos cronologicamente, esses contos revelam a engenhosidade do estilo de Nabokov, veia por onde correram sua criatividade inventiva e uma ironia sagaz, destiladas pelo passar dos anos.  Continue lendo

Send to Kindle
Arquitetura

A arquitetura do viver poético

25 abril, 2014 | Por Isabela Gaglianone

“Quantos são os que sabem distinguir o moderno “autêntico” das remastigações?” (Lina Bo, 1951).

Lina por escrito reúne 33 artigos que a arquiteta Lina Bo Bardi publicou em revistas italianas, como Lo StileGraziaDomus e A – Cultura della Vita, e em periódicos brasileiros, como Habitat Diário de Notícias de Salvador. São textos que discutem novos conceitos aplicados a temas como habitação, mobiliário, museologia, restauro, educação, arte popular e políticas culturais. Os textos são ilustrados por desenhos originais, fotografias e obras gráficas de Lina Bo. Organizados pela antropóloga Silvana Rubino e pela arquiteta Marina Grinover, são escritos que clamam por uma liberdade estética e política que permanece surpreendente no Brasil.

Continue lendo

Send to Kindle
matraca

Segura ele

24 abril, 2014 | Por Isabela Gaglianone

Pixinguinha. Um dos maiores compositores da música brasileira, responsável por dar forma definitiva ao choro, um instrumentista excepcional, quer como saxofonista, ou flautista. Além de um arranjador brilhante. Buscando privilegiar precisamente este aspecto de seu trabalho musical, o Instituto Moreira Salles, a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e as Edições Sesc São Paulo lançam agora a caixa Pixinguinha – Outras pautas, que reúne quarenta e quatro partituras de arranjos de Pixinguinha, sendo, dezenove deles, escritos para suas próprias composições, como os clássicos “Lamentos” e “Ainda me recordo”, o arranjo sinfônico para “Carinhoso” e até uma composição inédita, a polca “Cercando frango”.

Continue lendo

Send to Kindle